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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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Bush joga a cartada palestina

Para reverter a oposição à guerra,
o presidente americano diz que
a democratização
do Iraque irá
beneficiar os palestinos

 
AP
Protesto contra a guerra no Cairo: Bush promete democracia para todos


Veja também

Site especial:
EUA contra Iraque

Antes de vencer a batalha de Bagdá, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, tem de vencer a batalha do Conselho de Segurança. É nesse órgão da ONU que precisa obter pelo menos nove dos quinze votos para aprovar a resolução que abriria caminho à guerra contra o Iraque com o endosso da comunidade internacional. Depois, ainda será necessário impedir o veto da França, um dos cinco países com direito permanente de matar propostas do gênero. Se não conseguir, todo mundo já sabe que haverá guerra do mesmo jeito. Enquanto não se chega a isso, o esforço político de convencimento dos relutantes ganhou novo impulso na semana passada, quando Bush apresentou a campanha contra Saddam Hussein como primeiro passo de um processo de democratização no Oriente Médio que culminaria com a criação de um Estado palestino independente. Ao ligar a eventual pulverização de Saddam à solução da eterna questão palestina, Bush procurou neutralizar dois focos de resistência à guerra. Para aliados como a França, faltam motivos que justifiquem novo conflito no Golfo Pérsico, e a situação na região pode até piorar depois da intervenção. Muitos governos árabes somam a isso o receio de que, com um Iraque pró-americano, haja uma inversão de forças intolerável na região, dando a Israel as condições ideais para impor um arranjo em que os palestinos sairiam mais perdedores ainda.

Bush está repetindo a estratégia seguida em 1990 por seu pai, na primeira guerra contra o Iraque. Comparado ao filho, Bush pai foi um primor de habilidade diplomática ao conquistar o apoio e até a participação militar de países árabes para expulsar Saddam do Kuwait invadido. Ele incluiu no pacote a promessa de conversações a sério entre israelenses e palestinos para resolver o problema que há décadas atormenta o mundo. Depois da guerra, efetivamente pressionou Israel a aceitar o diálogo do qual redundou acordo que permitiu a pré-independência de parte dos territórios palestinos ocupados e o retorno de Yasser Arafat, num clima de otimismo e esperança hoje destroçado pelo estado de mútua e constante violência. A promessa de Bush de usar o processo de democratização do Iraque pós-Saddam como modelo para o Oriente Médio depara com dois problemas: primeiro, se é factível; segundo, se é desejável.

Não existe um único país árabe ou islâmico com liberdade e democracia nos moldes ocidentais. Os regimes se dividem entre monarquias, governos laicos regidos por partido único ou ditaduras personalistas. No Irã, com anseios de renovação e eleições, os aiatolás continuam a dispor de um aparato controlador medieval. No Líbano, o país que mais poderia se aproximar do que se entende por democracia no mundo contemporâneo, a presença militar da Síria acaba com qualquer veleidade de autonomia. Mais espinhoso ainda do que imaginar como esses países poderiam se transformar todos em paraísos democráticos é especular sobre o que aconteceria se isso efetivamente ocorresse. O fantasma que ronda essa questão é o precedente argelino. Na primeira vez em que foram realizadas eleições multipartidárias, de fato, na Argélia, o partido dos fundamentalistas muçulmanos ganhou. Houve intervenção militar, com discreto ou declarado apoio de potências ocidentais, e seguiu-se uma década de um dos mais horrendos conflitos internos dos últimos tempos. Seria o cúmulo da ironia se a guerra ao Iraque, feita em última instância para combater o terror fundamentalista, abrisse caminho a uma vitória dos fanáticos do turbante nas urnas. Além de perigoso, o mundo é complicado.

 

O SEGREDO DO GENRO

Saddam Hussein destruiu ou não seu arsenal de armas químicas e biológicas? O ditador iraquiano diz que sim. Os Estados Unidos duvidam e pretendem invadir o Iraque para desarmá-lo à força. Encarregados de conferir quem tem razão, os inspetores da ONU não encontraram as armas, mas desconfiam de trapaça iraquiana. Na semana passada, a revista semanal americana Newsweek publicou uma contribuição intrigante à controvérsia. Em 1995, escreveu a revista, Hussein Kamel Hassan, figurão de alto coturno do regime de Bagdá e genro de Saddam Hussein, teria contado à CIA, ao MI6, o serviço secreto inglês, e à ONU que, depois da Guerra do Golfo, em 1991, o Iraque destruiu suas armas químicas e biológicas. O genro era uma autoridade no assunto, pois tinha dirigido o programa iraquiano de armas não convencionais durante dez anos.

Kamel, que havia fugido para a Jordânia com a filha e os netos do ditador, foi interrogado pela CIA, pelo MI6 e pela ONU, em sessões separadas. De acordo com a revista, que teve acesso a anotações feitas por um funcionário da ONU, ele teria revelado em detalhes todos os planos bélicos de Saddam, incluindo a localização de fábricas de armas e as empresas de fachada que importavam os agentes químicos e biológicos. O genro teria dito que a destruição do arsenal foi a forma encontrada por Saddam para se livrar da pressão que recebia dos Estados Unidos. Mas ele também contou que o ditador escondeu os projetos das armas, pois pretendia retomar a produção mais tarde. Em troca das informações, o genro esperava ganhar apoio americano para liderar um golpe contra o sogro. Mas foi ignorado e acabou aceitando uma oferta de anistia de Saddam. Foi assassinado dias depois de voltar ao Iraque. Kamel teria falado a verdade sobre o destino das armas? É difícil de acreditar. Se era de seu interesse, por que Saddam jamais mostrou as provas de que destruiu o arsenal?

 

 
 
   
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