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A
morena é tudo
Sem Catherine Zeta-Jones, o musical
Chicago iria dançar - no mau sentido
Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| Velma
(Catherine) faz seu show depois de cometer duplo homicídio:
ao contrário de Renée e Gere (à dir.),
a atriz se defende em todos os flancos |

Veja também |
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Em
pouco mais de cinqüenta anos, entre meados do século XIX e
o início do século XX, Chicago passou de um mero vilarejo
ao posto de segunda maior metrópole americana, atrás apenas
de Nova York. Na mesma proporção em que cresciam a riqueza
da cidade e a sua vocação para o vanguardismo cultural,
proliferavam também a corrupção e a criminalidade.
Na década de 20, não havia lugar mais fervilhante nos Estados
Unidos, com os arranha-céus subindo, o mafioso Al Capone dando
as cartas e os speakeasies, onde se podia ouvir jazz e consumir
livremente bebida ilegal, sempre lotados. Por isso a peça Chicago,
escrita em 1926 pela jornalista Maurine Dallas Watkins, tinha um sabor
tão marcante de aqui-e-agora. Maurine era uma sulista que dois
anos antes se empregara no jornal Chicago Tribune para escrever
sobre crime. A competição, evidentemente, era acirrada.
Mas ela teve a sorte de emplacar uma série de manchetes com dois
assassinatos que viraram sensação na cidade, ambos cometidos
por mulheres jovens e atraentes, que haviam se livrado de seus respectivos
amantes com um bocado de sangue-frio. Maurine juntou as duas histórias,
preservou seus detalhes mais coloridos e se tornou a autora de um sucesso
inacreditável, cuja versão mais célebre é
o musical da Broadway dirigido e coreografado por Bob Fosse em 1975. É
ele, mais do que o original de Maurine, que serve de base ao filme Chicago
(Estados Unidos/Canadá, 2002), que estréia nesta sexta-feira
no país com o recorde de indicações ao Oscar 2003
treze no total, em doze categorias, já que Catherine Zeta-Jones
e Queen Latifah disputam o mesmo prêmio, de atriz coadjuvante.
Catherine interpreta Velma Kelly, estrela dos cabarés que mata
a irmã e o marido e, sem perder a pose, sobe ao palco para fazer
seu show. Na platéia está Roxie Hart (Renée Zellweger),
a clássica loirinha interiorana que tem um marido inocente (John
C. Reilly) e um amante desonesto. Naquela mesma noite, Roxie descobre
que as promessas do amante de lhe arrumar uma chance no showbiz eram falsas,
e assassina o mentiroso. Velma e Roxie se conhecem na prisão, e
imediatamente se tornam rivais pelo espaço nos jornais e pelos
serviços de Billy Flynn (Richard Gere), um advogado de porta de
cadeia que garante poder colocá-las em liberdade. Numa cidade como
Chicago, tudo é espetáculo e ninguém se salva, é
a moral da peça de Maurine. Bob Fosse, que vinha do sucesso de
Cabaret (pelo qual ganhou o Oscar de direção), entendeu
bem o espírito da coisa e o recriou de forma notável para
a platéia dos Estados Unidos pós-Vietnã e pós-Watergate.
Suas coreografias vigorosas, quase lascivas, que fundiam de forma estilizada
elementos dos cabarés berlinenses e uma montanha de influências
(em especial do vaudeville, no qual Fosse nasceu e se criou), são
até hoje o que há de mais moderno, e mais imitado, no universo
da Broadway. Em tempo: Chicago, o filme, não tem nem vestígio
da ressonância que Fosse imprimiu ao seu espetáculo. Aqui
estamos no território do mero entretenimento, sem nenhum outro
horizonte à vista.
No filme, as estupendas canções de John Kander e Fred Ebb
permanecem intactas, mas as coreografias de Fosse (que morreu em 1987)
foram adaptadas pelo diretor estreante Rob Marshall para se acomodar à
câmera e às limitações, que não são
poucas, do elenco. Isso torna Chicago quase que uma síntese
das virtudes e pecados dessa aparente ressurreição do gênero
musical, inaugurada com Moulin Rouge. De um lado, está-se
lidando com um formato cujas convenções perderam o sentido
décadas atrás. É difícil, por exemplo, encontrar
um espectador que não se incomode com personagens que irrompem
numa canção, sem motivo para tanto. Fazer um musical nos
dias de hoje, portanto, requer que novas regras sejam inventadas sob medida
para o roteiro em questão. Em Chicago, quase todos os números
musicais acontecem na imaginação de Roxie, o que elimina
de forma muito engenhosa esse estranhamento. A desvantagem é que,
por ser um gênero praticado de forma tão ocasional, não
há mais gente especializada em filmá-lo. Isso vale para
o diretor Rob Marshall, que organiza toda a ação como se
ela estivesse acontecendo num proscênio, e vale também para
os atores recrutá-los da Broadway, onde os nomes não
são conhecidos na escala que uma produção cara exige,
não é uma opção que os estúdios considerem
viável. Até agora, só surgiram duas saídas
para esse impasse: virar o musical do avesso, como fez o dinamarquês
Lars von Trier em Dançando no Escuro, ou achar astros que
se virem no canto e na dança, como acontece em Chicago.
Aí os altos e baixos são inevitáveis, assim como
os cortes pouco sutis para os dublês que fazem os passos de que
o elenco não é capaz.
Richard Gere, por exemplo, diz que ensaiou quatro meses seguidos até
conseguir sapatear sem pensar. Isso, pelo menos, é o que ele acredita.
Do lado de cá da tela, seus esforços continuam tão
desajeitados quanto a sua atuação. Gere é seguido
não de muito longe por Renée, que, como dançarina,
é uma atriz razoável. A única aqui que não
sai chamuscada é Catherine Zeta-Jones. Com sua ebuliência
e suas pernas intermináveis, Catherine dança bem, defende-se
com dignidade como cantora e está numa forma dramática comparável
à que mostrou em Traffic. Além disso, ela tira ótimo
partido da rivalidade que se instaurou entre ela e Renée no set
(e que, segundo consta, foi instigada pelo maridão Michael Douglas),
agora desmentida por uma e outra com juras de admiração
mútua. Indicá-la como coadjuvante e a Renée como
atriz principal é uma decisão que parece ter mais a ver
com política do que com mérito. Catherine é a melhor
razão para assistir a Chicago.
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