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Era uma vez em Nova
York
Scorsese
dá a sua versão para
o nascimento da América,
com
mais ambição do que substância
Isabela Boscov
Fotos Mario Tursi/Miramax Films
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Uma
batalha na velha Nova York: 103 milhões de dólares e quase um ano
de filmagens em Cinecittà
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Veja também |
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Aos 60 anos
de idade, Martin Scorsese é considerado o maior cineasta americano
vivo e quase todos os 25 filmes que realizou são boas razões
para explicar esse epíteto. Ele assinou obras-primas indiscutíveis
(como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros),
fez filmes menos compreendidos, mas igualmente monumentais (por exemplo,
A Última Tentação de Cristo e Cassino),
e cometeu erros admiráveis pela sua ambição (como
A Época da Inocência). O que jamais faltou a Scorsese,
enfim, é coragem e convicção motivo pelo qual
se poderia supor que não o incomoda o fato de ele nunca ter ganhado
um Oscar, ou de ter em Cabo do Medo seu único sucesso de
bilheteria. Mas o diretor é menos indiferente do que se imagina.
Gangues de Nova York (Gangs of New York, Estados
Unidos/Inglaterra/Itália, 2002), que estréia nesta sexta-feira
no país, trai seu cansaço com essa falta de um reconhecimento
mais amplo. Se há uma novidade aqui, é que Scorsese parece
pronto a cortejá-lo e, nem que seja pela falta de prática,
esse é um estado de ânimo que não lhe cai bem.
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| Daniel
Day-Lewis: atuação notável como o Açougueiro, depois de cinco anos
sem filmar |
Scorsese
e DiCaprio: corte no cachê |
Nos anos
70, Scorsese casualmente deparou com o livro homônimo do americano
Herbert Asbury. Publicado em 1928, ele é um misto de crônica
jornalística e mitologia urbana que relata como, desde o século
XVIII até fins do século XIX, Nova York foi em grande parte
uma cidade caótica, dominada por gangues que rotineiramente travavam
batalhas campais nas ruas miseráveis da região conhecida
como Five Points no sudeste de Manhattan, onde hoje fica Chinatown.
Não só o controle do crime ou as disputas étnicas
entre imigrantes estavam em jogo. As gangues também faziam alianças
políticas, vendiam votos de cabresto, tomavam partido nas rixas
entre as duas forças policiais da cidade e dominavam as diversas
brigadas de incêndio, todas elas rivais, deixando que os prédios
queimassem enquanto lutavam pelo direito de usar os hidrantes. Asbury,
além disso, pintava a pobreza e a degradação de Five
Points com tintas fortes. Violência, fome crônica, imundície,
epidemias e cadáveres insepultos faziam, segundo ele, parte da
paisagem. Scorsese, que cresceu em Elizabeth Street, perto de onde um
dia havia sido Five Points, apaixonou-se pela idéia de adaptar
o livro. Em 1977, chegou a publicar uma página nas revistas especializadas
anunciando a produção. Coincidentemente, esse foi o momento
em que Hollywood, alarmada com uma série de reveses, perdeu o interesse
por projetos caros de autor. Nas décadas seguintes, o diretor voltaria
diversas vezes ao roteiro e à mesa de negociação
dos estúdios, sem sucesso. Só em 1997 a idéia foi
encampada pela produtora Miramax, que aprovou para ela um orçamento
respeitabilíssimo, de 83 milhões de dólares
o qual foi depois excedido em mais de 20 milhões, obrigando o diretor
e DiCaprio a devolver parte de seu cachê para cobrir os custos.
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| Cameron
e DiCaprio: astros para atrair bilheteria |
Desde que
ganhou o sinal verde, Scorsese deu mostras de que pretendia fazer de Gangues
de Nova York o maior e o mais popular de todos os seus filmes. Com
o apoio (além de muita interferência e brigas) de Harvey
Weinstein, o chefão da Miramax, alugou por quase um ano um lote
de 2 quilômetros de extensão em Cinecittà, em Roma,
onde foram rodados Ben-Hur e Cleópatra. Os cenários
foram desenhados pelo lendário Dante Ferretti, a fotografia é
do excelente Michael Ballhaus e o elenco foi calculado para ser uma combinação
imbatível de talento e popularidade. Depois de cinco anos de inatividade,
Daniel Day-Lewis interpreta Bill "O Açougueiro" Cutting, líder
da gangue dos Nativistas, que se chamam assim por se considerarem verdadeiros
americanos e por se oporem ferrenhamente à chegada em massa de
imigrantes, especialmente irlandeses, à cidade. Na trama inventada
por Scorsese (o livro não traz nenhuma espécie de enredo),
o Açougueiro mata em combate, em 1846, o irlandês "Pastor"
Vallon (Liam Neeson). Despacha o filho pequeno do derrotado para o orfanato
e, livre do rival, assume o controle absoluto de Five Points. Dezesseis
anos mais tarde, o filho de Vallon, chamado Amsterdam (Leonardo DiCaprio),
volta à cena atrás de vingança. Ocultando sua identidade,
ele se transforma no lugar-tenente do Açougueiro e se aproxima
de uma protegida deste, a punguista Jenny (Cameron Diaz). O drama que
se desenha entre os três personagens coincide com uma das maiores
convulsões na história da cidade os quatro dias de
1863 em que os nova-iorquinos mataram, incendiaram e destruíram
tudo o que havia à sua frente em protesto contra o alistamento
obrigatório para a Guerra Civil. As vítimas foram, na maioria,
negros cuja existência os moradores culpavam pelo conflito
abolicionista.
É
clara a intenção de Scorsese de contrapor à história
ideal do nascimento da nação americana uma espécie
de painel alternativo, feito de intolerância racial, corrupção
e banditismo, e também de conectá-lo à atualidade.
No passado como no presente, propõe ele, os que já se assimilaram
ao modo de vida americano tentam dobrar às porretadas, nem sempre
metafóricas, os corpos estranhos que ainda não aderiram
a ele, pelos quais nutrem um misto de amor e ódio. O Açougueiro
ama o irlandês Amsterdam como a um filho, sem que isso atenue seu
desprezo e Amsterdam odeia o nativista, mas encontra mais conforto
do que jamais conheceu sob suas asas de dragão, conforme descreve.
O problema é que, em Gangues de Nova York, essas questões
só estão presentes na interpretação extraordinária
de Daniel Day-Lewis e no plano das intenções. A tela propriamente
dita está atulhada demais de cenários, figurinos e closes
do par romântico para que sobre nela um espaço decente para
as idéias. Scorsese, além disso, é crítico,
angustiado e distante demais para mergulhar sem reservas no melodrama
e sair do outro lado dessa onda com uma tragédia humana e uma iluminação
histórica como fizeram, munidos de ambições
semelhantes, o Sergio Leone de Era Uma Vez no Oeste e Era Uma
Vez na América e o Francis Ford Coppola de O Poderoso Chefão.
Ou ainda, por que não, o Fernando Meirelles de Cidade de Deus.
Para entender como o subterrâneo aflora no caráter de uma
nação e o alimenta, uma visita às gangues do Rio
de Janeiro ainda é um programa muito mais completo, e infinitamente
mais perturbador, do que Gangues de Nova York.
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