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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Globalização fase 2
As chances do Brasil

Uma pesquisa inédita mostra como
o Brasil vai enfrentar os outros países
emergentes na corrida global

João Gabriel de Lima e Eduardo Salgado

 
AFP
A reunião da OMC em que a China entrou no jogo: mão-de-obra barata e superpopulação


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A corrida da democracia
O salto do conhecimento

Em sua viagem à Europa na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou-se com um discurso muito adequado à atual fase do processo que os analistas chamam de "inserção externa" do Brasil – o jargão diplomático para definir o relacionamento do país com o mundo. "É preciso que a gente pare de culpar os países ricos pelas nossas pobrezas", disse o presidente brasileiro. Em suas declarações na Europa, Lula pintou o retrato de um Brasil de finanças vulneráveis, grandes mazelas sociais, mas forte o bastante para manter-se à tona no cenário internacional. Receita: uma política interna de controle fiscal e uma política externa agressiva de exportações.

O Brasil tem perdido oportunidades sucessivas de dar o salto que o tirará do subdesenvolvimento. Era um país de economia mais forte que a dos Tigres Asiáticos na década de 70. De lá para cá, eles subiram de patamar e o Brasil ficou para trás. Os anos 90 ofereceram uma oportunidade de crescimento que o Brasil aproveitou apenas parcialmente. Agora, abre-se uma nova fase mais competitiva do processo de globalização. O que deve fazer o Brasil para ter alguma chance de encarar os demais países emergentes nesta nova etapa? Para avaliar esse desafio, VEJA encomendou uma pesquisa ao Monitor Group, empresa de consultoria estratégica especializada em competitividade, fundada em 1983 por professores da universidade americana Harvard. O Monitor Group acompanha o desempenho econômico e social de 23 países, entre eles o Brasil. O estudo feito para VEJA comparou o Brasil com os outros cinco países que formam o chamado grupo dos emergentes, aqueles que são freqüentemente apontados como as "bolas da vez" do crescimento econômico: China, Rússia, Índia, México e Chile. Incluiu-se no estudo, como referência de sucesso, um país que conseguiu efetivamente saltar do primeiro vagão dos emergentes para o último vagão do comboio dos ricos, a Coréia do Sul. Nas três últimas décadas, a Coréia do Sul atingiu índices sociais muito próximos da média do Primeiro Mundo.

O feito da Coréia se assemelha ao do Japão no pós-guerra. Ao fim da II Guerra Mundial, o Japão estava arrasado, contando os mortos e tratando as feridas do ataque nuclear contra Hiroshima e Nagasaki. Vinte anos depois, a economia japonesa se tornara a mais vibrante da Ásia. Precisou de mais dez anos para chegar ao posto de potência econômica mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. Por volta desse período, meados da década de 70, a Coréia era um país pobre. Hoje os coreanos desfrutam uma renda per capita de 9.000 dólares – o que os coloca no patamar de um país rico da década de 80. "Um bom resumo da corrida daqui para a frente é saber se o Brasil poderá ser a Coréia das primeiras décadas do século XXI", diz Edson Vaz Musa, presidente do Monitor Group no Brasil.

É interessante notar que o estudo do Monitor Group não mede o grau de adesão dos países ao rigor com as finanças públicas e à estabilidade monetária. A razão é simples. Os países que não apresentam essas características básicas nem sequer podem alinhar-se para a largada da corrida global. Ter as finanças em ordem foi distintivo para os países nos anos 90. Agora esse fator é considerado precondição. Sem ele, nem adianta começar a discutir. A grande virada da sociedade brasileira nos anos 90 foi justamente assimilar essas noções e forçar os governantes, independentemente de suas ideologias, a manter as contas do governo em equilíbrio. Nesta semana, o governo do PT vai anunciar cortes de gastos e seu compromisso com um superávit primário que pode chegar a até 4,5% do produto interno bruto (PIB). Isso significa que o governo de Lula vai apertar mais o cinto que o de Fernando Henrique Cardoso, que manteve esse indicador em 4,02%. "Com mais urgência que os demais emergentes, o Brasil precisa diminuir sua vulnerabilidade financeira e economizar mais. É a única saída", diz o ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

 
Robson Fernandes/AE
Comício do PT na campanha presidencial: fantasma da esquerda foi exorcizado

Para avaliar os países concorrentes do Brasil, a equipe de Musa concentrou-se em quatro quesitos básicos: solidez das instituições, educação básica, capacidade de inovação e tecnologia. Esses são os principais itens de comparação entre os países emergentes nesta segunda fase da globalização. Pode-se citar uma dezena de outros requisitos, mas as variáveis escolhidas pelo Monitor Group são as que mais chamam a atenção dos investidores estrangeiros.

Como está o Brasil nessa competição? O país aparece como o que mais avançou nos anos 90 naquilo que os especialistas acreditam ser as áreas de progresso mais lento e complexo: a educação básica e a consolidação das instituições democráticas. Quando o foco muda para a tecnologia e a capacidade de inovação, o Brasil fica ligeiramente à frente do México, mas perde para os países asiáticos. "No balanço geral, o que se nota é que o Brasil usou a década passada para acertar o passo nas áreas mais difíceis e agora tem a tarefa mais leve de acelerar a inovação e a tecnologia aplicada", explica Musa. Um exame detalhado das conclusões da pesquisa do Monitor Group dá uma idéia realista da posição do Brasil e de seus concorrentes na corrida:

SOLIDEZ DAS INSTITUIÇÕES – O Brasil pontua bem neste quesito no levantamento do Monitor Group. Os melhores indicadores brasileiros estão no campo institucional, refletindo o considerável avanço que o país conseguiu ao realizar uma transição sem solavancos para um governo de esquerda comprometido com a estabilidade econômica. Mas falta ainda muito por fazer, especialmente quando se trata do "cumprimento das leis". Do ponto de vista econômico, esse é um dos itens institucionais pesquisados mais significativos. Nesse capítulo, o Brasil vence o México e a Rússia, porém perde para China, Índia, Coréia do Sul e Chile. Segundo um cálculo do economista Martin Feldstein, da Universidade Harvard, o custo com advogados e ações de reparação de danos quando se investe em países emergentes com fraco respeito a leis e contratos pode chegar a 30% do capital por ano.

O QUE FAZER: Em tempos de capital abundante, os investidores aceitaram correr esse risco. Na década atual, o mais sábio a fazer é melhorar ainda mais o cumprimento das leis em todos os níveis.

EDUCAÇÃO BÁSICA – Na frente educacional, o Brasil conseguiu diminuir o atraso de décadas que mantinha em relação aos países emergentes. Com 97% das crianças em idade escolar freqüentando as aulas, o Brasil deu um salto. Ao todo, 52 milhões de brasileiros, quase um terço da população, estudam diariamente em pré-escolas, nos cursos primário e secundário. Com todo o empuxo da última década, o Brasil ainda é o último da fila no levantamento feito pelo Monitor Group quando se compara o tempo médio de escolaridade dos adultos. Enquanto, na média, um brasileiro tem 4,88 anos de estudo, um coreano tem 10,84.

O QUE FAZER: O vital agora é manter as crianças na escola, melhorar a qualidade do ensino e tornar a educação uma atividade para a vida inteira. Na Coréia, esse desafio é compartilhado entre governo e empresas. As chamadas "escolas vocacionais" nas próprias companhias coreanas oferecem cursos de dois anos de duração, direcionados para o trabalho, que são freqüentados por 57% dos coreanos adultos.

CAPACIDADE DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA – A Rússia e a Coréia lideram o ranking quando se medem os investimentos em tecnologia, o número de artigos científicos publicados internacionalmente e as patentes registradas no mercado americano. O Brasil fica em terceiro lugar em recursos investidos em tecnologia, mas só ganha do México e do Chile em resultados científicos e registro de patentes. A boa notícia é que nesse campo os saltos revolucionários podem ser dados em muito pouco tempo. Segundo os analistas, o Brasil está pronto para dar esse salto de qualidade. "Temos, de longe, as melhores universidades da América Latina e um ritmo de formação de doutores compatível com países do Primeiro Mundo", diz o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.

O QUE FAZER: Os especialistas mostram que o salto de qualidade e inovação obtido pelos países ocorreu no momento em que a atividade de pesquisa migrou das universidades para as empresas. "À medida que os pesquisadores da academia são absorvidos pela iniciativa privada, o conhecimento se transforma em inovação e riqueza", explica o reitor da Unicamp. Em todos os países do Primeiro Mundo, sem exceção, a pesquisa de aplicação imediata é feita integralmente pelas empresas. Mais recentemente elas passaram a responder também por um volume razoável de pesquisa básica. Nos Estados Unidos, oito de cada dez estudos com resultados práticos são feitos por empresas. No Brasil, esse número é de apenas dois. As companhias brasileiras, porém, vêm contratando cada vez mais cientistas e registrando um número crescente de patentes.

 
Divulgação
Um jato regional da Embraer: o Brasil precisa de outras multinacionais

Os anos 90 começaram marcados pelo mantra da globalização, segundo o qual a imitação do estilo de capitalismo americano abriria as portas para o crescimento. Ao embarcar na onda, o Brasil avançou muito. Livrou-se de uma inflação paralisante, que nos piores anos da década de 80 chegou a inacreditáveis 85% ao mês. Aprovou uma Lei de Responsabilidade Fiscal que sinalizou para o mundo a decisão da sociedade de não deixar os desmandos estatais espoliar toda a riqueza do país. Mas os benefícios da globalização não vieram no volume prometido. O Brasil apresentou taxas de crescimento medíocres nos anos 90. A riqueza brasileira medida pela variação do PIB teve, na média, crescimento anual de 2,3% nos nove primeiros anos da década passada. Foi um desempenho melhor que nos anos 80, em que a média de crescimento ficou em 1,9%. Mas é baixo diante das imensas promessas da globalização. A década, porém, não foi perdida. Ao contrário, ela preparou o Brasil para os desafios atuais. A maioria dos analistas concorda que a grande vitória brasileira nos anos 90 foi, como disse Lula na Europa, deixar de culpar os outros pelos nossos problemas. "Foi uma década de grandes transformações já comparadas com movimentos geológicos profundos, imperceptíveis a olho nu", diz o economista Fabio Giambiagi, que organizou um trabalho sobre economia brasileira nos anos 90 preparado por uma dezena de especialistas. "Só depois de um longo processo, os resultados positivos serão sentidos na superfície", completa Giambiagi.

Um balanço dos anos 90 mostra que a China e a Índia foram as grandes vencedoras da primeira década da globalização. Viram centenas de milhões de miseráveis se transformar em pobres e dezenas de milhões de pobres passar a integrar a classe média consumidora. Nos anos 90 houve uma inundação dos países emergentes por capitais vindos das nações ricas. Em abundância e agressividade, esse fenômeno só teve paralelo na chuva de petrodólares dos anos 70. Em situações assim, o capital não precisa ser atraído. Aliás, alguns países, como o Chile e a Malásia, criaram mecanismos para controlar a entrada e a saída de dólares. "O jogo agora é outro. Os capitais financeiros e os de investimento direto terão de ser atraídos", diz o americano Martin Feldstein. Num ano bom como o de 1998, o Brasil recebeu 36 bilhões de dólares de investimento direto. Esse volume caiu dramaticamente. No ano passado, entraram 16 bilhões de dólares no país. A previsão do Banco Central para este ano é de 13 bilhões de dólares. Em 2004, o BC não espera mais do que 15 bilhões. A década será marcada pela competição mais acirrada entre os países para atrair investimentos. "O lado ruim dessa nova realidade é que não vai haver capital para todos os interessados. A parte boa é que o capital está mais seletivo e não tem candidatos naturais. Até os Estados Unidos terão de entrar na competição", diz Feldstein. Mais uma vez o Brasil está no jogo e não pode perder mais uma janela de oportunidades para o desenvolvimento.

 

AS CHANCES DO BRASIL VISTAS DE FORA


Riia


"O Brasil tem todas as condições de iniciar um bem-sucedido período de crescimento econômico sustentado pelas exportações. As condições para o Brasil crescer são fantásticas. O câmbio está muito favorável. Em tese, há três caminhos para o Brasil agora. O crescimento baseado no consumo interno, um outro caminho que depende de investimentos externos e um terceiro impulsionado pelas exportações. A estratégia do consumo interno tem problemas. Se aumentar muito o salário mínimo, a demanda por importações crescerá. Com isso, virão os déficits na balança de pagamentos. Não dá. O crescimento baseado em investimentos é desejável, mas improvável. Dificilmente o Brasil receberá uma nova onda de grandes investimentos estrangeiros. A alternativa é a exportação."
Victor Bulmer-Thomas, diretor do Royal Institute of International Affairs, de Londres, e autor do livro A História Econômica da América Latina desde a Independência (The Economic History of Latin America Since Independence)


Tasso Marcelo/AE


"É fundamental baixar a taxa de juros. Isso vai exigir uma redução da dívida do governo com a manutenção de uma política fiscal restritiva. Quando o governo parar de disputar os créditos existentes, a taxa de juros diminuirá para as empresas."
John Williamson, analista do Instituto de Economia Internacional, de Washington, e criador da expressão "Consenso de Washington"

 

O Brasil, a China e a Índia são as potências emergentes. O Brasil tem enorme potencial nas áreas de químicos, biotecnologia e farmacêutica. Há recursos naturais e também mão-de-obra especializada. No setor de eletrônicos, pode retomar a posição que já teve. Mas não existem grandes empresas brasileiras investindo para avançar na fronteira tecnológica. Na Índia, o setor de software é uma potência, e várias companhias investem em pesquisa. Na China, é a mesma coisa. E o Brasil? Só se fala de Embraer. Por que não há mais? O Brasil precisa seguir o exemplo da China e da Índia, que priorizaram grandes empresas nacionais."
Alice Amsden, professora de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts

"A China é o exemplo de que países com grandes mercados internos, como o Brasil, também podem adotar uma política de crescimento baseada nas exportações. O Brasil ainda exporta muito pouco. Para ser bem-sucedido no mercado internacional, é necessário ter foco por longo tempo. As empresas que olham para fora apenas quando o mercado interno está em baixa dificilmente vencem."
Homi Kharas, economista-chefe do Departamento do Leste Asiático e Pacífico do Banco Mundial

"O sucesso vai depender da habilidade do presidente Lula de aproveitar o período de lua-de-mel para fazer as reformas e recolocar a economia para crescer. Será mais fácil atingir todos os objetivos sociais do novo presidente com uma expansão robusta da economia."
Dani Rodrik, professor de economia internacional da Universidade Harvard

 

 
 

 

 

   
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