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Tales
Alvarenga Sandálias da humildade
"Não
é hora de Lula e
Dirceu ficarem comemorando vitórias que
só existem em sua imaginação" O
presidente Lula deveria calçar as sandálias da humildade. Imagina
que pode reger o desenvolvimento do país como Moisés abriu o mar
em duas metades. Disse que 2005 será um ano com "mar de almirante e céu
de brigadeiro". José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, é pior.
Acredita que o crescimento brasileiro depende do número de horas que ele
trabalha por dia. "Vou trabalhar dia e noite de uma maneira persistente para que
o crescimento (de 2005) seja pelo menos 1% a mais do que a previsão do
Ipea (de 3,8%)", disse o ministro. Dirceu não tem comando algum sobre a
máquina econômica da nação. Ele pode trabalhar 24 horas
por dia que a economia brasileira ficará exatamente no mesmo lugar. Para
Dirceu, sandálias não bastam. No caso dele, de extrema presunção,
só mesmo pés descalços, como os das carmelitas, fariam efeito
sobre sua vaidade. No governo, se há um
ministro que fez diferença na taxa de crescimento do Brasil em 2004 é
o da Fazenda, Antonio Palocci. A economia não teria crescido se o ministro
Palocci não tivesse adotado desde a posse uma linha de conduta que inspira
confiança nos investidores e cria um ambiente de estabilidade no país.
Mesmo assim, é preciso entender as limitações de Palocci.
O ministro pode impedir o crescimento se sair da linha, mas não consegue
produzi-lo só com o arsenal de que dispõe. Enxugamento dos gastos,
juros estratosféricos, impostos elevados nada disso fabrica o desenvolvimento.
O Brasil chegou ao fim do ano com uma taxa anual de expansão econômica
acima de 5%, graças a um conjunto de fatores que pouco têm a ver
com o governo do PT. Os principais são estes: preços agrícolas
favoráveis no mercado internacional e a ampliação das exportações
brasileiras, em decorrência de um crescimento inédito nos outros
países. O empurrão externo reativou a economia interna.
A festa vai ficar menos animada em 2005. Os preços dos produtos agrícolas
estão desabando. O crescimento da economia mundial deverá se desacelerar.
De acordo com estudo da Economist Intelligence Unit (EIU), ligada à revista
inglesa The Economist, a taxa global de expansão cairá de
4,2% no ano passado para 3,2% neste ano. A situação ficará
pior com eventual aumento do preço do petróleo, elevação
das taxas básicas de juros e uma desaceleração maior da economia
chinesa. Segundo a EIU, a taxa de expansão do Brasil cairá de mais
de 5% ao ano para 3,7%. Nos próximos anos, o Brasil continuará mantendo
um desempenho que irá se aproximando gradativamente dos 3% anuais até
2007, conforme previsão do Deutsche Bank Research. É uma taxa medíocre
para um emergente com as desigualdades que se observam entre nós.
Palocci sabiamente está calado. Lula e José Dirceu deveriam seguir-lhe
o exemplo. Em dois anos de governo, o PT conseguiu sucesso na economia, copiando
ajuizadamente a política inaugurada por FHC. Na área social, nem
sequer copiar o PT conseguiu. As reformas estruturais para melhorar a gestão
da máquina pública e a eficiência dos serviços foram
largadas pelo meio do caminho. Estradas, portos e ferrovias estão caindo
aos pedaços. O investimento, mola do crescimento, continua abaixo do necessário.
Conclusão: não é hora de Lula e Dirceu ficarem comemorando
vitórias que só existem em sua imaginação. Um pouco
de humildade não lhes faria mal neste momento. |