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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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A morena é tudo

Sem Catherine Zeta-Jones, o musical
Chicago iria dançar - no mau sentido

Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Velma (Catherine) faz seu show depois de cometer duplo homicídio: ao contrário de Renée e Gere (à dir.), a atriz se defende em todos os flancos


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Em pouco mais de cinqüenta anos, entre meados do século XIX e o início do século XX, Chicago passou de um mero vilarejo ao posto de segunda maior metrópole americana, atrás apenas de Nova York. Na mesma proporção em que cresciam a riqueza da cidade e a sua vocação para o vanguardismo cultural, proliferavam também a corrupção e a criminalidade. Na década de 20, não havia lugar mais fervilhante nos Estados Unidos, com os arranha-céus subindo, o mafioso Al Capone dando as cartas e os speakeasies, onde se podia ouvir jazz e consumir livremente bebida ilegal, sempre lotados. Por isso a peça Chicago, escrita em 1926 pela jornalista Maurine Dallas Watkins, tinha um sabor tão marcante de aqui-e-agora. Maurine era uma sulista que dois anos antes se empregara no jornal Chicago Tribune para escrever sobre crime. A competição, evidentemente, era acirrada. Mas ela teve a sorte de emplacar uma série de manchetes com dois assassinatos que viraram sensação na cidade, ambos cometidos por mulheres jovens e atraentes, que haviam se livrado de seus respectivos amantes com um bocado de sangue-frio. Maurine juntou as duas histórias, preservou seus detalhes mais coloridos e se tornou a autora de um sucesso inacreditável, cuja versão mais célebre é o musical da Broadway dirigido e coreografado por Bob Fosse em 1975. É ele, mais do que o original de Maurine, que serve de base ao filme Chicago (Estados Unidos/Canadá, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país com o recorde de indicações ao Oscar 2003 – treze no total, em doze categorias, já que Catherine Zeta-Jones e Queen Latifah disputam o mesmo prêmio, de atriz coadjuvante.

Catherine interpreta Velma Kelly, estrela dos cabarés que mata a irmã e o marido e, sem perder a pose, sobe ao palco para fazer seu show. Na platéia está Roxie Hart (Renée Zellweger), a clássica loirinha interiorana que tem um marido inocente (John C. Reilly) e um amante desonesto. Naquela mesma noite, Roxie descobre que as promessas do amante de lhe arrumar uma chance no showbiz eram falsas, e assassina o mentiroso. Velma e Roxie se conhecem na prisão, e imediatamente se tornam rivais pelo espaço nos jornais e pelos serviços de Billy Flynn (Richard Gere), um advogado de porta de cadeia que garante poder colocá-las em liberdade. Numa cidade como Chicago, tudo é espetáculo e ninguém se salva, é a moral da peça de Maurine. Bob Fosse, que vinha do sucesso de Cabaret (pelo qual ganhou o Oscar de direção), entendeu bem o espírito da coisa e o recriou de forma notável para a platéia dos Estados Unidos pós-Vietnã e pós-Watergate. Suas coreografias vigorosas, quase lascivas, que fundiam de forma estilizada elementos dos cabarés berlinenses e uma montanha de influências (em especial do vaudeville, no qual Fosse nasceu e se criou), são até hoje o que há de mais moderno, e mais imitado, no universo da Broadway. Em tempo: Chicago, o filme, não tem nem vestígio da ressonância que Fosse imprimiu ao seu espetáculo. Aqui estamos no território do mero entretenimento, sem nenhum outro horizonte à vista.

No filme, as estupendas canções de John Kander e Fred Ebb permanecem intactas, mas as coreografias de Fosse (que morreu em 1987) foram adaptadas pelo diretor estreante Rob Marshall para se acomodar à câmera e às limitações, que não são poucas, do elenco. Isso torna Chicago quase que uma síntese das virtudes e pecados dessa aparente ressurreição do gênero musical, inaugurada com Moulin Rouge. De um lado, está-se lidando com um formato cujas convenções perderam o sentido décadas atrás. É difícil, por exemplo, encontrar um espectador que não se incomode com personagens que irrompem numa canção, sem motivo para tanto. Fazer um musical nos dias de hoje, portanto, requer que novas regras sejam inventadas sob medida para o roteiro em questão. Em Chicago, quase todos os números musicais acontecem na imaginação de Roxie, o que elimina de forma muito engenhosa esse estranhamento. A desvantagem é que, por ser um gênero praticado de forma tão ocasional, não há mais gente especializada em filmá-lo. Isso vale para o diretor Rob Marshall, que organiza toda a ação como se ela estivesse acontecendo num proscênio, e vale também para os atores – recrutá-los da Broadway, onde os nomes não são conhecidos na escala que uma produção cara exige, não é uma opção que os estúdios considerem viável. Até agora, só surgiram duas saídas para esse impasse: virar o musical do avesso, como fez o dinamarquês Lars von Trier em Dançando no Escuro, ou achar astros que se virem no canto e na dança, como acontece em Chicago. Aí os altos e baixos são inevitáveis, assim como os cortes pouco sutis para os dublês que fazem os passos de que o elenco não é capaz.

Richard Gere, por exemplo, diz que ensaiou quatro meses seguidos até conseguir sapatear sem pensar. Isso, pelo menos, é o que ele acredita. Do lado de cá da tela, seus esforços continuam tão desajeitados quanto a sua atuação. Gere é seguido não de muito longe por Renée, que, como dançarina, é uma atriz razoável. A única aqui que não sai chamuscada é Catherine Zeta-Jones. Com sua ebuliência e suas pernas intermináveis, Catherine dança bem, defende-se com dignidade como cantora e está numa forma dramática comparável à que mostrou em Traffic. Além disso, ela tira ótimo partido da rivalidade que se instaurou entre ela e Renée no set (e que, segundo consta, foi instigada pelo maridão Michael Douglas), agora desmentida por uma e outra com juras de admiração mútua. Indicá-la como coadjuvante e a Renée como atriz principal é uma decisão que parece ter mais a ver com política do que com mérito. Catherine é a melhor razão para assistir a Chicago.

 
AS INDICAÇÕES

Melhor filme
Direção – Rob Marshall
Atriz – Renée Zellweger
Ator coadjuvante – John C. Reilly
Atriz coadjuvante – Catherine Zeta-Jones
Atriz coadjuvante – Queen Latifah
Roteiro adaptado
Montagem
Fotografia
Direção de arte
Figurino
Som
Canção



   
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