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"Se as pessoas não conseguem encontrar tempo para fazer alguma atividade física, que achem tempo para ficar doentes" |
Criador do teste de Cooper, o médico americano Kenneth Cooper vive em meio a uma maratona. Nos últimos 35 anos, ele tem se dedicado a convencer as pessoas dos benefícios de praticar esportes e levar uma vida mais saudável. "É mais barato e eficiente manter a boa saúde do que recuperá-la depois de perdida", diz. Seu esforço não foi em vão. Os conceitos do médico são utilizados em mais de 100 países. No Brasil, seu método de condicionamento físico virou nome de prática esportiva. Pessoalmente, o esforço também lhe tem feito bem. Aos 71 anos, segue uma rotina que inclui corridas de trinta minutos, de quatro a cinco vezes por semana, complementadas por exercícios de musculação. É assim que consegue o preparo físico para viajar pelo mundo fazendo palestras, escrever livros publicou dezoito, em mais de cinqüenta países e dirigir um centro de medicina preventiva, na cidade de Dallas, no Texas, freqüentado semanalmente por mais de 3 500 pessoas. Foi de lá que concedeu a VEJA a seguinte entrevista, sobre o combate à obesidade e os cuidados que se deve ter para uma melhor qualidade de vida.
Veja
Apesar da consciência cada vez maior dos males provocados
pela obesidade, o número de pessoas acima do peso não pára
de crescer. Por que não se consegue simplesmente levar uma vida
mais saudável?
Cooper Esse
é um problema intrigante. Há hoje, no mundo, 1 bilhão
de pessoas obesas, e a tendência é esse número aumentar.
Acho que existe uma razão cultural para isso. Historicamente, a
obesidade é ligada à riqueza, à boa renda, ao sucesso
financeiro. Diz-se que alguém deve estar bem de vida quando está
acima do peso. Isso acaba se incorporando na cultura e provoca um efeito
exemplar muito forte e nocivo. Essa imagem precisa mudar. As pessoas têm
de entender que estará melhor de vida quem estiver em forma. Fiquei
muito satisfeito ao saber que o Rei Momo, no Rio de Janeiro, não
precisará mais ser obeso, poderá usar enchimento. Não
é um bom exemplo uma pessoa ter de ser gorda para se tornar rei.
Mesmo que seja rei do Carnaval.
Veja No Brasil, começa a surgir a discussão
sobre a proibição da venda de doces, balas e hambúrgueres
nas escolas públicas. Qual sua opinião sobre essa medida?
Cooper Também
nos Estados Unidos se discute isso. Muitas escolas estão sendo
obrigadas a retirar as máquinas de venda de guloseimas. Acho que
não adianta. O efeito imediato é que surgem vendedores do
lado de fora dos portões, e as crianças vão lá
comprar o que querem. Elas sempre vão em busca do que gostam, mesmo
quando sabem que aquilo não faz bem. É melhor tentar mudar
os hábitos alimentares, oferecendo produtos de baixa caloria. A
experiência mostra que é possível fazer com que as
crianças se interessem por alimentos mais saudáveis na escola
ou em casa. E isso se faz educando, deixando claro que essa é a
melhor maneira de ter uma vida melhor.
Veja O senhor acha que é possível reduzir o
problema da obesidade com ações governamentais, tais como
criação de leis e proibições?
Cooper
Sou a favor da intervenção governamental, mas é preciso
saber como fazer isso. Nos Estados Unidos, fala-se em processos judiciais
coletivos contra as redes de fast food ou na criação de
um imposto que incidiria sobre os alimentos gordurosos, por exemplo. Penso
que isso não funciona muito bem. Não adianta o governo criar
impostos ou exigir avisos nas embalagens que alertem para o risco do consumo
de produtos. A chave é enfatizar o que fazer, mostrar de forma
eficiente os benefícios que se pode ter. Isso traz resultado melhor
do que criar proibições. A questão não se
resume a obrigar as pessoas a comer menos, a emagrecer. Elas precisam
se exercitar mais. Temos estudos que mostram que é melhor estar
acima do peso e praticar alguma atividade física do que ser magro
e levar uma vida sedentária. O que se deve fazer é estimular
as pessoas a sair de casa, caminhar, exercitar-se. Ao mesmo tempo, é
necessário demonstrar as vantagens de se alimentar de forma mais
saudável. Eu, por exemplo, quando vou a um restaurante fast food,
procuro comer salada. Se não tiver escolha, opto por um hambúrguer,
sem drama de consciência. Mas sempre vou até o balcão
de saladas primeiro.
Veja Em breve a Pepsi estará lançando, nos
Estados Unidos, uma linha de salgadinhos sem gordura nem sal que terá
na embalagem mensagens suas ligadas à saúde e à boa
forma. Mesmo sendo produtos light, são em alguma medida calóricos.
Não é contraditório o senhor ajudar a vendê-los?
Cooper
Não acho que exista uma contradição. Digo sempre
e insisto que a chave do sucesso é a moderação. Um
refrigerante com 150 calorias não precisa ser eliminado, e sim
consumido moderadamente. O problema não está no consumo
de alimentos e bebidas, mas na natureza sedentária das pessoas.
Quero que elas provem esses produtos e encontrem neles uma mensagem, um
estímulo para mudar seu estilo de vida.
Veja Alguns especialistas defendem o mesmo rigor no combate
às comidas gordurosas e ao tabaco. O senhor acha razoável
comparar hambúrguer a cigarro?
Cooper
Cerca de 440 000 pessoas morrem por ano devido aos efeitos nocivos do
fumo só nos Estados Unidos. O cálculo é de que no
futuro os efeitos da obesidade, como a hipertensão, os ataques
cardíacos e o diabetes, vão matar mais do que o cigarro.
O problema da obesidade também é muito grave, mas acho ridícula
a comparação. São problemas distintos, a começar
pelo fato de que o tabaco vicia, enquanto o fast food apenas faz parte
de um estilo de vida. Insisto que o importante, no caso da obesidade,
é perceber que há um erro na forma como alguns especialistas
e legisladores tratam essa questão. Não é só
a obesidade que mata, mas sim sua combinação com a vida
sedentária. Por isso afirmo que devemos fazer campanhas que estimulem
uma vida saudável, e não concentrar os esforços em
leis, em proibições.
Veja O senhor escreveu dezoito livros que tratam exatamente
de estimular essa combinação de condicionamento físico
e alimentação saudável. O que o senhor tem recomendado
às pessoas?
Cooper
Eu me dedico a prevenir doenças. Viajo pelo mundo fazendo palestras
e promovendo livros que mostram como as pessoas podem cuidar da saúde
para viver mais. Em segundo lugar, aqui no meu centro de treinamento,
cuido do diagnóstico de doenças em sua fase inicial. Queremos
prolongar e melhorar a qualidade de vida das pessoas, com programas de
atividade física. No decorrer dos anos, venho insistindo, e acho
que já consegui demonstrar, que é mais barato e eficiente
manter a boa saúde do que recuperá-la depois de perdida.
Há 35 anos, quando comecei a falar nesse assunto, houve muitos
questionamentos por parte de meus colegas. Agora, os resultados são
muito expressivos para ser ignorados. Já existe consenso sobre
a importância dos exercícios físicos para a manutenção
da saúde e a prevenção de doenças.
Veja No Brasil, seu método de condicionamento físico
ficou tão popular na década de 70 que até hoje muitas
pessoas chamam de "fazer cooper" o ato de correr como forma de condicionamento
físico. O senhor faz cooper?
Cooper
Eu me exercito quatro ou cinco vezes por semana, regularmente, desde 1960.
Desde então, não parei mais. Fiz os cálculos e concluí
que já corri aproximadamente 48 000 quilômetros ao longo
da vida. Em junho, estarei completando meu 43º ano de exercício
regular. Isso me fez chegar aos 71 anos com uma saúde fabulosa.
Desde que comecei a me exercitar rotineiramente, não perdi um único
dia de trabalho. No início, emagreci 13 quilos e nunca mais voltei
a engordar.
Veja
Além de correr, o senhor pratica algum outro exercício?
Cooper Quando
fiz 55 anos, comecei a treinar com pesos também. Foi para atender
a uma necessidade específica: adoro esquiar. Eu conseguia correr
5 quilômetros sem problemas, mas ficava com os músculos queimando
de dor quando esquiava por algumas horas. Passei então a treinar
com pesos para fortalecer a parte frontal das pernas. Em meu aniversário,
no ano passado, esquiei por seis horas seguidas sem nenhum problema. Para
ter bom condicionamento, todas as pessoas devem buscar um complemento.
Isso varia conforme a idade. As pessoas na faixa dos 30 anos devem ter
uma rotina dividida em 80% de exercícios aeróbicos e 20%
de condicionamento de músculos. Aos 40, a proporção
deve ser de 70% de corrida e 30% de musculação. O ideal
é fazer um programa pessoal de treinamento de forma que se aumente,
com o passar dos anos, o tempo destinado ao condicionamento muscular e
se diminua a carga de exercícios aeróbicos. Aos 60 anos,
essa relação deve ser de 55% de exercícios aeróbicos
e 45% de musculação, segundo as pesquisas que realizamos.
Veja
Qual é a rotina de exercícios ideal para um idoso?
Cooper
O que temos proposto em nosso centro de treinamento é diminuir
a intensidade do exercício, trocando as corridas por caminhadas.
O fundamental é que o idoso faça meia hora de exercícios
por dia, quantas vezes por semana puder. Claro que isso pode parecer muito
para uma pessoa que não esteja acostumada a se exercitar. O segredo
é não ficar restrito a sessões contínuas de
trinta minutos. O que importa é que, ao final de um dia, ele tenha
feito trinta minutos de atividade física, que pode ser subir e
descer escadas, ir ao mercado ou à praia. Se conseguir isso, já
terá um preparo físico adequado.
Veja
E as crianças? Qual é a idade certa para começar
a praticar esportes, a cuidar do condicionamento físico?
Cooper Aos
5 anos, a criança já pode começar a aprender técnicas
como chutar uma bola, atividades que vão desenvolvendo seu equilíbrio
e sua capacidade motora. Mas ainda é cedo para um esforço
físico. Com o tempo vai chegando a hora dos exercícios aeróbicos.
Mas nada de exageros. É um erro tentar correr mais que 5 quilômetros
na pré-puberdade.
Veja No início dos anos 70, o senhor recomendava um
programa de exercícios muito intenso. O que mudou ao longo do tempo?
Cooper
As corridas de doze minutos, que se dão em ritmo muito forte, ainda
são recomendadas para atletas. No mundo do futebol, por exemplo,
são bastante usadas para a avaliação do condicionamento
físico. Mas as pessoas comuns devem estar atentas aos sinais de
alerta que o corpo emite, para não se machucar. É melhor
não ir além do limite, porque isso pode prejudicar as articulações.
Em 1989 concluímos estudos que mostram que os benefícios
obtidos com uma caminhada em ritmo acelerado são quase idênticos
aos que se consegue com uma corrida. Se você caminhar 3,2 quilômetros
em trinta minutos, três vezes por semana, irá reduzir o risco
de ataques cardíacos, derrames e câncer em 58%. Só
isso já é suficiente para aumentar sua expectativa de vida
em seis anos. Os ganhos com corridas são pouco maiores. Por isso,
se você não é um atleta, não vale a pena arriscar.
Veja Alguns especialistas criticam a criação
de modalidades que unem danças e lutas à ginástica.
Dizem que só servem para atrair mais alunos às academias
e que podem ser prejudiciais. O que o senhor acha disso?
Cooper
Exercícios são, por natureza, perigosos. Por isso devem
ser feitos em academias, sob a supervisão de profissionais. Mas
acho muito bom que se criem programas que despertem o interesse das pessoas,
desde que tragam benefícios. Fazemos isso em meu centro de treinamento.
Oferecemos kickboxing, pilates, spinning, aeróbica de alto e baixo
impacto, além dos esportes tradicionais. É bom proporcionar
alternativas às pessoas, senão elas acabam se entediando.
Não podemos esquecer que uma das funções da atividade
física é combater o stress.
Veja É possível acabar com o stress praticando
atividades físicas?
Cooper
Primeiro é preciso fazer uma correção. É um
erro querer acabar com o stress. Não é o stress que mata,
e sim a forma como se lida com ele. Um famoso especialista canadense tem
uma frase de que gosto muito: "O stress é o tempero da vida moderna".
O que seria da vida se não houvesse correrias? Minha opinião
é que, se você é capaz de controlar seu stress, certamente
será bem-sucedido na vida. Se não consegue controlá-lo,
ele vai matá-lo. No decorrer dos últimos 43 anos, tenho
mantido esse controle fazendo exercícios físicos. Em vez
de me exercitar pela manhã, que é tido como o período
mais conveniente para a atividade física, prefiro o fim do dia.
O exercício antes do jantar controla meu stress e diminui meu apetite,
o que me ajuda a manter um nível de calorias baixo na refeição.
Com isso, controlo também meu peso, que nos últimos quarenta
anos tem sido de 79 quilos.
Veja Uma atividade física regular pode ter efeitos
também sobre o humor das pessoas?
Cooper
A experiência clínica diz que sim. Fazemos testes psicológicos
em todos os pacientes e comparamos com a capacidade física que
eles apresentam no momento. As pessoas que estão em forma são
menos deprimidas, menos hipocondríacas, demonstram maior auto-estima
e reclamam menos da vida. Portanto, são mais felizes. Sempre que
pergunto às pessoas por que praticam exercícios, elas dizem
que isso aumenta a qualidade de vida, faz com que se sintam melhor, mais
felizes. É uma relação de causa e efeito que cria
um moto contínuo. Quando você se exercita, libera endorfinas,
e isso provoca um bem-estar semelhante ao de uma dose de morfina fabricada
pelo próprio organismo. Além de produzir bem-estar, faz
sumir a dor. Há o caso de um homem que, após correr 15 quilômetros,
correu outros 24 quilômetros com a perna quebrada e nem notou. Os
níveis de endorfina estavam tão altos que ele nem percebeu
até terminar a corrida. Os exercícios animam e fazem a pessoa
se sentir mais feliz. E, quanto melhor você se sente, mais disposto
a praticar exercícios estará. O desafio para as pessoas
é entrar nesse circuito.
Veja O que o senhor recomenda para as pessoas cuja rotina
não comporta exercícios físicos?
Cooper
É simples. Se não conseguem encontrar tempo para uma atividade
física, então encontrem tempo para ficar doentes.
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