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Livros A história pouco
conhecida dos intelectuais expulsos
As estimativas variam de historiador para historiador, mas calcula-se que o regime de Josef Stalin tenha matado cerca de 20 milhões de pessoas. Diante dessas barbaridades, a expulsão de algumas dezenas de intelectuais da União Soviética, ocorrida em 1922 sete anos antes de Stalin subir ao poder e cinco depois da Revolução Russa , parece um episódio menor. A integridade física dos exilados, ainda que não pudessem levar muito mais do que a roupa do corpo, não foi ameaçada. A jornalista e escritora inglesa Lesley Chamberlain, no entanto, teve boas razões para pesquisar exaustivamente a história desse expurgo e para relatá-lo em detalhes em A Guerra Particular de Lenin (tradução de Alexandre Martins; Record; 420 páginas; 60 reais). Trata-se de registrar o momento em que a serpente põe o seu ovo, de analisar a violência totalitária ainda em embrião. A idéia de que Stalin representou um "desvio" em relação aos princípios revolucionários de Vladimir Lenin é exemplarmente derrubada nesse livro. Autora de um livro biográfico sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Nietzsche em Turim, de várias obras sobre a antiga União Soviética e até de livros sobre a culinária da Europa Oriental, Lesley dá importância um tanto exagerada ao "navio da filosofia", como ficou conhecido o vapor que conduziu os intelectuais indesejáveis ao exílio. O tal barco deveria "tornar-se um mito", diz ela. Talvez não seja para tanto. Os ocupantes do barco hoje são pouco conhecidos. Os nomes de maior relevo são o do filósofo Nikolai Berdiaev, cuja obra misturava política com messianismo místico, e o do sociólogo Pitirim Sorokin, que paradoxalmente tinha sido preso pelo governo czarista por suas idéias contestadoras. Para Sorokin, aliás, a deportação foi uma sorte grande: emigrado para os Estados Unidos, fundou o Departamento de Sociologia em Harvard e escreveu várias obras sobre o comportamento altruísta e a tipologia da cultura, entre outros temas. As razões para o degredo desses personagens nem sempre são claras. Pergunta a autora: "Que mal os matemáticos Polner e Selivanov tinham feito à causa bolchevique além de ensinar as pessoas a contar?". Ao falar sobre a diáspora russa, na segunda e na terceira parte do livro, Lesley não resiste à tentação de mencionar figuras conhecidas e charmosas, como o romancista Vladimir Nabokov e o lingüista Roman Jakobson, nenhum deles ligado ao "navio da filosofia". O livro perde força nesses trechos. A primeira parte da obra, que discute a expulsão e as razões de Lenin, é a mais interessante. Lenin sabia que os bolcheviques teriam de superar a tradicional cultura russa, da qual a religião, a monarquia, a estrutura feudal eram os esteios principais. O líder comunista desejava que sua ideologia fosse o antídoto para a tradição. O pensamento único e o coletivismo ideológico funcionariam como fator unificador, disciplinador das massas, substituindo, com o mesmo poder, a religião. Nesse contexto, não havia lugar para místicos como Berdiaev ou pensadores independentes como Sorokin. Razões mais circunstanciais também influíram na expulsão. Como a economia planificada redundou em fracassos, com diminuição da oferta de alimento, Lenin se viu forçado a adotar as medidas liberalizantes da NEP, a nova política econômica. Nessa abertura, ainda que modesta, havia o risco da "importação" de idéias "burguesas". Silenciar possíveis contestadores era uma forma de evitá-lo. O papel de Stalin na expulsão de intelectuais foi até certo ponto surpreendente. Naquele período ele havia se tornado secretário-geral do Partido Comunista "um funcionário de quem Lenin podia cobrar ações para implementar seu plano", de acordo com Lesley. Mas recebeu uma reprimenda do chefe por sua displicência em tocar o processo. Outro destacado bolchevique, Leon Trotsky, mostrou-se mais zeloso até escreveu um artigo com o título expressivo de "Ditadura do proletariado, onde está teu açoite?". Numa entrevista ao Pravda, jornal oficial do regime, disse: "Os elementos que estamos enviando para o exterior não têm valor político em si. Mas eles são armas potenciais nas mãos de nossos possíveis inimigos. No caso de novos problemas, todos esses elementos discordantes e incorrigíveis se tornarão agentes político-militares do inimigo. Seremos forçados a fuzilá-los de acordo com os regulamentos de guerra". Ou seja: a deportação era, para as vítimas, o mal menor. Derrotado por Stalin na briga pela sucessão de Lenin, o próprio Trotsky seria morto, em seu exílio no México, por um agente stalinista, em 1940. Eis a lição de história de Lesley Chamberlain: o assassinato de Trotsky e de outros milhões já estava anunciado na triste viagem do navio da filosofia.
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