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Em nome do filho

Pai de um deficiente, o japonês
Kenzaburo Oe inspirou-se nessa
situação para escrever o romance
Uma Questão Pessoal



Veja também
Trechos do livro

Em 1963, quando Kenzaburo Oe tinha 28 anos, seu filho nasceu com um sério dano cerebral. O escritor japonês mergulhou na mais profunda depressão. Seu desejo era abandonar a criança à própria sorte e esperar que morresse logo. Enquanto ele se debatia com essa angústia, uma revista o convidou para fazer uma reportagem com os sobreviventes da explosão da bomba atômica em Hiroshima. No maior hospital de tratamento das vítimas da radiação, Oe entrevistou vários médicos. "Eles haviam iniciado seu trabalho no dia do bombardeio, sem nenhuma idéia de como agir", relembrou o escritor em entrevista a VEJA, na semana passada. "Mesmo assim, eles foram adiante e acharam maneiras de cuidar dos pacientes. Era o oposto da minha atitude. Tudo o que eu queria era escapar de meu drama familiar. Ao encontrar aqueles médicos, eu me senti profundamente envergonhado." Depois da experiência em Hiroshima, Oe decidiu dar uma guinada. Permaneceu ao lado de seu filho, Hikari. Mais que isso, escapou do abatimento e iniciou a construção de uma formidável carreira literária, reconhecida em 1994 com o Prêmio Nobel de Literatura. O primeiro passo nessa trajetória foi o romance Uma Questão Pessoal (tradução de Shintaro Hayashi; Companhia das Letras; 222 páginas; 33 reais). É o único livro do autor disponível no Brasil, além de O Grito Silencioso, lançado nos anos 80 e esgotado há tempos.


Uma Questão Pessoal
começa com o jovem Bird caminhando pelas ruas de Tóquio, enquanto sua mulher enfrenta um parto difícil na maternidade. Apesar do apelido inglês, Bird é um japonês comum, que não se diferencia de nenhum de seus vizinhos exceto pela sensação perturbadora de que está desperdiçando a própria vida, "saltando como uma rã de uma falsidade a outra". Nem mesmo a idéia de ter um filho lhe proporciona alegria ou entusiasmo. Mas, quando a criança nasce com uma hérnia no cérebro, Bird entra em pânico. Tudo o que quer é escapar do "monstruoso bebê" – atirando-se na cama de uma amante ou sonhando em fugir para a África. A tragédia do personagem, portanto, é quase idêntica à de seu criador. Mas não se deve esquecer que o livro é um romance, e não um relato autobiográfico. E isso faz muita diferença, sobretudo por conferir à história uma dimensão mais universal e menos particular. Bird, de certa maneira, é qualquer homem que se recusa a assumir responsabilidades. E, pelo mesmo motivo, sua redenção final traz uma mensagem mais ampla. Pode-se dizer que o título Uma Questão Pessoal é quase uma ironia, pois, segundo Oe, "não existem questões puramente pessoais: todas elas estão ligadas ao mundo social".

Uma Questão Pessoal traz o embrião de um conceito que, mais tarde, se tornaria fundamental para Oe: o de que a arte é uma espécie de terapia. Novamente, foi uma experiência com seu filho que levou o escritor a essa concepção. Nos primeiros anos de vida, Hikari foi incapaz de falar. Ele só prestava atenção ao canto dos pássaros, e seus pais o deixavam por horas escutando gravações com os sons de aves, cujos nomes depois eram mencionados por um locutor. Quando ele completou 6 anos, um evento extraordinário ocorreu. Durante um passeio, Hikari ouviu o canto de um pássaro e imediatamente repetiu seu nome. Desse dia em diante, não apenas foi possível ensiná-lo a se comunicar, como Hikari ainda se transformou em músico e compositor (veja quadro abaixo). Em várias ocasiões, Oe observou como a música havia ajudado seu filho a se recuperar, e como escrever havia permitido que ele mesmo lutasse contra seus traumas. "A arte fez isso por minha família, e gosto de pensar que pode fazer o mesmo por meus semelhantes. É para ajudá-los a curar feridas que eu continuo a escrever", diz ele. Diante de livros como Uma Questão Pessoal, é até possível acreditar nessa idéia.

 

UM ESTRANHO PODER DE CURA

"Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte."

Trecho do discurso de aceitação do
Prêmio Nobel de Kenzaburo Oe



   
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