|
Comportamento Um livro
em que os nerds aparecem como seres deste planeta
São da década de 50 os primeiros registros de uso da palavra "nerd" e a ela se atribuem as mais diferentes origens. Numa das versões mais divulgadas, o termo teria surgido no Canadá, onde um grupo de jovens cientistas não fazia outra coisa senão varar noites na divisão de pesquisa e desenvolvimento (research and development, abreviado como R&D em inglês) da Northern Electric, então um atuante laboratório de tecnologia. Mais conhecido pela sigla com suas iniciais, Nerd, o nome do tal laboratório passou a ser sinônimo daqueles jovens branquelos de óculos espessos, vidrados num computador e pouco afeitos ao ar livre. Saiu um livro que, pela primeira vez, faz um mergulho no universo nerd com base numa pesquisa de caráter científico, conduzida pelo psicólogo americano David Anderegg nos últimos sete anos. Autor de Nerds: Who They Are and Why We Need More of Them (Nerds: Quem São e por que Precisamos Mais Deles, ainda sem tradução), Anderegg ele próprio um nerd assumido observou mais de 1 000 casos para chegar às suas conclusões. Algumas delas reforçam o senso comum: seus entrevistados são seres capazes tanto de abdicar da praia para decifrar o cubo mágico como de passar semanas a fio longe do espelho. O livro avança, na realidade, ao mostrar que eles não são necessariamente bitolados, feios ou fracassados na vida amorosa o que mais os une é uma admiração pela precisão e pela lógica, rara de ver em crianças e jovens, daí a tese do livro: "O preconceito em relação aos nerds só atrapalha. Nunca precisamos tanto deles". O animado quinteto de adolescentes na foto ao lado "nerds, com todo o orgulho" concentra três das características que o americano David Anderegg e tantos outros especialistas consideram fundamentais às sociedades modernas: além do profundo apreço pelas ciências exatas, eles têm uma espécie rara de curiosidade que os faz embrenhar-se por assuntos como robótica e astronomia e, sim, apresentam desempenho notável na escola. O estudante André Pereira, de 15 anos, resume o clima do grupo: "Passamos os sábados em fascinantes aulas de física. Poucas coisas nos divertem tanto". Poder contar com nerds como o jovem André, movido pelo pragmatismo em relação aos estudos e pela curiosidade científica, é condição necessária para o desenvolvimento tecnológico e o conseqüente crescimento econômico. O Brasil, não há dúvida, precisa melhorar aí, e um estudo da OCDE (organização que reúne países da Europa e os Estados Unidos) dá os números. Apenas 12% dos brasileiros saem da universidade diplomados em carreiras ligadas à área de exatas. Nos países da OCDE, eles são 25%. Na China e na Coréia do Sul, a nova geração de matemáticos, físicos e engenheiros representa algo como 40% do total de graduados.
Questões bastante básicas, entre elas a falta de professores especializados em ciências nas escolas brasileiras e sua incapacidade em despertar o interesse das crianças, ajudam a explicar a baixa procura por tais carreiras. Outro motivo para tanta gente fugir das ciências no Brasil, esse bem menos comentado, diz respeito a um preconceito sofrido por jovens como o estudante Wilson Hirata, de 16 anos, um nerd típico. Ele diz: "Minhas professoras sempre leram as notas dos alunos na frente da turma e eu morria de vergonha quando tirava 10 em matemática ou física". Esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. O preconceito em relação aos estudantes com evidente aptidão para as ciências exatas é um assunto sobre o qual especialistas de muitos países já escreveram. Ele piora quando o alvo são os nerds. Diz o psicólogo David Anderegg: "Transmitimos o tempo todo para as crianças o estereótipo segundo o qual ótimos alunos com admiração pela matemática são também pessoas feias e incapazes de arranjar namorado". Diante desse cenário, ele observou que muitas crianças abandonam tais matérias na tentativa de livrar-se do rótulo de nerd. Não foi o único. A psicóloga paulista Ceres Araujo percebeu o mesmo movimento, com base em sua experiência de consultório: "Crianças brilhantes deixam de estudar matemática para não sobressair. Não existe nenhum atributo positivo tão constrangedor". O auge do preconceito em relação aos nerds ocorre na fase escolar, sobretudo até os 14 anos, de acordo com os estudos de Anderegg. Depois dessa fase, os jovens passam a ver novas nuances nos colegas com tais características e começam a entender o fato de um nerd desfrutar popularidade com as meninas ou ainda ser visto à noite numa discoteca. Mais do que isso: na universidade, os nerds podem até se tornar alvo de admiração. Contribui para esse cenário mais favorável um conjunto de histórias de sucesso vividas por nerds famosos, como Bill Gates. Dono da Microsoft e um dos homens mais ricos do planeta, a ele é atribuída a frase: "Seja legal com os nerds. São grandes as chances de você acabar trabalhando para um deles". Gates e tantos outros casos de carreiras fulminantes em áreas ligadas à tecnologia, sobretudo a partir da década de 90, são vistos como modelos a ser perseguidos e, com isso, ajudam a desconstruir a velha imagem negativa dos nerds. Fica mais fácil para gente como o programador de sistemas Alberto DellIsola, 28 anos, assumir sua condição de nerd. DellIsola tem orgulho em enumerar algumas das características que o tornam merecedor do rótulo: ostenta recordes em campeonatos mundiais de memória, participou de treinamentos espaciais na Nasa, sabe tudo sobre Guerra nas Estrelas e jura decifrar o cubo mágico em menos de um minuto. Ele diz: "Na infância, sofri horrores por ser nerd. Hoje isso é bom para mim".
Quando é bem administrada, no entanto, a obsessão dos nerds pode funcionar de maneira positiva, como um motor para alcançarem o auge do desempenho intelectual. Não é de estranhar que essa tenha sido uma marca também na vida de alguns dos maiores gênios da história. Para otimizar as horas, o pintor Leonardo da Vinci (1452-1519), idealizador do princípio do vôo do helicóptero, por exemplo, escrevia com as duas mãos ao mesmo tempo com uma, registrava suas observações científicas; com a outra, botava as idéias no papel. Como às vezes as palavras saíam de trás para a frente, era necessário usar um espelho para decifrar o texto. O compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), por sua vez, amava tanto a música que passou a juventude copiando exaustivamente, às escondidas, as partituras do irmão mais velho, que se recusava a emprestá-las. Isso no meio da noite, sem acender a luz, fato que, segundo seus bió-grafos, teria contribuído para sua cegueira na velhice. Aos 10 anos, o carioca Pedro Chediak, admirador desses e de outros gênios, já está ciente do retorno de sua própria obsessão pelos estudos. "Adoro tirar notas boas e sei que me darei bem no futuro." Palavra de nerd.
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|