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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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Ele prega no deserto

O presidente da Bovespa vai à porta da
fábrica para salvar o mercado de ações

Gabriela Carelli


Claudio Rossi
Magliano num discurso para operários, às 6 da manhã, e ao lado de Lula, na Bolsa, durante a campanha: até na Índia o mercado acionário é mais popularizado do que no Brasil
João Wainer

Nos Estados Unidos, a bolsa de valores funciona como uma câmara de compensação onde o empresário financia o investimento de hoje e o aplicador garante o investimento de amanhã. Mais da metade das famílias americanas mantêm uma parcela de suas economias em ações. Boa parte das companhias, que no passado pertenciam a um dono só ou a uma única família, tornou-se propriedade de milhões de pessoas. Atualmente, a direção das empresas se vê obrigada a dar satisfação regular a milhares de acionistas. Quando uma peça da engrenagem racha, como ocorreu no caso do escândalo da empresa de energia Enron, os responsáveis são caçados sob forte pressão popular. No Brasil, as bolsas parecem viver num planeta distante das companhias e dos investidores. Primeiro porque não servem como fonte significativa de captação de recursos empresariais de longo prazo, papel desempenhado pelo BNDES. Na Índia há 6.000 empresas transacionadas em bolsa. No Brasil, são menos de 400. Além disso, comprar ações se tornou uma forma discutível de investimento diante dos bons resultados dos fundos de renda fixa. O saldo final é que apenas 2% da população mantém um papel de empresa em seu portfólio de aplicações.

Nos últimos vinte anos, seguidos presidentes da Bolsa de Valores de São Paulo tentaram popularizar o investimento em ação, mas a taxa de adesão das pessoas não aumentou. Todas as iniciativas revelaram-se frustradas. E, pior, nesse período a Bovespa minguou. Há cinco anos, o pregão movimentava 1 bilhão de dólares em média por dia. Agora, equivale a 15% desse patamar. O mais recente projeto de recuperação das ações está em curso e partiu do atual presidente da Bovespa, Raymundo Magliano. Ele está convencido de ter encontrado uma fórmula eficiente para atrair a atenção da população para o negócio. Em vez de buscar novos aplicadores entre os engravatados, decidiu ofertar ações à classe média. Duas vezes por semana, Magliano acorda às 4 da manhã e às 6 está discursando com um microfone na mão diante de um grupo de operários nas regiões industriais. Em algumas ocasiões, entra na fábrica. Noutras, discursa do alto de um caminhão. Sem gravata nem paletó e também sem recorrer a jargões como free float, after market e home broker, Magliano defende a aplicação em ações com energia. "A bolsa não é caixa-preta, não é bicho-papão. Seu dinheiro rende e você se torna um cidadão, um empreendedor", diz ele. Aproveitando o verão, Magliano repetiu o discurso no litoral. De bermuda, portando um megafone, lá estava ele, com a mesma oratória, persuadindo banhistas nas praias.

A empreitada de Magliano não se limita ao perímetro do Estado de São Paulo. Nos últimos meses, o presidente da Bovespa percorreu mais de 100.000 quilômetros, entre idas e vindas de Brasília. Segundo suas contas, já apertou a mão de 480 deputados e sessenta senadores. A todos apresentou um projeto mais amplo de popularização do mercado acionário, que consiste em permitir que os trabalhadores com carteira assinada possam usar uma parte do fundo de garantia na aquisição dos papéis. No ano passado, Magliano apresentou a idéia aos presidenciáveis. Luiz Inácio Lula da Silva foi o único que declarou apoio a sua causa. Magliano começou a trabalhar na bolsa aos 16 anos, como office-boy. Mas sua relação com as ações começou muito antes. Seu pai, dono de uma das primeiras corretoras do Brasil, que já mexia com ações em 1923, ajudou a erguer o que hoje é a Bolsa de São Paulo. Nos anos 70, também presidiu a casa. "Está no sangue", diz ele.

Os corretores colegas de Magliano acompanham seus passos com desconfiança e acreditam que a iniciativa de sair propagandeando as virtudes da bolsa equivale a pregar no deserto. O Brasil tem uma lei de sociedades anônimas que encarece a entrada de uma empresa no mercado de ações. Apenas 0,01% das companhias brasileiras (estimadas em 4 milhões) tem capital aberto. Algumas das mais importantes, como Odebrecht e Cofap, fecharam o capital. O brasileiro também tem motivos para ser hostil ao mercado de ações. Usando como base o Ibovespa, quem investiu em ações em janeiro do ano passado viu o valor de seu dinheiro encolher 17%. Quem aplicou num fundo de renda fixa ganhou 18%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que deveria proteger os investidores e manter a integridade no mercado de capitais, não tem estrutura para controlar com presteza o que acontece dentro das bolsas. A agência reguladora americana, conhecida pela sigla SEC, tem funcionários devidamente equipados e orçamento generoso para proteger o dinheiro que é aplicado em ações. A brasileira CVM mantém uma estrutura mais modesta. "Conheço todas as dificuldades, mas não pretendo desistir", diz Magliano.

 
 
   
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