Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
Roberto Civita
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Política Internacional: Samantha Power
Para escapar do inferno

NÃO menosprezar a ONU é a lição
que os países precisam aprender

A QUESTÃO
DELIBERADAMENTE ENFRAQUECIDA PELOS GOVERNOS DOS ESTADOS-MEMBROS, A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS NUNCA SE MOSTROU TÃO DESACREDITADA E MAL EQUIPADA PARA CUMPRIR SUAS TAREFAS. O PAPEL DA INSTITUIÇÃO É CADA VEZ MAIS CENTRAL.

O PERIGO
EM 2005, A ONU VAI ENFRENTAR SEUS DOIS MAIORES DESAFIOS DAS ÚLTIMAS DÉCADAS: A RECONSTRUÇÃO DO IRAQUE E O SOCORRO AOS DESABRIGADOS DO MAREMOTO NA ÁSIA. SE UM PLANO DE REFORMA INSTITUCIONAL NÃO FOR POSTO EM ANDAMENTO, ELA PODE DESMORONAR SOB A PRESSÃO.

Para as Nações Unidas, a relevância pode ser quase tão perigosa quanto a irrelevância. No intervalo de um ano, a atitude do governo Bush perante o organismo mundial oscilou da vituperação às súplicas por ajuda. Em 2005, uma equipe reforçada da ONU deverá permanecer em Bagdá para aconselhar o governo iraquiano nas áreas de reconstrução, serviços sociais e direitos humanos, e também lhe prestar auxílio direto por ocasião das eleições. Ao mesmo tempo, missões da ONU para a manutenção da paz estão sendo criadas ou ampliadas no Burundi, na República Democrática do Congo, no Haiti e na Costa do Marfim. Na verdade, é provável que o número de capacetes azuis mobilizados neste ano seja o maior em toda a história da instituição.

Embora alguns defensores da ONU comemorem a crescente dependência global em relação ao organismo, agora é a hora menos indicada para tal tipo de presunção. Essas graves responsabilidades estão se acumulando nos ombros de uma organização que foi deliberadamente enfraquecida pelos governos nacionais. A sexagenária estrutura da ONU nunca se mostrou tão mal equipada para suas tarefas, e sua credibilidade está no fundo do poço. Enquanto combatem o terrorismo e privilegiam a segurança interna, as grandes potências transferem à ONU tarefas essenciais mas ingratas, que antes elas próprias poderiam ter enfrentado (ou ignorado). Se não ocorrerem mudanças significativas, é bem provável que as Nações Unidas desmoronem em meio a pressões cada vez maiores.

A idéia de que a ONU pode seguir aos trancos e barrancos em seu atual estado atrofiado é bastante atraente em várias capitais do mundo - e até mesmo em alguns gabinetes na própria sede da organização. Essa situação é muito perigosa.

Lamentavelmente, a maioria daqueles que poderiam mudar a ONU tem interesse em boicotar as reformas. Nenhum dos membros permanentes do Conselho de Segurança está disposto a abdicar de seu poder de veto. Os países pequenos deleitam-se com seus votos na Assembléia Geral, onde eles valem tanto quanto os das grandes potências. Regimes repressivos empenham-se em participar das comissões de direitos humanos da ONU, onde podem torpedear resoluções embaraçosas. E as potências ocidentais, cujas tropas e recursos são cruciais para reforçar as missões de manutenção da paz, têm outras prioridades.

Na própria burocracia da ONU, são muitos os veteranos que relutam em admitir reformas mais amplas - eles levaram décadas para dominar os atuais procedimentos e qualquer mudança é arriscada para eles. E, embora os funcionários da ONU, incluindo o secretário-geral, insistam (com razão) em responsabilizar os Estados-membros pelas restrições a que estão submetidos, eles raramente reúnem coragem para denunciar aqueles países cujos abusos, obstinação e avareza debilitam os próprios princípios que levaram à criação da Carta da ONU.

Muitas críticas à ONU são, evidentemente, injustas. Sob muitos aspectos, as Nações Unidas são apenas um edifício. O organismo é um fórum onde os Estados podem se enfrentar ou negociar com base no que exigem seus interesses nacionais. No âmbito operacional, a organização realiza inúmeras tarefas indispensáveis - alimentando, abrigando e imunizando milhões de pessoas, e até mesmo desarmando um ou outro ditador. Hoje, porém, a reputação da ONU sobe e desce em função do desempenho e da aparente legitimidade de três de seus componentes mais em evidência - o Conselho de Segurança, a Comissão de Direitos Humanos e as missões de paz. Cada um desses componentes necessita com urgência de reforma ou resgate.

Os assentos permanentes no Conselho de Segurança - concedidos aos países vitoriosos na II Guerra (e também à França) - são deploravelmente anacrônicos. Não é nada razoável que a Grã-Bretanha e a França reivindiquem dois quintos da autoridade jurídica do mundo. Os cinco membros permanentes antes representavam cerca de 40% da população mundial; hoje respondem por 29%. A maior democracia do planeta (a Índia) não faz parte do Conselho, tampouco potências regionais como o Brasil e a Nigéria, para não falar de todo o mundo islâmico. São os membros permanentes que decidem quando alguma atrocidade requer uma intervenção humanitária, mas tal decisão está nas mãos de dois dos piores transgressores dos direitos humanos (Rússia e China), e de uma nação (Estados Unidos) que se exime de firmar a maioria dos tratados internacionais sobre os direitos humanos. Embora ainda cobiçada em alguns casos, a chancela do Conselho está rapidamente perdendo seu prestígio.

A Comissão de Direitos Humanos, que reúne 53 Estados em sua sede em Genebra, tornou-se uma farsa politizada. Uma vez que a Comissão admite qualquer país (as vagas são distribuídas segundo critérios regionais), alguns dos regimes mais iníquos do planeta lá estão representados. Em 2003, a presidência da Comissão foi ocupada pela Líbia e, em 2004, o organismo aceitou como membro o Sudão, cujo governo está promovendo uma limpeza étnica que afeta centenas de milhares de africanos em Darfur. Até que a participação no órgão implique algum tipo de responsabilidade, a Comissão servirá de abrigo para muitos violadores dos direitos humanos e irá condenar poucos deles.

Quando os membros do Conselho de Segurança autorizam o secretário-geral a enviar tropas para locais em conflito, quase sempre os encarregados de garantir a paz se defrontam com problemas insolúveis. Eles atuam em algumas das zonas mais traiçoeiras do planeta, mas apenas ali onde os principais interesses econômicos e militares do Ocidente não se encontram ameaçados. E não é nenhuma coincidência que as missões de paz invariavelmente sofram com a falta dos recursos necessários para assegurar seu sucesso efetivo. Na década de 1990, os soldados da ONU que foram acorrentados a postes na Sérvia tornaram-se os garotos-propaganda da impotência da comunidade internacional, enquanto as potências ocidentais despachavam tropas com armamentos leves para Ruanda e a antiga Iugoslávia, sem lhes proporcionar o mandato ou os meios para interromper o genocídio. A fim de acomodar o inesperado aumento na demanda por missões pacificadoras em 2003, o secretário-geral Kofi Annan (que costuma brincar, dizendo que as iniciais de seu cargo, “S.G.”, são a abreviatura não de secretário-geral mas de scapegoat, ou bode expiatório) fez um apelo em favor de mais tropas, sistemas de informação e apoio logístico - e também da capacidade de enviar reforços, sempre que preciso.

O financiamento das missões de pacificação melhorou um pouco, mas ainda falta 1 bilhão de dólares. E, mais importante, as Nações Unidas precisam ter a capacidade de convocar tropas das principais potências, as quais, nos últimos anos, só contribuíram com poucas centenas de soldados. Os países que participam com forças significativas - entre os quais Paquistão, Bangladesh, Uruguai e Nigéria - muitas vezes só o fazem por causa das verbas e equipamentos militares que recebem. Não surpreende, portanto, que as instâncias de comando e controle dessas tropas muitas vezes se revelem precárias e inoperantes. Se as grandes potências continuarem economizando na montagem das missões pacificadoras, o Conselho de Segurança acabará conduzindo as Nações Unidas ao fracasso - colocando em risco a vida de milhões de civis que não têm outra opção além de buscar refúgio sob a bandeira azul da organização.

Em grande medida, os Estados Unidos e outros Estados-membros têm as Nações Unidas que querem e merecem. Mas os defensores de uma reforma da ONU deveriam ver o atoleiro no Iraque como uma oportunidade a ser aproveitada. Em vez de considerar a nova posição central das Nações Unidas como um sinal de êxito, o secretário-geral precisa chamar à razão os Estados-membros, que teimosamente persistem na crença de que um organismo aleijado pode enfrentar os mortíferos desafios transnacionais do século 21. Dag Hammarskjöld, o segundo secretário-geral da ONU, costumava dizer que as Nações Unidas não haviam sido criadas para conduzir a humanidade ao paraíso mas para salvá-la do inferno. Mas até mesmo escapar do inferno exige uma organização internacional à altura da tarefa.

Samantha Power é professora de administração pública
na Universidade Harvard e ganhadora do prêmio Pulitzer em 2003

 

NESTA EDIÇÃO
Auto-ajuda: Stephen Covey
Vida interior: Renato Mezan
Dieta: Geraldo Medeiros
Coração: Raul Santos
Finanças pessoais: Mauro Halfeld
Economia brasileira: Mailson da Nóbrega
Economia internacional: Alice M. Rivlin
Estados Unidos: Fareed Zakaria
Cultura: Sergio Paulo Rouanet
Ciência: Francis Fukuyama
EXCLUSIVO ON-LINE
Religião: Martha Nussbaum
Política internacional: Samantha Power
Ética: Robert Wright
Filosofia: Paul Davies
 
 
 
 
topovoltar