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Bastos: "Nunca tive medo de ser seqüestrado, mas tenho medo de andar à noite em São Paulo" |
Veja
O que se deve fazer para evitar a baderna criminosa que o Rio
enfrentou nos últimos dias?
Bastos
É luta de longo prazo. É preciso aplicar uma terapêutica
longa que envolva informação, inteligência e ação
contra a lavagem de dinheiro. Quando se fecha a porta da lavagem de dinheiro,
cai a causa final do crime organizado. Ninguém trafica drogas para
guardar dinheiro debaixo do colchão, pois o volume é tal
que fica impraticável. Vivemos uma hora oportuna para barrar a
lavagem. Depois dos atentados terroristas aos EUA, o governo americano
deu-se conta do perigo da lavagem do dinheiro. Eles não querem
mais saber de paraísos fiscais.
Veja Não há nada que se possa fazer já?
Bastos
De
imediato, só medidas simbólicas, como transferir o Fernandinho
Beira-Mar para outro lugar. Não acho a transferência desarrazoada,
mas é claro que isso não vai transformar o Rio num paraíso.
Veja Mas isso também não tem o simbolismo contrário,
o de que o Rio não consegue sequer manter um traficante preso?
Bastos
É verdade. Mas é ruim fulanizar a questão. Mesmo
porque, se Beira-Mar morresse amanhã, nada mudaria. Outro apareceria
em seu lugar. A questão central é combater a engrenagem
que coloca as pessoas a serviço do tráfico. O tráfico
se renova rapidamente, alça jovens de 17 ou 19 anos ao comando
do crime.
Veja
Como se combate a engrenagem?
Bastos Existem
paliativos que vêm sendo usados com eficácia em alguns Estados.
Em São Paulo, os centros integrados de cidadania são um
exemplo. Você escolhe um lugar violento, pesado mesmo, e põe
ali um braço do Estado. Nesse lugar, o cidadão tem acesso
a juiz, promotor, polícia, assistente social e outras representações
institucionais. As experiências mostram que os índices de
violência baixam quando o Estado aparece.
Veja O senhor falou em paliativos, mas quais seriam as medidas
efetivas?
Bastos O
primeiro passo foi dado pelo atual governo ao não colocar o Ministério
da Justiça no balcão das barganhas políticas. Em
oito anos, Fernando Henrique teve nove ministros, uma média inferior
a um ano para cada um, período durante o qual, naturalmente, ninguém
consegue fazer nada. Em linhas gerais, precisamos acabar com a linha de
produção da criminalidade. Ela começa na Febem, passa
pela polícia, pela Justiça e acaba na cadeia. Quem percorre
essa linha sai pós-graduado em criminalidade. Para desmontá-la,
temos de retreinar a polícia, pois não basta reequipá-la.
Temos de fazer uma reforma radical no Judiciário, eliminando os
principais gargalos, e mudar o sistema prisional. A lei de execução
penal, de 1984, prevê o regime de progressão de pena, que
é importante, mas isso nunca foi aplicado. Não é
falta de dinheiro. É falta de prioridade.
Veja Todos os ministros da Justiça fizeram um diagnóstico
parecido. O que será diferente na sua gestão?
Bastos
Primeiro, não se pode fazer nada correndo. No Brasil, cada vez
que ocorre uma violência que chama a atenção da sociedade,
surge um pacote, um clamor por penas mais pesadas. Os pacotes, como se
tem visto, não resolvem nada. As penas mais pesadas também
são uma bobagem. São o que chamamos de "legislação
do pânico". Não adianta criar pena de 100 anos. O que serve
de vacina contra o crime é a certeza da punição.
Veja Isso implica a reforma do Judiciário?
Bastos
Claro. Minha idéia é começar sem mudar lei alguma.
Precisamos investir nas varas judiciais, desde a modernização
através da informática até o treinamento de juízes.
Em São Paulo, uma revisão de processo demora até
dois anos e meio para ser distribuída. No Rio, com a informatização,
toma apenas uma semana. Na Bahia, hoje, a distribuição é
feita no mesmo dia. Também estamos fazendo uma pesquisa para apontar
os gargalos do Judiciário. Isso porque cada jurista, cada advogado,
cada juiz e eu mesmo temos uma reforma na cabeça. Precisamos atacar
aquilo que seja gargalo consensual.
Veja O senhor é a favor do uso do Exército no
combate à criminalidade?
Bastos
Na atual circunstância, resolvemos atender ao pedido da governadora
do Rio e enviamos 3 000 soldados para fazer o policiamento da cidade.
Mas é uma solução emergencial, de caráter
também simbólico e de curto prazo. Como solução
permanente, sou contra. O Exército não funciona para isso.
Os recrutas não têm formação para combater
o crime, não têm treino nem vivência. Acho que a conversa
de convocar o Exército é um resquício da ditadura
militar. Naquela época, diante de qualquer problema, João
Figueiredo dizia: "Chama o Pires" (Walter Pires, então ministro
do Exército).
Veja O que significa retreinar a polícia?
Bastos Torná-la
mais científica, com o uso de recursos tecnológicos. Nos
EUA, há uma integração grande entre as polícias
dos Estados. O policial tem informação sobre qualquer pessoa
no computador da viatura. Vi isso em Nova York. Um sujeito atropelou um
egípcio na faixa de pedestre. A polícia chegou, algemou
o motorista e, no computador da viatura, pegou a ficha dele. No Brasil,
a implantação de um cadastro único custaria 10 milhões
de dólares. É pouco para os enormes benefícios que
traria. A idéia é fazer um sistema único de segurança
no Brasil. Estimular a unificação das polícias civil
e militar e digo estimular porque isso não se faz por decreto
e fazer com que a Polícia Federal trabalhe nos moldes do
FBI americano.
Veja Pessoalmente, o senhor se sente seguro nas grandes cidades
brasileiras?
Bastos
Nunca tive medo de seqüestro nem tive segurança para mim ou
minha família. Durante anos, almoçava na bolsa de valores,
em São Paulo, e voltava para meu escritório a pé.
Nunca me aconteceu nada. Mas tenho medo de andar à noite em São
Paulo. Antigamente, na ditadura, a gente tinha medo quando encostava um
carro de polícia. Agora, transferi esse medo para qualquer pessoa
que se aproxime de mim. No Rio, tenho mais medo porque sou menos familiarizado
com a cidade.
Veja O senhor deixou um afamado escritório de advocacia
para ser ministro. Está perdendo muito dinheiro?
Bastos
Posso dizer quanto perdi, mas não para sair publicado... Não,
está bem. Eu fazia uma retirada média de 250.000 reais por
mês do escritório.
Veja O que faz alguém trocar 250.000 reais
por mês por 8.000 reais, o salário de ministro?
Bastos
A vaidade. Sou vaidoso. Em 45 anos de carreira, fiz quase tudo o que a
advocacia poderia me proporcionar. Trabalhei nas maiores causas criminais,
em grandes júris e achei que faltava algo. O Ministério
da Justiça era o coroamento dessa trajetória.
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