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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
Entrevista: Kenneth Cooper

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Não basta
ser magro

O criador do teste de Cooper diz
que campanhas contra a obesidade
erram ao criar proibições sem
estimular uma vida mais saudável

Ronaldo França

 

"Se as pessoas não conseguem encontrar tempo para fazer alguma atividade física, que achem tempo para ficar doentes"

Criador do teste de Cooper, o médico americano Kenneth Cooper vive em meio a uma maratona. Nos últimos 35 anos, ele tem se dedicado a convencer as pessoas dos benefícios de praticar esportes e levar uma vida mais saudável. "É mais barato e eficiente manter a boa saúde do que recuperá-la depois de perdida", diz. Seu esforço não foi em vão. Os conceitos do médico são utilizados em mais de 100 países. No Brasil, seu método de condicionamento físico virou nome de prática esportiva. Pessoalmente, o esforço também lhe tem feito bem. Aos 71 anos, segue uma rotina que inclui corridas de trinta minutos, de quatro a cinco vezes por semana, complementadas por exercícios de musculação. É assim que consegue o preparo físico para viajar pelo mundo fazendo palestras, escrever livros – publicou dezoito, em mais de cinqüenta países – e dirigir um centro de medicina preventiva, na cidade de Dallas, no Texas, freqüentado semanalmente por mais de 3 500 pessoas. Foi de lá que concedeu a VEJA a seguinte entrevista, sobre o combate à obesidade e os cuidados que se deve ter para uma melhor qualidade de vida.

Veja – Apesar da consciência cada vez maior dos males provocados pela obesidade, o número de pessoas acima do peso não pára de crescer. Por que não se consegue simplesmente levar uma vida mais saudável?
Cooper – Esse é um problema intrigante. Há hoje, no mundo, 1 bilhão de pessoas obesas, e a tendência é esse número aumentar. Acho que existe uma razão cultural para isso. Historicamente, a obesidade é ligada à riqueza, à boa renda, ao sucesso financeiro. Diz-se que alguém deve estar bem de vida quando está acima do peso. Isso acaba se incorporando na cultura e provoca um efeito exemplar muito forte e nocivo. Essa imagem precisa mudar. As pessoas têm de entender que estará melhor de vida quem estiver em forma. Fiquei muito satisfeito ao saber que o Rei Momo, no Rio de Janeiro, não precisará mais ser obeso, poderá usar enchimento. Não é um bom exemplo uma pessoa ter de ser gorda para se tornar rei. Mesmo que seja rei do Carnaval.

Veja – No Brasil, começa a surgir a discussão sobre a proibição da venda de doces, balas e hambúrgueres nas escolas públicas. Qual sua opinião sobre essa medida?
Cooper – Também nos Estados Unidos se discute isso. Muitas escolas estão sendo obrigadas a retirar as máquinas de venda de guloseimas. Acho que não adianta. O efeito imediato é que surgem vendedores do lado de fora dos portões, e as crianças vão lá comprar o que querem. Elas sempre vão em busca do que gostam, mesmo quando sabem que aquilo não faz bem. É melhor tentar mudar os hábitos alimentares, oferecendo produtos de baixa caloria. A experiência mostra que é possível fazer com que as crianças se interessem por alimentos mais saudáveis na escola ou em casa. E isso se faz educando, deixando claro que essa é a melhor maneira de ter uma vida melhor.

Veja – O senhor acha que é possível reduzir o problema da obesidade com ações governamentais, tais como criação de leis e proibições?
Cooper – Sou a favor da intervenção governamental, mas é preciso saber como fazer isso. Nos Estados Unidos, fala-se em processos judiciais coletivos contra as redes de fast food ou na criação de um imposto que incidiria sobre os alimentos gordurosos, por exemplo. Penso que isso não funciona muito bem. Não adianta o governo criar impostos ou exigir avisos nas embalagens que alertem para o risco do consumo de produtos. A chave é enfatizar o que fazer, mostrar de forma eficiente os benefícios que se pode ter. Isso traz resultado melhor do que criar proibições. A questão não se resume a obrigar as pessoas a comer menos, a emagrecer. Elas precisam se exercitar mais. Temos estudos que mostram que é melhor estar acima do peso e praticar alguma atividade física do que ser magro e levar uma vida sedentária. O que se deve fazer é estimular as pessoas a sair de casa, caminhar, exercitar-se. Ao mesmo tempo, é necessário demonstrar as vantagens de se alimentar de forma mais saudável. Eu, por exemplo, quando vou a um restaurante fast food, procuro comer salada. Se não tiver escolha, opto por um hambúrguer, sem drama de consciência. Mas sempre vou até o balcão de saladas primeiro.

Veja – Em breve a Pepsi estará lançando, nos Estados Unidos, uma linha de salgadinhos sem gordura nem sal que terá na embalagem mensagens suas ligadas à saúde e à boa forma. Mesmo sendo produtos light, são em alguma medida calóricos. Não é contraditório o senhor ajudar a vendê-los?
Cooper – Não acho que exista uma contradição. Digo sempre e insisto que a chave do sucesso é a moderação. Um refrigerante com 150 calorias não precisa ser eliminado, e sim consumido moderadamente. O problema não está no consumo de alimentos e bebidas, mas na natureza sedentária das pessoas. Quero que elas provem esses produtos e encontrem neles uma mensagem, um estímulo para mudar seu estilo de vida.

Veja – Alguns especialistas defendem o mesmo rigor no combate às comidas gordurosas e ao tabaco. O senhor acha razoável comparar hambúrguer a cigarro?
Cooper – Cerca de 440 000 pessoas morrem por ano devido aos efeitos nocivos do fumo só nos Estados Unidos. O cálculo é de que no futuro os efeitos da obesidade, como a hipertensão, os ataques cardíacos e o diabetes, vão matar mais do que o cigarro. O problema da obesidade também é muito grave, mas acho ridícula a comparação. São problemas distintos, a começar pelo fato de que o tabaco vicia, enquanto o fast food apenas faz parte de um estilo de vida. Insisto que o importante, no caso da obesidade, é perceber que há um erro na forma como alguns especialistas e legisladores tratam essa questão. Não é só a obesidade que mata, mas sim sua combinação com a vida sedentária. Por isso afirmo que devemos fazer campanhas que estimulem uma vida saudável, e não concentrar os esforços em leis, em proibições.

Veja – O senhor escreveu dezoito livros que tratam exatamente de estimular essa combinação de condicionamento físico e alimentação saudável. O que o senhor tem recomendado às pessoas?
Cooper – Eu me dedico a prevenir doenças. Viajo pelo mundo fazendo palestras e promovendo livros que mostram como as pessoas podem cuidar da saúde para viver mais. Em segundo lugar, aqui no meu centro de treinamento, cuido do diagnóstico de doenças em sua fase inicial. Queremos prolongar e melhorar a qualidade de vida das pessoas, com programas de atividade física. No decorrer dos anos, venho insistindo, e acho que já consegui demonstrar, que é mais barato e eficiente manter a boa saúde do que recuperá-la depois de perdida. Há 35 anos, quando comecei a falar nesse assunto, houve muitos questionamentos por parte de meus colegas. Agora, os resultados são muito expressivos para ser ignorados. Já existe consenso sobre a importância dos exercícios físicos para a manutenção da saúde e a prevenção de doenças.

Veja – No Brasil, seu método de condicionamento físico ficou tão popular na década de 70 que até hoje muitas pessoas chamam de "fazer cooper" o ato de correr como forma de condicionamento físico. O senhor faz cooper?
Cooper – Eu me exercito quatro ou cinco vezes por semana, regularmente, desde 1960. Desde então, não parei mais. Fiz os cálculos e concluí que já corri aproximadamente 48 000 quilômetros ao longo da vida. Em junho, estarei completando meu 43º ano de exercício regular. Isso me fez chegar aos 71 anos com uma saúde fabulosa. Desde que comecei a me exercitar rotineiramente, não perdi um único dia de trabalho. No início, emagreci 13 quilos e nunca mais voltei a engordar.

Veja – Além de correr, o senhor pratica algum outro exercício?
Cooper – Quando fiz 55 anos, comecei a treinar com pesos também. Foi para atender a uma necessidade específica: adoro esquiar. Eu conseguia correr 5 quilômetros sem problemas, mas ficava com os músculos queimando de dor quando esquiava por algumas horas. Passei então a treinar com pesos para fortalecer a parte frontal das pernas. Em meu aniversário, no ano passado, esquiei por seis horas seguidas sem nenhum problema. Para ter bom condicionamento, todas as pessoas devem buscar um complemento. Isso varia conforme a idade. As pessoas na faixa dos 30 anos devem ter uma rotina dividida em 80% de exercícios aeróbicos e 20% de condicionamento de músculos. Aos 40, a proporção deve ser de 70% de corrida e 30% de musculação. O ideal é fazer um programa pessoal de treinamento de forma que se aumente, com o passar dos anos, o tempo destinado ao condicionamento muscular e se diminua a carga de exercícios aeróbicos. Aos 60 anos, essa relação deve ser de 55% de exercícios aeróbicos e 45% de musculação, segundo as pesquisas que realizamos.

Veja – Qual é a rotina de exercícios ideal para um idoso?
Cooper – O que temos proposto em nosso centro de treinamento é diminuir a intensidade do exercício, trocando as corridas por caminhadas. O fundamental é que o idoso faça meia hora de exercícios por dia, quantas vezes por semana puder. Claro que isso pode parecer muito para uma pessoa que não esteja acostumada a se exercitar. O segredo é não ficar restrito a sessões contínuas de trinta minutos. O que importa é que, ao final de um dia, ele tenha feito trinta minutos de atividade física, que pode ser subir e descer escadas, ir ao mercado ou à praia. Se conseguir isso, já terá um preparo físico adequado.

Veja – E as crianças? Qual é a idade certa para começar a praticar esportes, a cuidar do condicionamento físico?
Cooper – Aos 5 anos, a criança já pode começar a aprender técnicas como chutar uma bola, atividades que vão desenvolvendo seu equilíbrio e sua capacidade motora. Mas ainda é cedo para um esforço físico. Com o tempo vai chegando a hora dos exercícios aeróbicos. Mas nada de exageros. É um erro tentar correr mais que 5 quilômetros na pré-puberdade.

Veja – No início dos anos 70, o senhor recomendava um programa de exercícios muito intenso. O que mudou ao longo do tempo?
Cooper – As corridas de doze minutos, que se dão em ritmo muito forte, ainda são recomendadas para atletas. No mundo do futebol, por exemplo, são bastante usadas para a avaliação do condicionamento físico. Mas as pessoas comuns devem estar atentas aos sinais de alerta que o corpo emite, para não se machucar. É melhor não ir além do limite, porque isso pode prejudicar as articulações. Em 1989 concluímos estudos que mostram que os benefícios obtidos com uma caminhada em ritmo acelerado são quase idênticos aos que se consegue com uma corrida. Se você caminhar 3,2 quilômetros em trinta minutos, três vezes por semana, irá reduzir o risco de ataques cardíacos, derrames e câncer em 58%. Só isso já é suficiente para aumentar sua expectativa de vida em seis anos. Os ganhos com corridas são pouco maiores. Por isso, se você não é um atleta, não vale a pena arriscar.

Veja – Alguns especialistas criticam a criação de modalidades que unem danças e lutas à ginástica. Dizem que só servem para atrair mais alunos às academias e que podem ser prejudiciais. O que o senhor acha disso?
Cooper – Exercícios são, por natureza, perigosos. Por isso devem ser feitos em academias, sob a supervisão de profissionais. Mas acho muito bom que se criem programas que despertem o interesse das pessoas, desde que tragam benefícios. Fazemos isso em meu centro de treinamento. Oferecemos kickboxing, pilates, spinning, aeróbica de alto e baixo impacto, além dos esportes tradicionais. É bom proporcionar alternativas às pessoas, senão elas acabam se entediando. Não podemos esquecer que uma das funções da atividade física é combater o stress.

Veja – É possível acabar com o stress praticando atividades físicas?
Cooper – Primeiro é preciso fazer uma correção. É um erro querer acabar com o stress. Não é o stress que mata, e sim a forma como se lida com ele. Um famoso especialista canadense tem uma frase de que gosto muito: "O stress é o tempero da vida moderna". O que seria da vida se não houvesse correrias? Minha opinião é que, se você é capaz de controlar seu stress, certamente será bem-sucedido na vida. Se não consegue controlá-lo, ele vai matá-lo. No decorrer dos últimos 43 anos, tenho mantido esse controle fazendo exercícios físicos. Em vez de me exercitar pela manhã, que é tido como o período mais conveniente para a atividade física, prefiro o fim do dia. O exercício antes do jantar controla meu stress e diminui meu apetite, o que me ajuda a manter um nível de calorias baixo na refeição. Com isso, controlo também meu peso, que nos últimos quarenta anos tem sido de 79 quilos.

Veja – Uma atividade física regular pode ter efeitos também sobre o humor das pessoas?
Cooper – A experiência clínica diz que sim. Fazemos testes psicológicos em todos os pacientes e comparamos com a capacidade física que eles apresentam no momento. As pessoas que estão em forma são menos deprimidas, menos hipocondríacas, demonstram maior auto-estima e reclamam menos da vida. Portanto, são mais felizes. Sempre que pergunto às pessoas por que praticam exercícios, elas dizem que isso aumenta a qualidade de vida, faz com que se sintam melhor, mais felizes. É uma relação de causa e efeito que cria um moto contínuo. Quando você se exercita, libera endorfinas, e isso provoca um bem-estar semelhante ao de uma dose de morfina fabricada pelo próprio organismo. Além de produzir bem-estar, faz sumir a dor. Há o caso de um homem que, após correr 15 quilômetros, correu outros 24 quilômetros com a perna quebrada e nem notou. Os níveis de endorfina estavam tão altos que ele nem percebeu até terminar a corrida. Os exercícios animam e fazem a pessoa se sentir mais feliz. E, quanto melhor você se sente, mais disposto a praticar exercícios estará. O desafio para as pessoas é entrar nesse circuito.

Veja – O que o senhor recomenda para as pessoas cuja rotina não comporta exercícios físicos?
Cooper – É simples. Se não conseguem encontrar tempo para uma atividade física, então encontrem tempo para ficar doentes.

 
 
   
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