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Roberto
Pompeu de Toledo
O olho que veio
do fundo da terra
Previsível
como o Natal e o Carnaval
é a temporada dos desabamentos
e de famílias inteiras soterradas
Estamos
na temporada anual de desabamento de barracos, em boa parte do país.
Os mortos, até quinta-feira passada, já beiravam a centena,
somando-se os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo
e Espírito Santo. Famílias inteiras eram dizimadas, em segundos.
Os noticiários de TV mostraram as cenas habituais de bombeiros
ou vizinhos tentando salvar gente soterrada. Numa dessas cenas, foi-se
cavando, cavando, até que apareceu um olho. Só um olho,
um único e impressionante olho, desprovido de seu par e do resto
do rosto, aberto, cercado de barro, entulho e escuridão, mas que
se movia, virava e piscava, sinal de que a vida não o abandonara.
Cavou-se mais e descobriu-se o outro olho, ferido, e depois o resto do
corpo de um menino de seus 10 anos. O menino foi salvo. Ficou a imagem
do olho, lá no fundo, no breu, na sujeira, vítreo sinal
de miséria, desamparo e má sorte.
Entra ano
e sai ano, é a mesma coisa. Com a mesma regularidade com que chegam
o Natal e o Carnaval, chega, com as chuvas, entre janeiro e março,
a temporada do desabamento dos barracos. Para quem lê jornais ou
vê as notícias na TV, é uma oportunidade a mais, além
das caravanas da fome do governo, de conhecer um pouco do mundo dos que
moram mal e perigosamente. Em Mauá, na Grande São Paulo,
foi atingida uma família com "J": morreu a menina Jéssica,
de 3 anos, e salvaram-se seus irmãos José, Jeferson e Juliana.
Em Taboão da Serra, também na Grande São Paulo, a
vítima foi uma família com "K". Morreu Klebson, de 17 anos,
salvaram-se seus irmãos Klícia e Kleiton. A tragédia
avançava em ordem alfabética. Nem sempre são barracos
de madeira e zinco. Também vão de roldão pequenas
casas de alvenaria.
Tanto quanto
a temporada dos desabamentos, é previsível também
o que se segue. A imprensa entrevista autoridades de um lado, e moradores
de outro, para saber se uns avisaram, e outros foram avisados, que a área
atingida era de risco. As autoridades dizem que avisaram. Os moradores
dizem que não foram avisados. É um jogo duplamente enganoso.
Por um lado, sabe-se que as autoridades em geral não avisam. E,
se avisam, fica por isso mesmo não vão além de
avisar. Por outro, sabe-se que, apesar de avisados, raros são os
moradores que deixarão o local. Mesmo quando podem mudar, relutam
em fazê-lo.
Não
é apenas por desatenção, displicência ou laxismo
que as autoridades não avisam, e se avisam não vão
além disso. Há nessa atitude a obediência a uma regra
não escrita da sociedade brasileira segundo a qual se deve compensar
os pobres permitindo-lhes certos tipos de transgressão. Eles podem
jogar lixo nos rios. Podem desmatar encostas de morros. Podem levantar
as casas em lugares perigosos. Se já sofrem tanto, por que lhes
impor uma carga adicional de constrangimentos? Como não se pode,
ou não se quer, distribuir renda, distribui-se tolerância.
A má consciência se paga com uma bizarra maneira de ser "bonzinho".
Mas há
outro problema. Mesmo quando o poder público exerce com rigor suas
prerrogativas, e não só avisa, como obriga os moradores
de áreas de risco a deixar as casas, e mesmo quando lhes oferece
outras casas para morar, depara com outro entrave a superar o apego
do morador de tais áreas à vizinhança. Não
é estranho, nem infreqüente, que o morador da favela continue
nela ainda que tenha amealhado recursos suficientes para deixá-la.
No noticiário das últimas semanas apareceram casos de pessoas
que experimentaram sair das áreas de risco em que habitavam, mas
acabaram voltando. Ainda que suja e feia, além de perigosamente
espetada numa ponta de morro, a vizinhança proporciona a segurança
e o conforto moral que não se encontram em outro lugar.
O fenômeno
já era apontado pelo americano Richard Morse, decano dos brasilianistas,
num livro de 1954 meio século atrás! , sobre a cidade
de São Paulo (De Comunidade à Metrópole).
Falando dos cortiços paulistanos, Morse advertia que os planejadores
urbanos deviam levar em conta "os ensinamentos da organização
social" de seus moradores. "A despeito de brigas e intrigas, as pessoas
que nasceram e cresceram num cortiço de, digamos, 200 moradores
desenvolvem a sociabilidade e os hábitos de auxílio mútuo
e experiência compartilhada", escreveu. Por conseguinte, os planejadores
deveriam ver no cortiço "não apenas um cancro pernicioso,
mas também uma instituição que, dentro de seus estreitos
limites, corresponde a necessidades humanas e engloba atitudes sociais".
O problema
da moradia em lugares precários, insalubres ou perigosos não
é insolúvel. No momento em que o governo federal promete
dedicar mais atenção e mais investimento a questões
urbanas, abrem-se novas perspectivas de que seja enfrentado com êxito.
Mas é complexo, tragicamente complexo, e parece que é isso
que queria dizer aquele olho, soterrado não só de terra
e de lixo, mas de desamparo, de medo, e de apego à única
via de solidariedade que lhe coube vislumbrar.
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