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5 de março de 2008
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Internacional
O encrenqueiro mora ao lado

O candidato favorito nas eleições paraguaias
quer forçar o Brasil a pagar mais por Itaipu


Duda Teixeira, de Assunção

Fotos Jorge Saenz/AP e Adriana Franciosi/Zero Hora
Lugo, à esquerda, e sacoleiros na Ponte da Amizade, à direita: contra o Brasil

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O barão do Rio Branco, criador da moderna diplomacia brasileira, enviou em 1905 uma carta ao seu representante no Paraguai com a seguinte mensagem: "Um vizinho turbulento é sempre um vizinho incômodo e perigoso". Nas próximas eleições presidenciais paraguaias, em 20 de abril, um recado similar poderia partir de Brasília. O "vizinho turbulento", no caso, é Fernando Lugo, candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto. Ele adotou como bandeira uma curiosa e paroquial versão da desacreditada teo-ria da dependência. A originalidade dessa reformulação reside na substituição dos Estados Unidos pelo Brasil no papel de inimigo externo, com ambições imperialistas. Há duas providências que Lugo promete tomar, caso venha a se sentar na cadeira de presidente. A primeira é multiplicar por sete o valor que o Brasil paga atualmente pela energia fornecida pela usina de Itaipu, passando de 250 milhões para 1,8 bilhão de dólares por ano. A segunda é uma "reforma agrária integral". Para os fazendeiros brasileiros com terras no país vizinho, o adjetivo significa que suas propriedades estão em risco.

Ele pretende realmente declarar guerra aos brasiguaios? Em muitos aspectos práticos, os planos de Lugo são um enigma. Pode-se, por analogia, dimensionar seu potencial de vizinho encrenqueiro. A versão paraguaia do MST, da qual o candidato é um dos patronos, invade de preferência a propriedade de brasileiros. Há também o Movimento Tekojoja, que faz parte da coalizão por trás da candidatura e só tem como razão de existência a luta contra "o imperialismo brasileiro". A defesa que Lugo faz de uma "soberania energética" lembra a retórica do boliviano Evo Morales. Este pegou o Brasil desprevenido e expropriou duas refinarias da Petrobras, em 2006. "Como disse Evo a Lula, não queremos um preço solidário, queremos um preço justo", afirma Lugo. Um avanço paraguaio sobre a usina binacional da forma feita por Morales, com uma truculenta ocupação militar, não apenas é improvável, mas totalmente inviável. A relação de forças entre os dois países e os interesses envolvidos são totalmente diferentes. "Como a energia de Itaipu é muito mais importante que o gás natural da Bolívia, Lugo tem tudo para dar mais dores de cabeça ao Brasil do que Morales", diz o historiador Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra, o mais abrangente livro sobre a Guerra do Paraguai.

Itaipu, que pertence em partes iguais aos dois países, é responsável por 20% da energia elétrica consumida no Brasil. Ela é a grande geradora de eletricidade para a indústria das regiões Sudeste e Sul. Pelo acordo entre Paraguai e Brasil que permitiu a construção da hidrelétrica, cada um tem o direito de usar metade da energia produzida. Caso não a utilize, sua obrigação é vendê-la ao parceiro. O Paraguai vende ao Brasil 87% da energia a que tem direito. Para um país que não desembolsou nem 1 centavo pela obra (totalmente paga pelo Brasil), trata-se de um excelente negócio. O cálculo do preço da energia de Itaipu é feito com base nas regras definidas pelo tratado bilateral de 1973. O Brasil paga 74 reais pelo megawatt/hora de Itaipu, o que está longe de ser uma pechincha. O valor pago a outras usinas varia de 50 a 95 reais por megawatt/hora.

Lugo, de 56 anos, tornou-se conhecido como bispo da Província de San Pedro, onde se concentram os maiores conflitos por terra no Paraguai. Partidário da Teologia da Libertação, ele aderiu ao MST e passou a ser chamado de "bispo dos pobres". Em dezembro de 2006, pendurou a batina para concorrer à Presidência. A Constituição paraguaia proíbe religiosos de se candidatar a cargos políticos, mas seus adversários perderam o prazo para pedir sua impugnação. Em entrevistas a jornais paraguaios, ele diz que o "socialismo do século XXI" do venezuelano Hugo Chávez é "muito estimulante". Quando fala à imprensa brasileira, cuida das palavras. Em entrevista a VEJA, na sala de sua casa em Assunção (onde vive em companhia de uma freira e dois sobrinhos), Lugo fez questão de demonstrar a distância existente entre seu projeto político e o de populistas no poder em outros países. "Há muitas diferenças entre mim e Chávez ou Morales. Não quero ficar mais do que dois mandatos, não sou um militar nem pretendo impor um partido único ao país", disse.

Fotos Jorge Adorno/Reuters e Cristaldo/EFE
O general Oviedo (à esq.) e Blanca (à dir.) estão empatados em segundo lugar nas pesquisas: a renegociação do acordo de Itaipu começa a dominar a campanha

O Paraguai é um país pequeno, de economia diminuta. Seu produto interno bruto (PIB) é de 11 bilhões de dólares, menos do que o orçamento municipal de São Paulo. A falta de relevância do país torna as coisas piores: ninguém está preocupado com as eleições paraguaias – só o Brasil. O que vai acontecer depende, evidentemente, das urnas. A diferença entre Lugo e os outros dois concorrentes – Lino Oviedo e Blanca Ovelar – está em torno de 8%. Lino, o general que tentou um golpe em 1996 e passou anos exilado no Brasil, e Blanca, a candidata do governo, estão tecnicamente empatados. Não será surpresa se ela ganhar, visto o poder de mobilização do Partido Colorado, que governa o país desde os anos 40. Um em cada quatro paraguaios é colorado de carteirinha. Há risco de ambos os candidatos se deixarem contaminar pelo discurso "Itaipu es nuestra". Blanca é a mais vulnerável. Em entrevista a VEJA, ela disse que pretende criar uma comissão para estudar o tratado antes de pedir uma renegociação com o Brasil.

Como sempre, quem mais tem a temer de um presidente populista são os próprios paraguaios. Os populistas acreditam que a riqueza de um país está em seus recursos naturais e no nacionalismo econômico. Os exemplos da China e da Coréia do Sul mostram que a educação universal, o investimento em tecnologia e a abertura econômica são o único caminho de eficiência comprovado. Meio milhão de brasileiros e seus descendentes vivem no Paraguai (8% da população). Eles são responsáveis por 98% da produção de soja, o principal produto de exportação do país (54% do total). Muitos paraguaios se ressentem de ser vistos no Brasil como falsificadores – uma fama decorrente do contrabando que vem de Ciudad del Este. O fato real é que, mesmo sem incluir a muamba, o Brasil é o maior parceiro comercial do Paraguai. Lugo quer esfriar essa amizade.

 

 



 

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