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Bush
já está
em guerra
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AFP

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"Que
não haja mal-entendido: se Saddam Hussein não se desarmar completamente,
para a segurança de nosso povo e para a paz do mundo, nós lideraremos
uma coalizão para desarmá-lo."
George
W. Bush, em discurso
no
Congresso americano
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George
W. Bush não disse isso com todas as letras. Mas deixou claro que
os primeiros tiros da guerra contra o Iraque só não foram
disparados porque as tropas americanas ainda não estão em
posição de combate no Golfo Pérsico. Na terça-feira,
o presidente dos Estados Unidos aproveitou o discurso sobre O Estado da
União, sua mensagem anual ao Congresso, transmitida pela TV, para
emitir uma declaração informal de guerra e preparar os americanos
para o conflito iminente. Ele gastou metade do pronunciamento de uma hora
para enumerar, metodicamente, os argumentos que justificam uma invasão
para depor Saddam Hussein.
Disse que o ditador iraquiano estocou armas de destruição
em massa com o plano perverso de controlar pela força o petróleo
do Golfo Pérsico. Acrescentou que Saddam se aliou aos terroristas
da Al Qaeda. E que é um tirano para seu próprio povo. Nas
palavras de Bush, o ataque, com ou sem o respaldo de uma resolução
das Nações Unidas, é uma "questão de semanas".
Na prática, a contagem regressiva para a queda de Saddam teve início
três meses antes, quando a Casa Branca começou a despachar
sua máquina de guerra para o Golfo. Mas faltavam aos Estados Unidos
apoio interno e externo e motivos cabais que justificassem uma escalada
militar que não se via desde a Guerra do Golfo, contra o mesmo
Iraque, em 1991. Todos esses obstáculos parecem agora contornados
ou, simplesmente, deixaram de ser levados em conta pelos guerreiros da
Casa Branca.
Antes do discurso, apenas 47% dos americanos apoiavam uma intervenção
militar no Iraque sem respaldo da ONU. Depois que Bush terminou sua exposição,
o índice de aprovação pulou para 67%. Números
assim são uma alegria para um presidente com a popularidade em
queda e às voltas com a recessão econômica. Bush conseguiu
também isolar a resistência à guerra liderada pela
França e Alemanha com a divulgação de um manifesto
de apoio a sua posição, assinado por outros oito países
europeus: Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal, Dinamarca, Polônia,
Hungria e República Checa. A brecha no processo diplomático
foi facilitada pela apresentação ao Conselho de Segurança
da ONU do primeiro relatório dos inspetores encarregados de vistoriar
as instalações iraquianas suspeitas de armazenar armas químicas
e biológicas. Eles não encontraram as provas do crime, mas
denunciaram a falta de colaboração do governo de Bagdá.
Era o argumento que o presidente americano procurava para fundamentar
sua acusação de que o ditador do Iraque pretende apenas
ganhar tempo e enganar a comunidade internacional.
O próximo passo do governo americano é lançar uma
ofensiva diplomática para ampliar o apoio à guerra. Na quarta-feira,
o secretário de Estado, Colin Powell, deverá apresentar
na ONU as provas que Bush afirma ter sobre dois pontos cruciais. Primeiro,
que Saddam esconde armas de destruição em massa. Além
disso, haveria também provas das ligações de Saddam
com o terrorismo. As informações vazadas pela Casa Branca
no fim da semana indicavam que se trata de fotos de satélites mostrando
o transporte de material suspeito, gravações telefônicas
de encontros entre integrantes do regime de Bagdá e terroristas
da Al Qaeda, a organização responsável pelos atentados
de 11 de setembro nos Estados Unidos.
Os americanos só têm a ganhar se conseguirem a autorização
da ONU para invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein. Para isso, precisarão
reverter a resistência à guerra manifestada por Rússia
e China, além da França países com poder de
veto no Conselho de Segurança. É duvidoso que a estratégia
de convencimento funcione a toque de caixa, como quer Bush. Está
difícil para o governo americano explicar, sobretudo a seus tradicionais
aliados europeus, por que a Coréia do Norte, que é uma ditadura
comunista com armas nucleares, pode ser tratada por via diplomática
e Saddam não. Ou a razão pela qual Bagdá deve ser
obrigada a obedecer às resoluções da ONU, mas Israel
está dispensado de tal compromisso.
O mal-estar em relação à guerra ultrapassa a "velha
Europa", como o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld,
desdenhosamente chamou a França e a Alemanha. Só 30% dos
ingleses apóiam a guerra incondicionalmente. Na Espanha, são
apenas 13%. "Ninguém duvida que o regime de Saddam é indefensável",
escreveu a revista americana Newsweek, "mas os europeus querem
que qualquer julgamento do assunto seja feito pelo Conselho de Segurança
da ONU, e não por Washington". Jacques Chirac, o presidente da
França, diz que a "guerra é sempre a pior solução",
especialmente no Oriente Médio. Para Chirac, a guerra só
vai incentivar o terrorismo antiamericano. Norman Schwarzkopf, o general
que comandou as forças americanas na Guerra do Golfo, em 1991,
diz que, por razões estratégicas, seria melhor Bush esperar
até que os demais países estejam convencidos da necessidade
de depor Saddam pela força.
Com seu poderio bélico incomparável, os Estados Unidos não
teriam problemas de resolver sua pendenga com Saddam sem a ajuda externa.
Mas têm motivos de sobra para tentar ampliar o leque de apoio a
uma intervenção militar no Iraque. O primeiro é de
ordem política. Os americanos querem evitar o desgaste de assumir
sozinhos o papel de força invasora e, posteriormente, de ocupação
num país árabe. Não é difícil imaginar
como os fundamentalistas islâmicos poderiam usar a guerra para fomentar
o ódio aos EUA na região. O aspecto econômico é
igualmente importante para a Casa Branca. O apoio de países vizinhos,
como Turquia e Arábia Saudita, com suas bases aéreas e instalações
militares, é fundamental para baratear os custos de uma intervenção
em grande escala. Estimativa de um comitê do Congresso americano
mostra que, em três meses, os gastos com pessoal, operações
e transporte de armas deverão consumir até 12,5 bilhões
de dólares. Isso para não falar nos custos para reconstruir
o Iraque após o conflito e bancar a manutenção de
uma força militar estrangeira no país.
Bush, na metade do mandato, está entrando num período de
campo minado em relação à política econômica
de seu governo. O maior temor do atual presidente americano é repetir
o fiasco de seu pai, George Bush, que ganhou a Guerra do Golfo, mas acabou
perdendo a reeleição depois de ser atropelado por uma recessão
econômica. O problema do Pentágono é adequar o cronograma
militar ao diplomático. O objetivo é deixar um prazo para
que Bush costure as alianças necessárias a tempo de manter
os planos de iniciar a ofensiva contra Saddam entre a metade e o fim de
fevereiro antes, portanto, do verão no Hemisfério
Norte. Até lá, os Estados Unidos terão em posição
de combate sua força máxima, o que pode chegar a 250 000
soldados. Os estrategistas americanos apostam no poderio bélico
despachado para o Golfo para decidir a guerra e derrubar Saddam entre
três e oito semanas, sem sobressaltos.
O Pentágono já admite que tropas especiais estão
operando, em pequeno número, no norte do Iraque. Na região,
onde a minoria curda usufrui certa autonomia, quase não há
forças do governo de Bagdá. É uma estratégia
que lembra a usada no Afeganistão. A diferença é
que no Iraque não se pode contar com a ajuda de forças oposicionistas,
como ocorreu no país dos talibãs. Em 1991, os EUA e seus
aliados precisaram de seis semanas de bombardeios e menos de 72 horas
de combate por terra para liquidar a fatura. Então, apenas 5% das
bombas americanas eram guiadas por laser ou satélites hoje,
esse índice chega a 85% do arsenal. O Iraque, por sua vez, teve
sua capacidade militar reduzida pela metade. A tendência desta vez
é restringir os bombardeios aéreos aos centros de comando,
quartéis das tropas de elite, sistemas de defesa e bases de lançamento
de mísseis e tentar antecipar ao máximo a invasão
por terra de preferência à noite, para tirar proveito
do equipamento usado pelos soldados que permite visão noturna.
"Se os bombardeios conseguirem neutralizar rapidamente a Guarda Republicana
Especial, a principal tropa de elite de Saddam, são grandes as
chances de rendição dos demais líderes militares",
disse a VEJA o contra-almirante da reserva Stephen Baker, analista do
Centro de Informação de Defesa, instituto de pesquisa com
sede em Washington. Nada disso faz a guerra inevitável. Saddam
pode sucumbir à pressão e salvar a pele partindo para o
exílio. Pode também frustrar ou adiar os planos bélicos
de Bush com o simples ato de entregar à ONU todas ou, pelo menos,
algumas das armas proibidas. De qualquer forma, os dias de poder de Saddam
estão contados.
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