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O califado do medo |
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FRUSTRADO Saddam testa lança-foguetes nos anos 80: duas tentativas fracassadas de conquistar países vizinhos |
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Como é possível um ditador se manter no poder depois de provocar duas guerras que causaram a morte de meio milhão de seus concidadãos, arruinaram a economia e transformaram um país rico em petróleo numa nação miserável e isolada? O Estado policial criado por Saddam Hussein, o senhor absoluto do Iraque há 23 anos, baseia-se numa única política a do porrete. De acordo com levantamento feito pelas Nações Unidas em 1998, pelo menos 200 000 pessoas foram mortas nos porões da ditadura iraquiana desde a Guerra do Golfo, em 1991. Saddam perseguiu os muçulmanos xiitas, que formam 56% da população, e usou armas químicas para massacrar os curdos, uma minoria com relativa autonomia no norte do Iraque. O que restou da oposição política foi dizimado ou fugiu para o exílio. O ditador tirou proveito dos doze anos de sanções econômicas internacionais para contrabandear petróleo e ampliar ainda mais sua fortuna, estimada em 6 bilhões de dólares pela revista americana Forbes, que anualmente publica uma lista dos homens mais ricos do mundo. Aos 65 anos, ameaçado de ser derrubado à força pelos Estados Unidos, Saddam continua com um poder inabalável em casa. Qualquer desafio é esmagado prontamente pelos órgãos de segurança, que têm em sua folha de pagamento um em cada dez iraquianos e vigiam de perto os movimentos de cada um dos cidadãos. O medo é o principal fator de estabilidade do regime. Poucos se arriscam a falar mal do ditador em público, sob o risco de ter, literalmente, a língua cortada.
O clima de medo é onipresente, como as estátuas e os gigantescos painéis com fotos de Saddam que ornamentam ruas e praças das cidades. Qualquer suspeita pode levar a uma convocação para depor num dos órgãos de segurança. Os iraquianos sabem o que vem em seguida. A tortura é um procedimento de rotina, e antecede o interrogatório propriamente dito. O suspeito só é liberado depois de fazer uma revelação, nem que seja uma fofoca íntima do vizinho ou colega de trabalho. Tudo é registrado em relatórios detalhados. Para os que ousam desafiar o governo ou se indispor com alguém poderoso, a violência é redobrada. As sessões de tortura podem se estender por semanas. Os métodos assustam pela criatividade e incluem choques elétricos, espancamentos, queimaduras e todo tipo de intimidação sexual esta, conduzida por estupradores profissionais, cujo cargo oficial se chama "violador da honra".
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| ONIPRESENÇA A produção de uma fábrica especializada em imagens de Saddam: fotos e estátuas do ditador estão por toda parte no Iraque |
"É impossível saber quantos iraquianos foram presos e torturados desde que Saddam chegou ao poder", disse a VEJA o iraquiano Ibrahim al-Marashi, pesquisador do Instituto de Estudos Internacionais, um centro de pesquisas de Monterrey, na Califórnia. Marashi estuda há três anos 10 milhões de páginas de documentos apreendidos em 1991 dos órgãos de segurança iraquianos por rebeldes curdos. A maioria traz relatórios detalhados de interrogatórios, ordens de execução e outras atrocidades do regime. De acordo com um dossiê divulgado no ano passado pelo governo inglês, os centros de tortura funcionam no subsolo de prédios públicos ou em presídios. Num deles, situado numa antiga escola de adestramento de cães da Academia de Polícia de Bagdá, os dissidentes são alojados num canil. No subsolo do Diretório de Segurança Geral, no centro da capital, a solitária leva o nome de "prisão-caixão". Os presos são mantidos em caixas de aço retangulares, semelhantes às gavetas dos necrotérios, e recebem apenas líquido como alimentação. A maioria morre em questão de dias. Ao contrário dos "desaparecimentos" ocorridos nas ditaduras militares latino-americanas que não admitiam esse tipo de crime , o regime iraquiano age com frieza burocrática ao executar um dissidente. Relatos recolhidos pelo Comitê contra a Repressão e pelos Direitos Humanos no Iraque, organização de dissidentes iraquianos com sede em Londres, mostram a existência de um comportamento-padrão. O corpo é entregue ao chefe da família num caixão lacrado. O funeral é cobrado dos parentes, e todo o procedimento, entre o anúncio da morte e o enterro, leva algumas horas. Em nenhum momento é permitido ver o corpo da vítima. O atestado de óbito pode indicar queimadura, afogamento ou outro tipo de "acidente" como causa da morte. O envenenamento com tálio ou chumbo foi comprovado em vários casos.
Para manter essa máquina de horror azeitada, o regime conta com o aparato repressivo mais sofisticado do planeta. Ele começou a ser idealizado e montado por Saddam Hussein em 1968, quando o Partido Baath, o único legal no Iraque, chegou ao poder. Nomeado vice-presidente e responsável pela área de segurança do novo governo, Saddam buscou inspiração na organização e nos métodos da NKVD, a polícia secreta soviética criada nos anos 30 pelo ditador comunista Josef Stalin o maior ídolo político do ditador iraquiano. De acordo com o americano Kenneth Pollack, diretor de assuntos do Golfo no Conselho de Segurança Nacional no governo Clinton e atualmente pesquisador do Instituto Brookings, o aparato repressivo envolve hoje 500.000 pessoas, distribuídas em doze órgãos com diferentes atribuições no governo, nas Forças Armadas, na máquina estatal e no Baath. Todos competem entre si e são subordinados diretamente a Saddam. Outros 2 milhões de iraquianos fazem parte da rede de proteção ao regime, atuando como informantes remunerados. Só na segurança pessoal do presidente iraquiano trabalham 32.000 agentes, entre guarda-costas, milícias antimotim e soldados encarregados de vigiar os palácios e os prédios públicos que o ditador costuma freqüentar. A maioria foi recrutada no seu clã, o Baijat, na sua tribo, Bu Nasir, e no entorno de sua cidade natal, Tikrit, a 160 quilômetros ao norte de Bagdá. Os principais cargos do governo também são ocupados por parentes de Saddam. Numa sociedade tribal como a iraquiana, só se confia em vínculos de parentesco e vizinhança.
O ditador governa o país como se fosse um chefe tribal. Valores como o patriarcalismo, a truculência e a devoção à família foram decisivos em sua formação. Ele manipula a rede de alianças entre clãs e tribos para perpetuar-se no poder. Filho de agricultores humildes, Saddam não chegou a conhecer o pai, que morreu ou simplesmente abandonou a família antes de seu nascimento. Sabe-se que foi criado pelo segundo marido da mãe, que o maltratava. Um episódio ocorrido durante a guerra contra o Irã, testemunhado por Khidhir Hamza, ex-diretor do programa nuclear iraquiano hoje refugiado nos Estados Unidos, mostra o senso de justiça do ditador, marcado pela lealdade aos familiares e amigos. Um ministro foi demitido e torturado após atribuir publicamente a derrota de uma batalha na guerra contra o Irã a um general, primo de Saddam. Tempos depois, foi reempossado e gratificado em dinheiro. Foi a forma encontrada pelo ditador para premiar a competência do ministro antes, porém, ele tratou de lavar a honra da família.
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CHEFE TRIBAL Saddam dispara tiros para o alto durante parada militar em Bagdá, em 2000: o poder no Iraque depende da fidelidade de tribos e clãs |
Se um aliado de sangue decepciona, é colocado de lado por Saddam. É o caso de Udai Hussein, de 38 anos, o filho mais velho do presidente. Cotado para suceder o pai, foi perdendo prestígio até cair em desgraça por causa de seu comportamento errático. De acordo com exilados iraquianos, Udai costuma torturar pessoalmente os desafetos presos e pede que as sessões sejam gravadas em vídeo para assistir depois. Udai já baleou um tio numa festa de família e espancou até a morte o mordomo do pai. Para completar, é beberrão e mulherengo. Em 1996, envolveu-se em um tiroteio numa boate de Bagdá que o deixou preso a uma cadeira de rodas. Sua última barbaridade, no ano passado, revela o grau de violência que cerca o clã. Irritado com um assessor que se atrasou para uma reunião, Udai o obrigou a beber 2 litros de uísque e ficou esperando sua morte, por intoxicação. Seu irmão, Qusai Hussein, de 36 anos, herdou da família a truculência, mas é mais discreto. Demonstrou capacidade administrativa, ascendendo rapidamente na hierarquia do Partido Baath e do aparato de segurança por isso é o favorito para suceder o pai.
Os parentes que cercam Saddam no poder têm direito a várias regalias, como salários em dólar e autorização para viajar para o exterior. Mas, se traírem a confiança, o castigo é cruel. Foi o que ocorreu com os dois genros do ditador. Eles fugiram para a Jordânia em 1995, levando todos os segredos do programa nuclear iraquiano. Saddam prometeu perdoá-los se voltassem para Bagdá, com suas filhas e netos. Convencidos da sinceridade do sogro, eles retornaram meses depois e acabaram mortos a tiros mesmo destino de outros 51 parentes do ditador acusados de traição. A maioria esteve envolvida nas seis tentativas de golpe que o regime já enfrentou. Nessas situações, Saddam é implacável com os desafetos. Em seu livro The Threatening Storm, Kenneth Pollack diz que o ditador comanda pessoalmente as sessões de tortura e exige punição exemplar para a família dos conspiradores antes de mandar executá-los. Tudo é gravado em vídeo, e as fitas circulam pelo Iraque, para que sirvam de lição. Outra estratégia usada com freqüência por Saddam é implicar assessores e aliados nos crimes do regime. Trata-se de uma forma de amedrontar os cúmplices com a ameaça de que, se a ditadura afundar, eles vão junto.
Foi assim que Saddam agiu ao dar o golpe que o levou ao poder, em 1979. Na época vice-presidente, ele convocou uma reunião do governo e denunciou um complô. Foi nomeando, um a um, os envolvidos num total de 54 políticos, entre ministros e assessores. Na semana seguinte, os "traidores" foram executados. Por ordem de Saddam, os ministros que escaparam da degola integraram o pelotão de fuzilamento. Para evitar surpresas, o ditador iraquiano costuma promover expurgos preventivos no governo e, principalmente, nas Forças Armadas. Saddam nunca confiou nos militares. Talvez por ter sido barrado no Exército, aos 16 anos, por causa de sua origem humilde. As patentes militares que ostenta no currículo são todas inventadas por ele entre elas a de marechal-de-campo. Para eternizar seu nome, Saddam torrou 2,5 bilhões de dólares por ano desde 1991 erguendo meia centena de palácios em vários pontos do país. Logo surgiu a suspeita de que funcionavam como esconderijo para as armas químicas e biológicas que os americanos dizem existir no Iraque. Os palácios têm arcos em estilo neo-islâmico, paredes de mármore, jardins monumentais, cascatas e piscinas a água é um símbolo de poder em países desérticos como o Iraque. O ditador também gastou uma fortuna para atrelar sua imagem ao Islã. Nenhum líder árabe, desde o século XIII, construiu tantas mesquitas quanto ele.
Saddam governa pelo terror, mas vive dominado pelo medo de ser derrubado. Sua preocupação com a segurança beira a paranóia. De acordo com o jornalista americano Mark Bowden, que, baseado em dezenas de entrevistas com exilados, traçou um dos mais completos retratos da vida pessoal de Saddam, o ditador iraquiano anda sempre com um colete à prova de balas e um revólver pendurado na cintura. Dorme no máximo cinco horas e nunca passa duas noites seguidas no mesmo local. Seus palácios são fortalezas indevassáveis, protegidas por muros, cães, dezenas de guardas e vigilância eletrônica. Em todos eles, as refeições são preparadas normalmente para o caso de o ditador aparecer. Os deslocamentos exigem uma operação de guerra. Vários comboios de carros blindados partem ao mesmo tempo, em diferentes direções. Nas cerimônias oficiais em locais abertos, onde há risco de atentados, sósias do ditador são escalados para representá-lo o que inclui cortar fitas em inaugurações e abraçar correligionários. Saddam também é obcecado pelo temor de ser envenenado. Duas vezes por semana, um avião traz da Europa os alimentos que serão consumidos pelo ditador. Sua guarda pessoal tem uma equipe encarregada de provar toda comida colocada em seu prato. Até a tinta que ele usa para pintar o cabelo é analisada em laboratório.
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| TRUCULÊNCIA
HEREDITÁRIA Qusai e Udai Hussein, os filhos do ditador: histórico de torturas, abuso de poder e de perseguições a desafetos |
Apesar das esquisitices, o ditador sabe muito bem o que quer e é obstinado em perseguir seus objetivos. Desde que assumiu o poder, em 1979, sua estratégia não mudou Saddam pretende ampliar o poderio militar e econômico do Iraque para que o país tenha importância estratégica à altura de sua maior ambição, que é a de tornar-se o grande líder do mundo árabe. É por isso que Saddam tentou abocanhar novos territórios pelo caminho da força. A guerra contra o Irã foi a primeira oportunidade que surgiu. O petróleo jorrava, Saddam era cortejado pelos Estados Unidos como uma alternativa de equilíbrio regional ao poder dos aiatolás de Teerã e o Iraque passava por um período de modernização. Saddam estava de olho nos poços de petróleo localizados numa região disputada pelos dois países. Após oito anos de guerra, na qual Saddam empregou pela primeira vez armas químicas, o conflito acabou em empate. Mas a um preço elevadíssimo: cerca de 400.000 mortos e uma conta de 230 bilhões de dólares para reconstruir o Iraque.
Os sonhados poços não foram conquistados, mas o ditador iraquiano emergiu do conflito com um trunfo que procurava: o maior Exército do Oriente Médio e o quarto do mundo, com 1,2 milhão de homens. Essa força, além de enorme, ganhou experiência de combate. Mais: Saddam tinha montado um volumoso arsenal de armas de destruição em massa e um complexo industrial-militar funcionando a todo o vapor. Com tudo isso, considerou-se em condições de seguir adiante com seus planos de dominação. Nenhum deu certo. A invasão do Kuwait e a posterior Guerra do Golfo foram marcadas pelos incríveis erros estratégicos do ditador iraquiano. A tomada do Kuwait tinha objetivos econômicos apoderar-se dos poços de petróleo do país vizinho para, assim, ter poder de barganha na cotação mundial do preço do óleo. Saddam esperava que os Estados Unidos reagissem à invasão do Kuwait enviando uma força menor e acreditava que nunca arriscariam uma grande ofensiva por terra, por causa do elevado número de baixas. O ditador tampouco acreditou que o então presidente americano, George Bush, estivesse falando sério ao prometer libertar o Kuwait. Quando a coalizão militar entre os americanos e seus aliados foi formada, com uma concentração de forças nitidamente superior a sua expectativa, já era tarde.
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| OBEDIÊNCIA
FORÇADA Milícia marcha em Bagdá: população sob pressão para cumprir os objetivos militares do ditador |
Segundo
analistas do regime iraquiano, Saddam parece convencido até hoje
de que os Estados Unidos só não prosseguiram a ofensiva
por terra até Bagdá, em 1991, por medo do arsenal iraquiano
de armas químicas e biológicas. Ele não usou esse
tipo de armamento na Guerra do Golfo. O que se viu nos últimos
doze anos foi uma queda-de-braço entre os Estados Unidos e Saddam
em torno da existência ou não desse arsenal proibido. O Iraque
diz que desistiu de seu programa nuclear e destruiu todas as armas químicas
e biológicas. Não há provas, contudo, de que tenha
realmente feito isso. Não há provas também de que
esconda armas químicas e biológicas. O fato preocupante
é que Saddam preferiu encarar as sanções econômicas
internacionais, que custaram 180 bilhões de dólares a seu
país desde 1991, a se desarmar sob a supervisão das Nações
Unidas. Esse comportamento talvez se explique pela lógica do poder
no Iraque. Saddam sabe muito bem que, se demonstrar fraqueza ou aceitar
se desarmar, será fatalmente engolido por seus inimigos domésticos.
A dúvida é como o ditador iraquiano reagirá a uma
invasão que tem o objetivo específico de derrubá-lo.
"Furioso com o mundo, Saddam deverá usar suas armas secretas e
tentará causar o máximo de destruição antes
de sumir do mapa", prevê o historiador americano Daniel Pipes, um
especialista em Oriente Médio. "É o que os alemães
chamam de Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses)."
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