Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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Tales Alvarenga
Sandálias da humildade

"Não é hora de Lula e Dirceu ficarem
comemorando vitórias que só existem
em sua imaginação"

O presidente Lula deveria calçar as sandálias da humildade. Imagina que pode reger o desenvolvimento do país como Moisés abriu o mar em duas metades. Disse que 2005 será um ano com "mar de almirante e céu de brigadeiro". José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, é pior. Acredita que o crescimento brasileiro depende do número de horas que ele trabalha por dia. "Vou trabalhar dia e noite de uma maneira persistente para que o crescimento (de 2005) seja pelo menos 1% a mais do que a previsão do Ipea (de 3,8%)", disse o ministro. Dirceu não tem comando algum sobre a máquina econômica da nação. Ele pode trabalhar 24 horas por dia que a economia brasileira ficará exatamente no mesmo lugar. Para Dirceu, sandálias não bastam. No caso dele, de extrema presunção, só mesmo pés descalços, como os das carmelitas, fariam efeito sobre sua vaidade.

No governo, se há um ministro que fez diferença na taxa de crescimento do Brasil em 2004 é o da Fazenda, Antonio Palocci. A economia não teria crescido se o ministro Palocci não tivesse adotado desde a posse uma linha de conduta que inspira confiança nos investidores e cria um ambiente de estabilidade no país. Mesmo assim, é preciso entender as limitações de Palocci. O ministro pode impedir o crescimento se sair da linha, mas não consegue produzi-lo só com o arsenal de que dispõe. Enxugamento dos gastos, juros estratosféricos, impostos elevados – nada disso fabrica o desenvolvimento. O Brasil chegou ao fim do ano com uma taxa anual de expansão econômica acima de 5%, graças a um conjunto de fatores que pouco têm a ver com o governo do PT. Os principais são estes: preços agrícolas favoráveis no mercado internacional e a ampliação das exportações brasileiras, em decorrência de um crescimento inédito nos outros países. O empurrão externo reativou a economia interna.

A festa vai ficar menos animada em 2005. Os preços dos produtos agrícolas estão desabando. O crescimento da economia mundial deverá se desacelerar. De acordo com estudo da Economist Intelligence Unit (EIU), ligada à revista inglesa The Economist, a taxa global de expansão cairá de 4,2% no ano passado para 3,2% neste ano. A situação ficará pior com eventual aumento do preço do petróleo, elevação das taxas básicas de juros e uma desaceleração maior da economia chinesa. Segundo a EIU, a taxa de expansão do Brasil cairá de mais de 5% ao ano para 3,7%. Nos próximos anos, o Brasil continuará mantendo um desempenho que irá se aproximando gradativamente dos 3% anuais até 2007, conforme previsão do Deutsche Bank Research. É uma taxa medíocre para um emergente com as desigualdades que se observam entre nós.

Palocci sabiamente está calado. Lula e José Dirceu deveriam seguir-lhe o exemplo. Em dois anos de governo, o PT conseguiu sucesso na economia, copiando ajuizadamente a política inaugurada por FHC. Na área social, nem sequer copiar o PT conseguiu. As reformas estruturais para melhorar a gestão da máquina pública e a eficiência dos serviços foram largadas pelo meio do caminho. Estradas, portos e ferrovias estão caindo aos pedaços. O investimento, mola do crescimento, continua abaixo do necessário. Conclusão: não é hora de Lula e Dirceu ficarem comemorando vitórias que só existem em sua imaginação. Um pouco de humildade não lhes faria mal neste momento.

 
 
 
 
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