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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Luiz Felipe de Alencastro

A porta estreita

"A viagem de Lula deu relevo
à preocupação do governo brasileiro
em estabelecer relações privilegiadas
com o eixo Paris–Berlim e a União Européia.
Mas a UE segue sua própria rota, por vezes
bem afastada dos interesses brasileiros"



Ilustração Ale Setti


Negligenciado por todos os presidenciáveis na campanha eleitoral, o tema da política externa parecia igualmente alheio às preocupações do PT. Nesse contexto, a maioria dos analistas esperava desempenho modesto do governo Lula no campo diplomático. Houve quem achasse que o novo presidente e seu ministro da Fazenda, desconhecendo o idioma de Shakespeare, ficariam prisioneiros do mais crasso provincianismo. Outros observadores, com mais boa-fé, exprimiam dúvidas similares. Caracterizando Lula como "um homem sem experiência internacional e com limitado conhecimento sobre o resto do mundo", um comentarista do Miami Herald escreveu: "Duvido que Lula venha a tornar-se um grande ator na cena internacional". Agora, os elogios se multiplicam, mesmo entre os analistas mais comedidos. A respeito da performance presidencial em Porto Alegre e em Davos, um editorial do Jornal da Tarde (28 de janeiro) afirmava: "São impressionantes a velocidade e a lucidez da evolução do intuitivo presidente Lula, nestes seus primeiros contatos com a realidade do exercício do poder supremo da nação".

Diante dessa impressionante revelação, cabe relançar um velho assunto: o destaque conferido pela mídia ocidental à primeira visita do presidente Lula à Europa prefigura a ascensão do Brasil a um novo estatuto internacional? Existem condições objetivas para que o país obtenha um lugar de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU? Aparentemente, as circunstâncias atuais se assemelham às de 1945, quando o Brasil esteve muito perto de conquistar esse posto-chave na ONU.

Nos últimos anos da II Guerra, o Brasil destacava-se como o único país latino que combatia na Europa ao lado dos Aliados. Na época, Churchill salientou o fato num encontro com jornalistas brasileiros em Londres. Em seguida, nas reuniões entre Roosevelt, Churchill e Stalin que precederam a fundação da ONU, e em particular na conferência de Dumbarton Oaks (1944), em Washington, o nome do Brasil foi mencionado como representante latino-americano no Conselho Permanente. Em abril de 1945, o jornal parisiense Le Monde ainda dava crédito à notícia. Mas o início da Guerra Fria e as manobras soviéticas para incluir as dezesseis repúblicas da URSS como membros da ONU liquidaram o assunto.

Hoje, a Guerra Fria acabou, o Brasil ganha liderança na América Latina e a ampliação do Conselho de Segurança da ONU está em pauta. A pretensão brasileira continua de pé, agora apoiada pela França e pela Alemanha, também candidata a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Resta que no médio prazo surgirão outras complicações.

Com idas e vindas, a integração européia, institucionalizada desde o Tratado de Roma (1957), segue em frente. No centro do processo está a aliança franco-alemã, reiterada pelos atuais governantes de Paris e de Berlim. Uma etapa importante da integração consistirá na unificação das embaixadas dos quinze países-membros. A empreitada poderia ser iniciada nos pequenos países do Terceiro Mundo. Na mesma linha, Chirac e Schroeder apóiam a institucionalização de um futuro Ministério Europeu das Relações Exteriores comandando toda a diplomacia da UE.

Tal plano de trabalho torna muito mais complexa a eventual reforma do Conselho de Segurança da ONU. Como conciliar o aumento de representantes permanentes europeus no Conselho de Segurança (no qual a França e a Inglaterra já têm assento) com a atuação de um ministro europeu das Relações Exteriores? A viagem de Lula deu relevo à preocupação do governo brasileiro em estabelecer relações privilegiadas com o eixo Paris–Berlim e a União Européia para compensar, minimamente, o peso da hiperpotência americana. Nada mais legítimo. Mas seria interessante também levar em conta que a UE segue sua própria rota, por vezes bem afastada dos interesses brasileiros.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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