Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
Roberto Civita
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ética: Robert Wright
Bush, Saddam e
O Senhor dos Anéis

NÃO enxergar o mundo com óculos que só distinguem o bem e o mal. A realidade é mais complexa

A QUESTÃO
DESDE OS ATAQUES DE 11 DE SETEMBRO, RESSURGIU COM FORÇA, SOBRETUDO NOS ESTADOS UNIDOS, A IDÉIA DE QUE O MUNDO SE DIVIDE ENTRE AQUELES QUE ESTÃO DO LADO DA LUZ E AQUELES QUE ESTÃO DO LADO DAS TREVAS.

O PERIGO
IMAGINAR QUE POR TRÁS DE TUDO DE RUIM NO MUNDO ESTÁ UMA ÚNICA E TENEBROSA FORÇA TORNA MAIS DIFÍCIL DISTINGUIR, EM CADA SITUAÇÃO, AS CAUSAS ESPECÍFICAS DA VIOLÊNCIA OU DO FANATISMO. ESSA SIMPLIFICAÇÃO IMPEDE QUE SE VEJA QUE IRÃ, IRAQUE E CORÉIA DO NORTE, POR EXEMPLO, SÃO PROBLEMAS MUITO DIVERSOS. ISSO PÕE EM RISCO A PRÓPRIA LUTA CONTRA O TERRORISMO.

O mal é famoso por sua capacidade de recuperação. E com razão. Somente para bani-lo da Terra Média foram necessários três longos filmes da série O Senhor dos Anéis. Mas igualmente merecedor dessa reputação é o conceito de mal — em especial o conceito de mal que se nota nesses mesmos filmes: a idéia de que por trás de tudo de ruim no mundo está uma única e tenebrosa força cósmica. Pouco importam os incontáveis teólogos que rejeitam tal idéia, ou sua aparente incompatibilidade com a ciência moderna: ela sempre está de volta.

Muita gente acha que Santo Agostinho, um milênio e meio atrás, livrou o mundo dessa idéia. Contra essa noção do mal, e também contra toda a teologia maniqueísta onde aparecia, ele apresentou argumentos tão convincentes que o tema sumiu do discurso sério da Igreja. A partir de então, o mal deixou de ser uma entidade e tornou-se apenas a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz. Mas depois vieram os protestantes, e alguns deles retomaram a concepção maniqueísta de uma luta cósmica entre as forças do bem e do mal.

O filósofo Peter Singer, em seu recente livro The President of Good & Evil: the Ethics of George W. Bush (O Presidente do Bem & do Mal: a Ética de George W. Bush), sustenta que o presidente é herdeiro dessa variedade de pensamento protestante. Sem dúvida, Bush é um exemplo da dificuldade de acabar de uma vez por todas com a noção do mal. Às vésperas de seu primeiro mandato, em uma época pós-moderna e pós-Guerra Fria, o termo "malfeitores" era usado apenas de forma irônica, devido a suas alusões a super-heróis kitsch. No entanto, depois do 11 de Setembro, Bush passou a empregar o termo com toda a seriedade, comprometendo-se a "livrar o mundo do mal", e afirmando mais tarde que o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte faziam parte de um "eixo do mal".

Mas o que há de errado nisso? Por que sinto um mal-estar toda vez que Bush fala do mal? Porque a idéia que ele faz do mal é perigosa e, no atual ambiente geopolítico, sedutora.

Alguns conservadores descartam os receios liberais diante das menções de Bush ao mal como um reflexo automático de relativismo moral. Porém, rejeitar a concepção do mal adotada por Bush não significa rejeitar a idéia de absolutos morais, de certo e errado, bom e mau. No sentido maniqueísta, o mal não é apenas a ruindade absoluta. É antes uma majestosa e abrangente explicação dessa ruindade, a vinculação de muitas ruindades a uma origem única. Em O Senhor dos Anéis, as várias tropas inimigas, patentemente horripilantes — orcs, espectros do anel e assemelhados —, eram más no sentido maniqueísta porque respondiam a um comando unificado; todas estavam sob o domínio do temível Sauron.

Para as forças do bem — hobbits, elfos, Bush —, tal unificação da maldade simplifica imensamente a questão da estratégia. Se todos os nossos inimigos são títeres de Satã, não vale a pena estabelecer distinções sutis entre eles. Não há a menor necessidade de determinar quais deles são irresgatáveis e quais podem ser subornados. Como todos são irremediavelmente danosos, só nos resta combatê-los em todas as ocasiões, suportar todo o ônus disso e assim por diante.

Todavia, e se o mundo não for assim tão simples? E se alguns terroristas se contentarem com a destruição dos Estados Unidos, ao passo que outros almejam um enclave nacional na Chechênia ou em Mindanao? E se o tratamento uniforme dado aos terroristas — como se todos tivessem objetivos igualmente ilegítimos — os tornar de fato mais parecidos, mais uniformemente anti-americanos, mais fanatizados? (Note-se que a expressão "império do mal", do presidente Reagan, não incorria em tal perigo, pois a ameaça soviética já era monolítica.)

Ou, ainda, e se o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte constituem, na verdade, problemas muito diversos? E se os governantes desses países, por mais danos que tenham causado, continuam sendo seres humanos que reagem de modo racional a incentivos evidentes? Se formos de fato receptivos a essa possibilidade, poderíamos até nos animar quando, diante de uma ameaça de invasão, algum ditador abominável permite que equipes de inspeção da ONU vasculhem seus domínios. Todavia, se nos convencermos de que esse ditador não só é danoso mas também um representante do mal, provavelmente vamos concluir que, seja como for, o melhor é invadir logo seu país. Não há entendimento possível com o demônio.

Claro que, se vemos todos os terroristas como incorrigivelmente maléficos, estaremos menos inclinados a nos preocupar com os direitos civis dos suspeitos de terrorismo, ou com um tratamento decente nas prisões para aqueles acusados ou condenados por atos terroristas. Pois a luta contra o mal exige uma política de terra arrasada. Porém, e se tal política, ao fazer com que muitos muçulmanos nos Estados Unidos e em outros países se sintam perseguidos, na verdade estimular a proliferação de terroristas?

O abandono dessa metafísica contraproducente não implica a aceitação do relativismo, nem necessariamente a rejeição da noção de mal. Podemos muito bem atribuir as ações deletérias a uma única origem — e portanto acreditar em uma espécie de mal — sem, contudo, adotar a versão do maniqueísmo que tanto parece agradar a Bush. Poderíamos crer que, em algum ponto da natureza humana, há uma semente ruim e que esta explica muitos dos terríveis atos praticados pelas pessoas. Caso sejamos cristãos, nada nos impede de identificar tal semente como o pecado original. Caso não sejamos religiosos, poderíamos vê-la em termos seculares — por exemplo, como um âmago egoísta capaz de distorcer nossa perspectiva moral, predispondo-nos a admitir, e até desejar, o sofrimento daqueles que ameaçam nossos interesses.

Essa idéia do mal como algo atuante em todos nós resulta em um ponto de vista muito diverso do que parece ter sido adotado pelo presidente Bush. Ela poderia nos levar à seguinte indagação: se todos nós nascemos com essa semente de maldade, por que ela produz mais frutos em algumas pessoas do que em outras? Tal questão pode nos levar a analisar os malfeitores em seus próprios ambientes e, com isso, distinguir em cada situação as causas específicas do terrorismo.

Outra possível conseqüência dessa concepção do mal é nos incitar a um estimulante exame de nós mesmos. Poderia nos tornar mais atentos aos sinais de que nossos próprios cálculos morais foram distorcidos por interesses pessoais, políticos ou ideológicos. Se, digamos, tivéssemos de iniciar uma guerra que ira causar a morte de mais de 10.000 pessoas, talvez fôssemos alertados por dúvidas ocasionais a respeito de nossa decisão ou motivação — em vez de nos impregnarmos da certeza de que, como servos eleitos de Deus, estamos livres de qualquer culpa.

Em suma, com essa concepção do mal, o mundo não se parece com um filme da série O Senhor dos Anéis, no qual todos os bandidos prestam contas à mesma chefia e, para facilitar a identificação, são todos horrendos. Na realidade, o nosso é um mundo bem mais ambíguo, um mundo no qual o mal se oculta em todos, e que requer uma política esclarecida igualmente sutil.

Encontramos indícios dessa concepção até mesmo na trilogia O Senhor dos Anéis. A começar do próprio anel insidioso, capaz de incutir em todos os que o contemplam o desesperado desejo de possuí-lo, um desejo que, se não for domado, leva à corrupção absoluta. Sua mensagem parece ser a de que, graças à debilidade humana, qualquer um pode abrigar o mal — hobbits, elfos e até mesmo, podemos imaginar, um ou outro americano.

Robert Wright é pesquisador do Center for Human Values da Universidade
Princeton e autor de O Animal Moral – Porque Somos Como Somos:
a Nova Ciência da Psicologia Evolucionista

 

NESTA EDIÇÃO
Auto-ajuda: Stephen Covey
Vida interior: Renato Mezan
Dieta: Geraldo Medeiros
Coração: Raul Santos
Finanças pessoais: Mauro Halfeld
Economia brasileira: Mailson da Nóbrega
Economia internacional: Alice M. Rivlin
Estados Unidos: Fareed Zakaria
Cultura: Sergio Paulo Rouanet
Ciência: Francis Fukuyama
EXCLUSIVO ON-LINE
Religião: Martha Nussbaum
Política internacional: Samantha Power
Ética: Robert Wright
Filosofia: Paul Davies
 
 
 
 
topovoltar