Luiz
Felipe de Alencastro
A porta estreita
"A
viagem de Lula deu relevo
à preocupação do governo brasileiro
em estabelecer relações privilegiadas
com o eixo ParisBerlim e a União Européia.
Mas a UE segue sua própria rota, por vezes
bem afastada dos interesses brasileiros"
Ilustração Ale Setti
 |
Negligenciado por todos os presidenciáveis na campanha eleitoral,
o tema da política externa parecia igualmente alheio às
preocupações do PT. Nesse contexto, a maioria dos analistas
esperava desempenho modesto do governo Lula no campo diplomático.
Houve quem achasse que o novo presidente e seu ministro da Fazenda, desconhecendo
o idioma de Shakespeare, ficariam prisioneiros do mais crasso provincianismo.
Outros observadores, com mais boa-fé, exprimiam dúvidas
similares. Caracterizando Lula como "um homem sem experiência internacional
e com limitado conhecimento sobre o resto do mundo", um comentarista do
Miami Herald escreveu: "Duvido que Lula venha a tornar-se um grande
ator na cena internacional". Agora, os elogios se multiplicam, mesmo entre
os analistas mais comedidos. A respeito da performance presidencial em
Porto Alegre e em Davos, um editorial do Jornal da Tarde (28 de
janeiro) afirmava: "São impressionantes a velocidade e a lucidez
da evolução do intuitivo presidente Lula, nestes seus primeiros
contatos com a realidade do exercício do poder supremo da nação".
Diante dessa
impressionante revelação, cabe relançar um velho
assunto: o destaque conferido pela mídia ocidental à primeira
visita do presidente Lula à Europa prefigura a ascensão
do Brasil a um novo estatuto internacional? Existem condições
objetivas para que o país obtenha um lugar de membro permanente
do Conselho de Segurança da ONU? Aparentemente, as circunstâncias
atuais se assemelham às de 1945, quando o Brasil esteve muito perto
de conquistar esse posto-chave na ONU.
Nos últimos
anos da II Guerra, o Brasil destacava-se como o único país
latino que combatia na Europa ao lado dos Aliados. Na época, Churchill
salientou o fato num encontro com jornalistas brasileiros em Londres.
Em seguida, nas reuniões entre Roosevelt, Churchill e Stalin que
precederam a fundação da ONU, e em particular na conferência
de Dumbarton Oaks (1944), em Washington, o nome do Brasil foi mencionado
como representante latino-americano no Conselho Permanente. Em abril de
1945, o jornal parisiense Le Monde ainda dava crédito à
notícia. Mas o início da Guerra Fria e as manobras soviéticas
para incluir as dezesseis repúblicas da URSS como membros da ONU
liquidaram o assunto.
Hoje, a
Guerra Fria acabou, o Brasil ganha liderança na América
Latina e a ampliação do Conselho de Segurança da
ONU está em pauta. A pretensão brasileira continua de pé,
agora apoiada pela França e pela Alemanha, também candidata
a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Resta que no
médio prazo surgirão outras complicações.
Com idas
e vindas, a integração européia, institucionalizada
desde o Tratado de Roma (1957), segue em frente. No centro do processo
está a aliança franco-alemã, reiterada pelos atuais
governantes de Paris e de Berlim. Uma etapa importante da integração
consistirá na unificação das embaixadas dos quinze
países-membros. A empreitada poderia ser iniciada nos pequenos
países do Terceiro Mundo. Na mesma linha, Chirac e Schroeder apóiam
a institucionalização de um futuro Ministério Europeu
das Relações Exteriores comandando toda a diplomacia da
UE.
Tal plano
de trabalho torna muito mais complexa a eventual reforma do Conselho de
Segurança da ONU. Como conciliar o aumento de representantes permanentes
europeus no Conselho de Segurança (no qual a França e a
Inglaterra já têm assento) com a atuação de
um ministro europeu das Relações Exteriores? A viagem de
Lula deu relevo à preocupação do governo brasileiro
em estabelecer relações privilegiadas com o eixo ParisBerlim
e a União Européia para compensar, minimamente, o peso da
hiperpotência americana. Nada mais legítimo. Mas seria interessante
também levar em conta que a UE segue sua própria rota, por
vezes bem afastada dos interesses brasileiros.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)
|