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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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O garoto do Brasil

Romance gay entre deputado inglês
e jovem brasileiro vira um escândalo

Rosana Zakabi

 

Romance sem final feliz: Betts e Gasparo passeiam em Veneza e trocam carícias no apartamento do deputado. À direita, a manchete sensacionalista do The Sun

Os ingleses são fleumáticos no que diz respeito à vida privada dos políticos – mas mesmo na Inglaterra há limites. O deputado Clive Betts, 53 anos, do Partido Trabalhista, o mesmo do primeiro-ministro Tony Blair, ultrapassou a barreira da tolerância ao empregar como assessor seu namorado, José Gasparo, um brasileiro trinta anos mais jovem. Para poupar o amante do incômodo de se identificar todos os dias na portaria da Câmara dos Comuns, Betts pediu que lhe fosse concedido um crachá permanente. Antes de conceder o passe livre, a Scotland Yard, a polícia inglesa, investigou os antecedentes do funcionário. O que era simples rotina de segurança se transformou num escândalo apimentadíssimo: ficou-se sabendo que Gasparo, o assessor parlamentar, é um garoto de programa. Os policiais descobriram que ele trabalhava na Villa Gianni, uma agência de prostituição masculina da área central de Londres. Até a semana passada, ele aparecia no site do prostíbulo identificado como "Bryan, de Lisboa". Na terça-feira passada, o caso do deputado que levou um "garoto de aluguel" para o venerando prédio de Westminster, o Parlamento, chegou à primeira página do The Sun, o mais popular dos tablóides sensacionalistas da Inglaterra. No mesmo dia, Betts admitiu publicamente sua condição de homossexual e confirmou ter dado um emprego temporário ao brasileiro. "Nós nos gostamos muito, mas não é nada sério", explicou aos colegas do Parlamento.


No site da agência, o brasileiro José era Bryan, um lisboeta "versátil"

Betts, que é deputado desde 1992 e foi eleito numa cidadezinha de economia decadente a 230 quilômetros de Londres, contou ter conhecido Gasparo em uma festa promovida por um amigo em comum, no Natal. Segundo sua versão, não sabia que Gasparo era garoto de programa. A versão do brasileiro é menos romântica. Ao The Sun, ele contou ter encontrado Betts pela primeira vez na Villa Gianni. Gasparo foi escolhido pelo deputado numa fila de rapazes, que o cliente examina através de uma parede espelhada que só permite a visão por um dos lados, como as existentes em delegacias de polícia. Depois de fazerem sexo, Betts o convidou para um novo encontro, mas fora da Villa Gianni. Foi o brasileiro quem tomou a iniciativa de pedir um emprego no Parlamento, sob a justificativa de que assim poderia abandonar a prostituição. Mas o salário de assessor parlamentar, como ele disse, não era suficiente nem para pagar seu aluguel. Gasparo passou a trabalhar pela manhã no Parlamento até a hora do almoço. À tarde freqüentava uma escola de inglês. À noite, escondido do namorado, se dedicava à prostituição. Como assessor parlamentar recebia 6 libras por hora trabalhada. Uma hora com o cliente na agência lhe rendia 50 libras, o equivalente a 300 reais.

"Ele começou a vir menos aqui depois que conheceu o deputado", disse a VEJA o recepcionista brasileiro da Villa Gianni, que se identifica como Eduardo. "O deputado dava toda a assistência, até mesada semanal", diz. "Era esquisito viver em dois mundos completamente diferentes", contou Gasparo ao jornal The Sun. "Estar nos dois empregos ao mesmo tempo estava me deixando louco", disse ele. Antes de se mudar para Londres, há três anos, ele morava com a mãe em São Paulo e já era garoto de programa. Recentemente, Betts e Gasparo passaram juntos uma semana em Veneza. Ficaram hospedados no Hotel Giorgione, um quatro-estrelas que cobra diária de 900 reais. De acordo com seus colegas do Villa Gianni, o deputado insistia para que Gasparo deixasse o apartamento em que morava para viver com ele. O brasileiro, por sua vez, tinha uma visão pragmática do relacionamento entre os dois. "Ele nos contou que queria tirar vantagem da situação e pediu uma casa ao deputado", diz Eduardo, da Villa Gianni. "Quando viu que não iria conseguir, avisou que iria vender a história para o The Sun, mas não acreditamos." Pagar por depoimentos exclusivos é uma tradição dos tablóides ingleses. Paul Burrell, ex-mordomo da princesa Diana, recebeu o equivalente a 3 milhões de reais para contar detalhes picantes da família real. Gasparo não apenas contou tudo como entregou ao jornal fotos de sua intimidade com o deputado. The Sun não quis informar quanto pagou pela história.

 
Paixão carioca do ministro inglês: Mandelson com Reinaldo e a manchete no tablóide

Há quatro anos, outro brasileiro foi pivô de um escândalo político que abalou o governo do primeiro-ministro Tony Blair. Os tablóides descobriram que Peter Mandelson, ministro e braço direito de Blair, namorava o carioca Reinaldo da Silva e puseram o assunto em manchete. Na época, quatro ministros estavam envolvidos em encrencas sexuais, e os jornais acusavam o ministério trabalhista de estar dominado por uma "máfia gay". Para poder manter seu romance em paz, Mandelson saiu do armário e se assumiu como gay. O Brasil é hoje conhecido como um grande exportador para o mercado de prostituição da Europa. De acordo com a Interpol, está entre os seis países que mais exportam mulheres para esse fim. Entre os homens, não é muito diferente. "Muitos jovens que são deportados da Europa para o Brasil trabalhavam como garotos de programa ou travestis", diz o delegado José Grivaldo de Andrade, da Polícia Federal do Aeroporto Internacional de São Paulo. "A maioria vem da Itália e da Espanha", conta ele. Dos 100 rapazes que trabalham na Villa Gianni, trinta são brasileiros. Uma sessão de sexo custa lá de 70 a 100 libras por hora, e os rapazes ficam com metade do valor. "Colocamos anúncios nos jornais em busca de novos garotos, mas é a propaganda boca a boca que funciona", disse a VEJA o alemão Jan Saneerf, gerente de marketing da Villa Gianni. Alguns, como Gasparo, já faziam programas anteriormente. Mas grande parte deles entrou para o ramo depois que se mudaram para Londres. "São rapazes que chegam aqui achando que vão ganhar uma fortuna e se decepcionam", observa Eduardo, funcionário da casa. "Sem dinheiro para pagar as contas, muitos acabam vindo trabalhar com a gente."


Com reportagem de Roberto Guimarães

 
 
   
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