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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

O olho que veio
do fundo da terra

Previsível como o Natal e o Carnaval
é a temporada dos desabamentos
e de famílias inteiras soterradas

Estamos na temporada anual de desabamento de barracos, em boa parte do país. Os mortos, até quinta-feira passada, já beiravam a centena, somando-se os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Famílias inteiras eram dizimadas, em segundos. Os noticiários de TV mostraram as cenas habituais de bombeiros ou vizinhos tentando salvar gente soterrada. Numa dessas cenas, foi-se cavando, cavando, até que apareceu um olho. Só um olho, um único e impressionante olho, desprovido de seu par e do resto do rosto, aberto, cercado de barro, entulho e escuridão, mas que se movia, virava e piscava, sinal de que a vida não o abandonara. Cavou-se mais e descobriu-se o outro olho, ferido, e depois o resto do corpo de um menino de seus 10 anos. O menino foi salvo. Ficou a imagem do olho, lá no fundo, no breu, na sujeira, vítreo sinal de miséria, desamparo e má sorte.

Entra ano e sai ano, é a mesma coisa. Com a mesma regularidade com que chegam o Natal e o Carnaval, chega, com as chuvas, entre janeiro e março, a temporada do desabamento dos barracos. Para quem lê jornais ou vê as notícias na TV, é uma oportunidade a mais, além das caravanas da fome do governo, de conhecer um pouco do mundo dos que moram mal e perigosamente. Em Mauá, na Grande São Paulo, foi atingida uma família com "J": morreu a menina Jéssica, de 3 anos, e salvaram-se seus irmãos José, Jeferson e Juliana. Em Taboão da Serra, também na Grande São Paulo, a vítima foi uma família com "K". Morreu Klebson, de 17 anos, salvaram-se seus irmãos Klícia e Kleiton. A tragédia avançava em ordem alfabética. Nem sempre são barracos de madeira e zinco. Também vão de roldão pequenas casas de alvenaria.

Tanto quanto a temporada dos desabamentos, é previsível também o que se segue. A imprensa entrevista autoridades de um lado, e moradores de outro, para saber se uns avisaram, e outros foram avisados, que a área atingida era de risco. As autoridades dizem que avisaram. Os moradores dizem que não foram avisados. É um jogo duplamente enganoso. Por um lado, sabe-se que as autoridades em geral não avisam. E, se avisam, fica por isso mesmo – não vão além de avisar. Por outro, sabe-se que, apesar de avisados, raros são os moradores que deixarão o local. Mesmo quando podem mudar, relutam em fazê-lo.

Não é apenas por desatenção, displicência ou laxismo que as autoridades não avisam, e se avisam não vão além disso. Há nessa atitude a obediência a uma regra não escrita da sociedade brasileira segundo a qual se deve compensar os pobres permitindo-lhes certos tipos de transgressão. Eles podem jogar lixo nos rios. Podem desmatar encostas de morros. Podem levantar as casas em lugares perigosos. Se já sofrem tanto, por que lhes impor uma carga adicional de constrangimentos? Como não se pode, ou não se quer, distribuir renda, distribui-se tolerância. A má consciência se paga com uma bizarra maneira de ser "bonzinho".

Mas há outro problema. Mesmo quando o poder público exerce com rigor suas prerrogativas, e não só avisa, como obriga os moradores de áreas de risco a deixar as casas, e mesmo quando lhes oferece outras casas para morar, depara com outro entrave a superar – o apego do morador de tais áreas à vizinhança. Não é estranho, nem infreqüente, que o morador da favela continue nela ainda que tenha amealhado recursos suficientes para deixá-la. No noticiário das últimas semanas apareceram casos de pessoas que experimentaram sair das áreas de risco em que habitavam, mas acabaram voltando. Ainda que suja e feia, além de perigosamente espetada numa ponta de morro, a vizinhança proporciona a segurança e o conforto moral que não se encontram em outro lugar.

O fenômeno já era apontado pelo americano Richard Morse, decano dos brasilianistas, num livro de 1954 – meio século atrás! –, sobre a cidade de São Paulo (De Comunidade à Metrópole). Falando dos cortiços paulistanos, Morse advertia que os planejadores urbanos deviam levar em conta "os ensinamentos da organização social" de seus moradores. "A despeito de brigas e intrigas, as pessoas que nasceram e cresceram num cortiço de, digamos, 200 moradores desenvolvem a sociabilidade e os hábitos de auxílio mútuo e experiência compartilhada", escreveu. Por conseguinte, os planejadores deveriam ver no cortiço "não apenas um cancro pernicioso, mas também uma instituição que, dentro de seus estreitos limites, corresponde a necessidades humanas e engloba atitudes sociais".

O problema da moradia em lugares precários, insalubres ou perigosos não é insolúvel. No momento em que o governo federal promete dedicar mais atenção e mais investimento a questões urbanas, abrem-se novas perspectivas de que seja enfrentado com êxito. Mas é complexo, tragicamente complexo, e parece que é isso que queria dizer aquele olho, soterrado não só de terra e de lixo, mas de desamparo, de medo, e de apego à única via de solidariedade que lhe coube vislumbrar.

 
 
   
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