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Bush
joga a cartada palestina
Para reverter a oposição à guerra,
o presidente americano diz que
a democratização
do Iraque irá
beneficiar os palestinos
AP
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| Protesto
contra a guerra no Cairo: Bush promete democracia para todos |

Veja também |
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Antes
de vencer a batalha de Bagdá, o presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, tem de vencer a batalha do Conselho de Segurança.
É nesse órgão da ONU que precisa obter pelo menos
nove dos quinze votos para aprovar a resolução que abriria
caminho à guerra contra o Iraque com o endosso da comunidade internacional.
Depois, ainda será necessário impedir o veto da França,
um dos cinco países com direito permanente de matar propostas do
gênero. Se não conseguir, todo mundo já sabe que haverá
guerra do mesmo jeito. Enquanto não se chega a isso, o esforço
político de convencimento dos relutantes ganhou novo impulso na
semana passada, quando Bush apresentou a campanha contra Saddam Hussein
como primeiro passo de um processo de democratização no
Oriente Médio que culminaria com a criação de um
Estado palestino independente. Ao ligar a eventual pulverização
de Saddam à solução da eterna questão palestina,
Bush procurou neutralizar dois focos de resistência à guerra.
Para aliados como a França, faltam motivos que justifiquem novo
conflito no Golfo Pérsico, e a situação na região
pode até piorar depois da intervenção. Muitos governos
árabes somam a isso o receio de que, com um Iraque pró-americano,
haja uma inversão de forças intolerável na região,
dando a Israel as condições ideais para impor um arranjo
em que os palestinos sairiam mais perdedores ainda.
Bush está repetindo a estratégia seguida em 1990 por seu
pai, na primeira guerra contra o Iraque. Comparado ao filho, Bush pai
foi um primor de habilidade diplomática ao conquistar o apoio e
até a participação militar de países árabes
para expulsar Saddam do Kuwait invadido. Ele incluiu no pacote a promessa
de conversações a sério entre israelenses e palestinos
para resolver o problema que há décadas atormenta o mundo.
Depois da guerra, efetivamente pressionou Israel a aceitar o diálogo
do qual redundou acordo que permitiu a pré-independência
de parte dos territórios palestinos ocupados e o retorno de Yasser
Arafat, num clima de otimismo e esperança hoje destroçado
pelo estado de mútua e constante violência. A promessa de
Bush de usar o processo de democratização do Iraque pós-Saddam
como modelo para o Oriente Médio depara com dois problemas: primeiro,
se é factível; segundo, se é desejável.
Não existe um único país árabe ou islâmico
com liberdade e democracia nos moldes ocidentais. Os regimes se dividem
entre monarquias, governos laicos regidos por partido único ou
ditaduras personalistas. No Irã, com anseios de renovação
e eleições, os aiatolás continuam a dispor de um
aparato controlador medieval. No Líbano, o país que mais
poderia se aproximar do que se entende por democracia no mundo contemporâneo,
a presença militar da Síria acaba com qualquer veleidade
de autonomia. Mais espinhoso ainda do que imaginar como esses países
poderiam se transformar todos em paraísos democráticos é
especular sobre o que aconteceria se isso efetivamente ocorresse. O fantasma
que ronda essa questão é o precedente argelino. Na primeira
vez em que foram realizadas eleições multipartidárias,
de fato, na Argélia, o partido dos fundamentalistas muçulmanos
ganhou. Houve intervenção militar, com discreto ou declarado
apoio de potências ocidentais, e seguiu-se uma década de
um dos mais horrendos conflitos internos dos últimos tempos. Seria
o cúmulo da ironia se a guerra ao Iraque, feita em última
instância para combater o terror fundamentalista, abrisse caminho
a uma vitória dos fanáticos do turbante nas urnas. Além
de perigoso, o mundo é complicado.
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O
SEGREDO DO GENRO
Saddam Hussein destruiu ou não seu arsenal de armas químicas
e biológicas? O ditador iraquiano diz que sim. Os Estados
Unidos duvidam e pretendem invadir o Iraque para desarmá-lo
à força. Encarregados de conferir quem tem razão,
os inspetores da ONU não encontraram as armas, mas desconfiam
de trapaça iraquiana. Na semana passada, a revista semanal
americana Newsweek publicou uma contribuição
intrigante à controvérsia. Em 1995, escreveu a revista,
Hussein Kamel Hassan, figurão de alto coturno do regime de
Bagdá e genro de Saddam Hussein, teria contado à CIA,
ao MI6, o serviço secreto inglês, e à ONU que,
depois da Guerra do Golfo, em 1991, o Iraque destruiu suas armas
químicas e biológicas. O genro era uma autoridade
no assunto, pois tinha dirigido o programa iraquiano de armas não
convencionais durante dez anos.
Kamel, que havia fugido para a Jordânia com a filha e os netos
do ditador, foi interrogado pela CIA, pelo MI6 e pela ONU, em sessões
separadas. De acordo com a revista, que teve acesso a anotações
feitas por um funcionário da ONU, ele teria revelado em detalhes
todos os planos bélicos de Saddam, incluindo a localização
de fábricas de armas e as empresas de fachada que importavam
os agentes químicos e biológicos. O genro teria dito
que a destruição do arsenal foi a forma encontrada
por Saddam para se livrar da pressão que recebia dos Estados
Unidos. Mas ele também contou que o ditador escondeu os projetos
das armas, pois pretendia retomar a produção mais
tarde. Em troca das informações, o genro esperava
ganhar apoio americano para liderar um golpe contra o sogro. Mas
foi ignorado e acabou aceitando uma oferta de anistia de Saddam.
Foi assassinado dias depois de voltar ao Iraque. Kamel teria falado
a verdade sobre o destino das armas? É difícil de
acreditar. Se era de seu interesse, por que Saddam jamais mostrou
as provas de que destruiu o arsenal?
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