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A
vitória dos piratas
A indústria não sabe mais como
conter os falsificadores, que agora
começam a entrar no ramo de DVDs
O pirata venceu a indústria. Em todo o mundo, os produtos falsificados,
especialmente na área de entretenimento e programas de computador,
superam em número e, em certos casos, em faturamento os artigos
legítimos. A situação chegou a um ponto em que alguns
especialistas acreditam que o melhor a fazer é jogar a toalha,
admitir a derrota e relaxar, em vez de tornar mais rígidas as leis
de direito autoral, o chamado copyright. A revista inglesa The Economist
sugeriu em editorial na semana passada uma mudança radical na maneira
de combater a pirataria de programas de computador, músicas e filmes.
"Para que as leis de copyright possam sobreviver, elas precisam ser menos
abrangentes. Com o avanço das técnicas digitais e de cópia
e distribuição, não se concebe mais que uma lei assegure
o direito setenta anos após a morte do autor", escreveu a revista.
A idéia é baratear o licenciamento e, assim, atrair para
a legalidade uma parte dos piratas. Para Hollywood, a indústria
fonográfica e as empresas que produzem jogos eletrônicos
e programas de computador, a proposta de relaxar as leis é uma
saída desesperada, equivalente a descriminalizar as drogas para
acabar com o tráfico. "Os falsificadores são ladrões
e precisam ser tratados como criminosos", disse na semana passada Frits
Bolkstein, comissário de comércio da União Européia,
ao anunciar medidas mais duras de combate à pirataria.
Os números da falsificação no Brasil são assustadores,
mas o mercado nacional não difere muito da situação
na Ásia e na Europa do Leste. De cada dez games vendidos a consumidores
brasileiros, nove são piratas. Seis de cada dez CDs com programas
de computador são falsificados. Metade dos CDs musicais é
pirateada. Mais recentemente, a pirataria mundial descobriu o mercado
de DVDs. No Brasil, a polícia calcula que as vendas de DVDs piratas
tenham chegado a cerca de 40 milhões de dólares no ano passado.
O ataque dos falsificadores ao produto parecia quase impossível
quando esse formato começou a se popularizar no mundo, cinco anos
atrás. Os DVDs, que têm capacidade para armazenar o conteúdo
de até 25 CDs, são gravados digitalmente com o emprego de
raios laser, e seu conteúdo é inteiramente digital. Quando
a indústria apostou nesse formato, ele foi declarado indevassável
devido à complexidade técnica de copiar seu conteúdo.
Bem, a realidade agora é outra. Os computadores mais caros já
saem de fábrica com leitores e gravadores de DVD. Um disco regravável
com capacidade para armazenar um filme de longa metragem com todos os
recursos de imagem e de som custa cerca de 90 reais. É um preço
muito alto para o mercado pirata. Por essa razão, apenas uma ínfima
parte dos DVDs piratas é realmente um DVD. A maioria dos falsificadores
simplesmente copia o conteúdo de imagem numa resolução
mais baixa e com um único canal de som do original. Depois, com
a ajuda de um programa de computador chamado DVD-Squeeze, o pirata armazena
o filme num CD comum regravável, que sai por cerca de 1 real. Ele
vende sua obra por 10 reais. Um DVD original custa, em média, 40
reais.
Parte do sucesso dos piratas vem da ousadia natural na profissão.
"Eles muitas vezes roubam as matrizes ainda nas fábricas e, antes
que o produto genuíno chegue ao mercado, já estão
vendendo cópias", afirma Paulo Fleury, delegado de Crimes contra
a Propriedade Imaterial de São Paulo. "A pirataria não conhece
limites. Se não conseguem roubar as matrizes, eles pegam o conteúdo
na internet e até subornam funcionários dos cinemas para
gravar os filmes na sala de exibição." O contra-ataque dos
fabricantes e da polícia tem surtido pouco efeito. Mesmo quando
a repressão é vigorosa, os falsificadores encontram uma
alternativa. No ano passado, 295 sites ligados à máfia da
pirataria de DVDs foram tirados do ar no Brasil, sem que se registrasse
redução significativa da pirataria. Os sites flagrados foram
prontamente substituídos por outros. A audácia dos piratas
pode ser verificada nas bancas de camelôs nas grandes cidades brasileiras.
Cópias piratas de O Chamado, da Universal Pictures, já
eram vendidas livremente no centro de São Paulo duas semanas antes
do lançamento do filme. O Monge à Prova de Balas (Bulletproof
Monk) tem a pré-estréia mundial marcada para abril,
mas exemplares da trama já são vendidos ilegalmente em diversos
países. O preço varia em torno de 1 dólar. As cópias
ilegais do filme são de uma versão ainda não finalizada
pelo diretor. "A certeza de impunidade é tão grande que
os comerciantes piratas se estabelecem até mesmo perto de delegacias",
diz o promotor José Carlos Blat, do Grupo de Atuação
Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério
Público.
A semana passada foi marcada por várias ofensivas contra a pirataria
no mundo. Na quarta-feira, a União Européia anunciou que
vai fiscalizar bagagens nas fronteiras, o que não deixa de ser
um retrocesso na política de livre circulação de
mercadorias no continente. A Microsoft de Bill Gates, que domina o mercado
mundial de programas para computadores pessoais, anunciou que vai investir
500 milhões de dólares em novas tecnologias antipirataria.
Há dois meses, diversos estúdios cinematográficos
anunciaram a entrada em operação de um serviço que
visa inibir a pirataria oferecendo maneiras mais baratas de assistir a
um filme. O serviço permite buscar via internet um trabalho inteiramente
gravado de forma digital, cuja exibição pode ser feita apenas
em um período de trinta dias. Depois disso, o arquivo se autodestrói.
Custa 3 dólares. O preço de uma entrada de cinema nos Estados
Unidos gira em torno de 8 dólares. Na semana passada, a Organização
Mundial das Aduanas divulgou uma estimativa que coloca o comércio
total de falsificações no mundo no patamar de 450 bilhões
de dólares por ano, o equivalente ao PIB de um país como
a Índia. Esse número quadruplicou na década de 90
e já chegou a assustadores 9% do comércio mundial. Além
de CDs e artigos de luxo, como as bolsas Louis Vuitton, os falsificadores
estão produzindo até detergente. As falsificações
e as cópias piratas ganham mercado em todo o mundo. Dezenas de
países, especialmente na Ásia, foram consideradas pela organização
das aduanas áreas absolutamente fora de controle, verdadeiras possessões
dos piratas. Só na União Européia, o número
de apreensões nas fronteiras cresceu 900% em três anos. Mesmo
com o fechamento do Napster, a mais conhecida empresa de software de troca
de arquivos musicais via internet, os prejuízos da indústria
fonográfica totalizaram 5 bilhões de dólares no ano
passado. Todas as tentativas convencionais de deter a pirataria fracassaram.
Nesse contexto, a proposta da revista The Economist de tentar algum
acordo comercial com os falsificadores não parece tão absurda.
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