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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Gustavo Franco

Metas de inflação

"Se o câmbio fica solto, e flutua
como flutua, o governo arrisca sua
credibilidade ao fixar metas para
coisas que
controla apenas em parte"


Ilustração Ale Setti


Durante os primeiros anos do Plano Real, a equipe econômica repetiu exaustivamente que a condição essencial para o sucesso da estabilização era o ajuste fiscal, sendo este sua maior prioridade. Paradoxalmente, quem observar os números de 1995 até 1998 verificará que o governo fracassou em equilibrar suas contas, mas mesmo assim sua credibilidade não foi abalada (até 1998, pelo menos) e a inflação não voltou.

Na verdade, revelou-se mais importante que as pessoas acreditassem que o ajuste fiscal ia ser feito do que o resultado propriamente dito. A credibilidade é a alma da política econômica. Todos viam que a equipe econômica genuinamente acreditava em disciplina fiscal, e que lutava por isso com todas as suas forças. E assim o público observava os déficits desses anos como um desvio temporário que o governo acabaria por corrigir. Credibilidade vem de convicção, sinceridade, transparência e capacidade de fazer, e pelo menos até o fracasso do "Pacote 51", observado com clareza em 1998, as pessoas enxergavam essas virtudes na política econômica do governo FHC.

Lembro-me de que, em algum momento no começo dessa trajetória, alguém sugeriu que fixássemos metas fiscais, assim estabelecendo compromissos para o governo, que ficaria impelido a tomar as medidas necessárias para cumprir as metas, elevando assim sua credibilidade. Nessa ocasião foi decisiva a intervenção de um velho burocrata, veterano de vários pacotões, que argumentou nos seguintes termos: "Melhor não fazer metas sobre o que vocês não conseguem controlar". Como nós, ele sabia que não tínhamos controle absoluto sobre o resultado fiscal. "Vocês não vão cumprir a meta", sentenciou, "e vão gastar sua credibilidade toda de uma vez no primeiro fracasso. Melhor gastar devagarinho, para durar mais, e ganhar tempo para cumprir o que vocês estão prometendo."

O bom conselho foi acolhido sem reservas.

Continuamos a proclamar nossas nobres intenções e a lutar com a energia de sempre. E dessa forma, sem metas, a crença de que o ajuste viria durou vários anos, quando poderia ter sido liquidada em seis meses.

Pois bem, uma vez tomada a decisão de adotar metas de inflação, a primeira coisa a observar é que metas muito fáceis não agregam coisa alguma em matéria de credibilidade. A meta tem de doer um pouco, não demais, senão ninguém acredita. Em 1999, a escolha da meta para o IPCA foi ousada, e encarada até mesmo como irreal. Mas Deus ajudou, o ajuste fiscal também, e a flutuação cambial não trouxe de volta a hiperinflação. A meta foi cumprida, e o BC ganhou muita credibilidade.

Era uma situação singular; a economia estava mais desindexada do que qualquer um poderia imaginar. Passado o episódio, a fixação de metas ficou bem mais difícil. Desde então já foram duas as "cartas abertas" escritas pelo BC para justificar a perda da meta. Uma terceira poderá trazer para a prática das metas de inflação a maldição daquelas "cartas de intenção" que o ministro Delfim assinava para não cumprir e enganar o FMI.

Hoje, diferentemente, quem se sente enganado é o distinto público. Uma meta não cumprida provoca nas pessoas o sentimento de quem está sendo vítima de um blefe. Metas de inflação orientam expectativas, negócios, contratos. Ninguém quer cometer erros desnecessários por acreditar numa promessa do governo. E, por isso mesmo, se o governo não toma sérias providências para cumprir seus compromissos, é porque não lhes dá importância e assim a credibilidade fica condenada a ir para o vinagre.

A sabedoria do velho burocrata continua muito válida, especialmente para o caso de um país com metas para a inflação e taxas de câmbio flutuantes, ou, melhor dizendo, tresloucadamente flutuantes. É claro que, se o câmbio fica solto, e flutua como flutua, o controle sobre a inflação fica reduzido, e assim ficamos na situação em que o governo arrisca sua credibilidade ao fixar metas para coisas que controla apenas em parte.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)



 
 
   
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