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Ele prega no deserto
O presidente
da Bovespa vai à porta da
fábrica para salvar o mercado de ações

Gabriela
Carelli
Claudio Rossi
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| Magliano
num discurso para operários, às 6 da manhã, e ao lado de Lula, na
Bolsa, durante a campanha: até na Índia o mercado acionário é mais
popularizado do que no Brasil |
João Wainer
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Nos Estados
Unidos, a bolsa de valores funciona como uma câmara de compensação
onde o empresário financia o investimento de hoje e o aplicador
garante o investimento de amanhã. Mais da metade das famílias
americanas mantêm uma parcela de suas economias em ações.
Boa parte das companhias, que no passado pertenciam a um dono só
ou a uma única família, tornou-se propriedade de milhões
de pessoas. Atualmente, a direção das empresas se vê
obrigada a dar satisfação regular a milhares de acionistas.
Quando uma peça da engrenagem racha, como ocorreu no caso do escândalo
da empresa de energia Enron, os responsáveis são caçados
sob forte pressão popular. No Brasil, as bolsas parecem viver num
planeta distante das companhias e dos investidores. Primeiro porque não
servem como fonte significativa de captação de recursos
empresariais de longo prazo, papel desempenhado pelo BNDES. Na Índia
há 6.000 empresas transacionadas em
bolsa. No Brasil, são menos de 400. Além disso, comprar
ações se tornou uma forma discutível de investimento
diante dos bons resultados dos fundos de renda fixa. O saldo final é
que apenas 2% da população mantém um papel de empresa
em seu portfólio de aplicações.
Nos últimos
vinte anos, seguidos presidentes da Bolsa de Valores de São Paulo
tentaram popularizar o investimento em ação, mas a taxa
de adesão das pessoas não aumentou. Todas as iniciativas
revelaram-se frustradas. E, pior, nesse período a Bovespa minguou.
Há cinco anos, o pregão movimentava 1 bilhão de dólares
em média por dia. Agora, equivale a 15% desse patamar. O mais recente
projeto de recuperação das ações está
em curso e partiu do atual presidente da Bovespa, Raymundo Magliano. Ele
está convencido de ter encontrado uma fórmula eficiente
para atrair a atenção da população para o
negócio. Em vez de buscar novos aplicadores entre os engravatados,
decidiu ofertar ações à classe média. Duas
vezes por semana, Magliano acorda às 4 da manhã e às
6 está discursando com um microfone na mão diante de um
grupo de operários nas regiões industriais. Em algumas ocasiões,
entra na fábrica. Noutras, discursa do alto de um caminhão.
Sem gravata nem paletó e também sem recorrer a jargões
como free float, after market e home broker, Magliano defende
a aplicação em ações com energia. "A bolsa
não é caixa-preta, não é bicho-papão.
Seu dinheiro rende e você se torna um cidadão, um empreendedor",
diz ele. Aproveitando o verão, Magliano repetiu o discurso no litoral.
De bermuda, portando um megafone, lá estava ele, com a mesma oratória,
persuadindo banhistas nas praias.
A empreitada
de Magliano não se limita ao perímetro do Estado de São
Paulo. Nos últimos meses, o presidente da Bovespa percorreu mais
de 100.000 quilômetros, entre idas e
vindas de Brasília. Segundo suas contas, já apertou a mão
de 480 deputados e sessenta senadores. A todos apresentou um projeto mais
amplo de popularização do mercado acionário, que
consiste em permitir que os trabalhadores com carteira assinada possam
usar uma parte do fundo de garantia na aquisição dos papéis.
No ano passado, Magliano apresentou a idéia aos presidenciáveis.
Luiz Inácio Lula da Silva foi o único que declarou apoio
a sua causa. Magliano começou a trabalhar na bolsa aos 16 anos,
como office-boy. Mas sua relação com as ações
começou muito antes. Seu pai, dono de uma das primeiras corretoras
do Brasil, que já mexia com ações em 1923, ajudou
a erguer o que hoje é a Bolsa de São Paulo. Nos anos 70,
também presidiu a casa. "Está no sangue", diz ele.
Os corretores
colegas de Magliano acompanham seus passos com desconfiança e acreditam
que a iniciativa de sair propagandeando as virtudes da bolsa equivale
a pregar no deserto. O Brasil tem uma lei de sociedades anônimas
que encarece a entrada de uma empresa no mercado de ações.
Apenas 0,01% das companhias brasileiras (estimadas em 4 milhões)
tem capital aberto. Algumas das mais importantes, como Odebrecht e Cofap,
fecharam o capital. O brasileiro também tem motivos para ser hostil
ao mercado de ações. Usando como base o Ibovespa, quem investiu
em ações em janeiro do ano passado viu o valor de seu dinheiro
encolher 17%. Quem aplicou num fundo de renda fixa ganhou 18%. A Comissão
de Valores Mobiliários (CVM), órgão que deveria proteger
os investidores e manter a integridade no mercado de capitais, não
tem estrutura para controlar com presteza o que acontece dentro das bolsas.
A agência reguladora americana, conhecida pela sigla SEC, tem funcionários
devidamente equipados e orçamento generoso para proteger o dinheiro
que é aplicado em ações. A brasileira CVM mantém
uma estrutura mais modesta. "Conheço todas as dificuldades, mas
não pretendo desistir", diz Magliano.
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