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A
arte de sobreviver
Em O Pianista, Polanski faz uma
viagem ao seu
passado de judeu
perseguido pelo nazismo
Isabela
Boscov
Divulgação
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| Brody,
como Szpilman: sem nenhum heroísmo |

Veja também |
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Quase
todas as histórias a respeito de sobreviventes do holocausto contêm
algum momento de heroísmo. Mas, para cada uma delas, é provável
que haja outra como a do judeu polonês Wladyslaw Szpilman, em cujas
memórias da perseguição nazista se baseia O
Pianista (The Pianist, França/Polônia/Alemanha/Inglaterra,
2002), que estréia nesta sexta-feira no país. Szpilman tocava
o Noturno de Frédéric Chopin num programa da rádio
de Varsóvia, em 1939, quando os alemães entraram na cidade.
Os Szpilman pai, mãe, duas filhas e dois filhos, entre eles
Wladyslaw viviam bem e eram instruídos. Como muitas outras
famílias judias, reagiram com certa incredulidade aos primeiros
sinais de segregação. Quando a Inglaterra declarou guerra
a Adolf Hitler, acharam que tudo logo se resolveria. Estavam, claro, enganados.
A queda foi rápida, como narra Szpilman no livro que publicou em
1946. Primeiro veio a limitação das quantias em dinheiro
que os judeus podiam guardar. Depois, as braçadeiras com a estrela-de-davi,
a proibição de entrar em restaurantes, de sentar nos bancos
dos parques, de freqüentar escolas. Em seguida, o transporte para
o gueto, os trabalhos forçados, a fome, as execuções
casuais, os cadáveres largados pelas ruas, a deportação
para os campos e o extermínio.
Essa escalada tétrica já foi amplamente documentada. O que
há de diferente em O Pianista é que Wladyslaw (soberbamente
interpretado pelo americano Adrien Brody) não é um herói,
pelo menos não na acepção do termo. O músico
sobreviveu durante seis anos sem sair de Varsóvia um entre
talvez duas dezenas de judeus que o conseguiram , às vezes
por causa de sua música, outras vezes por sorte. Quase sempre,
contudo, resistiu simplesmente por ser capaz de resistir por se
humilhar para pedir ajuda, por ter paciência para enfrentar a solidão,
por não ceder ao desespero da fome, por não enlouquecer
com o tédio. E também por ter enfrentado a culpa de todos
os que não foram mortos o de viver cada dia a mais como
uma conquista e um castigo, conforme mostra em seu filme o diretor polonês
Roman Polanski, também ele um sobrevivente do nazismo.
Polanski nasceu em Paris, mas tinha 6 anos e morava em Cracóvia
desde os 3 quando a guerra começou. Todas as tentativas de escondê-lo
com alguma família não-judia resultaram em fracasso. No
dia em que o gueto foi liquidado, seus pais foram para o campo de concentração
de Auschwitz. Ele só não teve o mesmo destino porque, na
última hora, seu pai fez com que ele fugisse por um buraco no muro.
A mãe de Polanski, que estava grávida de quatro meses, foi
quase que diretamente para a câmara de gás. Seu pai sobreviveu,
mas os dois só se reveriam muito depois de terminado o conflito.
Durante a guerra, Polanski vagou pelo interior da Polônia (onde
em várias ocasiões serviu como alvo móvel para soldados
alemães) ou se refugiou com camponeses. Encontrado por fim por
um tio, o garoto foi morar com os parentes, mas era tido como intratável
e egocêntrico. Ao mesmo tempo, relatou um membro da família
à revista The New Yorker há alguns anos, não
havia quem não se dobrasse ao seu charme e otimismo. Desde o início
brilhante de sua carreira, na Polônia dos anos 50, Polanski se destacava
pela total ausência de sentimentos de inferioridade, quase uma epidemia
no massacrado Leste Europeu de então. "Era como se ele estivesse
disparando rumo ao futuro", descreveu o cineasta Andrzej Wajda. Outros
diziam que ele era mesmo como um foguete mas em fuga do passado.
No início dos anos 60, Polanski ganhou projeção mundial
com o suspense A Faca na Água. Daí para a França
e os Estados Unidos, os passos foram curtos. Depois do sucesso de O
Bebê de Rosemary, em 1968, poucos cineastas eram tão
disputados quanto ele. Poucos também viviam tão à
grande e tinham amigos tão animados. Em 9 de agosto de 1969, o
diretor estava em Londres quando foi avisado de que sua mulher, a atriz
americana Sharon Tate, fora assassinada aos oito meses de gravidez, junto
com outras quatro pessoas, em sua própria casa, pelo psicopata
Charles Manson e seus seguidores. Choveram insinuações de
que Polanski havia cortejado esse horror com seu estilo de vida e seus
filmes. Essa imagem de dissolução ganhou força redobrada
quando, em 1977, ele foi preso por ter mantido relações
sexuais com uma menina de 13 anos, Samantha Geimer.
Polanski estava fazendo um ensaio fotográfico para uma revista
e Samantha era uma de suas modelos. Depois de fotografar a menina na casa
dela, ele pediu para levá-la para outra locação.
Apesar da notória preferência de Polanski por mulheres muito
jovens, a mãe da garota consentiu em que ela fosse sozinha. Samantha
e Polanski foram parar na casa vazia de Jack Nicholson,
seu amigo desde Chinatown. Hoje casada e mãe de três
filhos, Samantha diz ter sido embebedada e drogada pelo diretor, e seduzida
contra sua vontade. Polanski alega que, pelo ânimo e experiência
da menina, nunca adivinharia sua idade. Denunciado pela mãe de
Samantha no dia seguinte, o diretor passou 42 dias na prisão, para
avaliação psicológica (da qual saiu com ótimas
notas). Pelo acordo entre defesa e promotoria, ele responderia apenas
à mais leve das seis acusações. O juiz, porém,
mudou de idéia. Avisado de que iria ser preso de novo e então
deportado, Polanski fugiu na hora para Paris por ser cidadão
francês, está livre da extradição. Segundo
as autoridades americanas, nada mudou desde então: se Polanski
voltar, vai para a cadeia. Ou seja, não pode comparecer ao Oscar,
ao qual está sendo indicado pela quarta vez. Nas várias
vezes em que foi indagado sobre essa questão, o diretor respondeu
que sente saudade da eficiência de Hollywood, mas tem paz em Paris.
Aos 69 anos, casado desde 1989 com a atriz francesa Emmanuelle Seigner,
33 anos mais jovem, e pai de duas crianças, Polanski diz inclusive
ser grato às tragédias e erros do passado, já que
eles é que o conduziram ao que é e tem hoje.
Superficialmente, a revisão de parte desse passado em O Pianista
pode ser lida como uma anomalia na carreira do diretor, que sempre afirmou
que sua biografia e seus filmes são departamentos distintos, e
que só filmou a história de Szpilman porque ela não
é a sua. Há alguns anos, porém, a crítica
começou a se dar conta de que nada ilumina os filmes de Polanski
melhor do que aquilo que a sua biografia lhe ensinou a claustrofobia
do gueto, a persistência do mal, o imperativo da fuga. Ou ainda
o instinto de resistir e olhar à frente. Visto por esse ângulo,
O Pianista é mais do que autobiográfico. É
um testamento.
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