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Ética:
Robert Wright Bush,
Saddam e O Senhor dos Anéis
NÃO
enxergar o mundo com óculos que só distinguem o bem e o mal. A realidade
é mais complexa A QUESTÃO DESDE
OS ATAQUES DE 11 DE SETEMBRO, RESSURGIU COM FORÇA, SOBRETUDO NOS ESTADOS
UNIDOS, A IDÉIA DE QUE O MUNDO SE DIVIDE ENTRE AQUELES QUE ESTÃO
DO LADO DA LUZ E AQUELES QUE ESTÃO DO LADO DAS TREVAS. O
PERIGO IMAGINAR QUE POR TRÁS DE TUDO DE RUIM
NO MUNDO ESTÁ UMA ÚNICA E TENEBROSA FORÇA TORNA MAIS DIFÍCIL
DISTINGUIR, EM CADA SITUAÇÃO, AS CAUSAS ESPECÍFICAS DA VIOLÊNCIA
OU DO FANATISMO. ESSA SIMPLIFICAÇÃO IMPEDE QUE SE VEJA QUE IRÃ,
IRAQUE E CORÉIA DO NORTE, POR EXEMPLO, SÃO PROBLEMAS MUITO DIVERSOS.
ISSO PÕE EM RISCO A PRÓPRIA LUTA CONTRA O TERRORISMO. O
mal é famoso por sua capacidade de recuperação. E com razão.
Somente para bani-lo da Terra Média foram necessários três
longos filmes da série O Senhor dos Anéis. Mas igualmente
merecedor dessa reputação é o conceito de mal — em especial
o conceito de mal que se nota nesses mesmos filmes: a idéia de que por
trás de tudo de ruim no mundo está uma única e tenebrosa
força cósmica. Pouco importam os incontáveis teólogos
que rejeitam tal idéia, ou sua aparente incompatibilidade com a ciência
moderna: ela sempre está de volta. Muita
gente acha que Santo Agostinho, um milênio e meio atrás, livrou o
mundo dessa idéia. Contra essa noção do mal, e também
contra toda a teologia maniqueísta onde aparecia, ele apresentou argumentos
tão convincentes que o tema sumiu do discurso sério da Igreja. A
partir de então, o mal deixou de ser uma entidade e tornou-se apenas a
ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência
da luz. Mas depois vieram os protestantes, e alguns deles retomaram a concepção
maniqueísta de uma luta cósmica entre as forças do bem e
do mal. O filósofo Peter Singer, em seu
recente livro The President of Good & Evil: the Ethics of George W. Bush
(O Presidente do Bem & do Mal: a Ética de George W. Bush), sustenta
que o presidente é herdeiro dessa variedade de pensamento protestante.
Sem dúvida, Bush é um exemplo da dificuldade de acabar de uma vez
por todas com a noção do mal. Às vésperas de seu primeiro
mandato, em uma época pós-moderna e pós-Guerra Fria, o termo
"malfeitores" era usado apenas de forma irônica, devido a suas
alusões a super-heróis kitsch. No entanto, depois do 11 de Setembro,
Bush passou a empregar o termo com toda a seriedade, comprometendo-se a "livrar
o mundo do mal", e afirmando mais tarde que o Irã, o Iraque e a Coréia
do Norte faziam parte de um "eixo do mal". Mas
o que há de errado nisso? Por que sinto um mal-estar toda vez que Bush
fala do mal? Porque a idéia que ele faz do mal é perigosa e, no
atual ambiente geopolítico, sedutora. Alguns
conservadores descartam os receios liberais diante das menções de
Bush ao mal como um reflexo automático de relativismo moral. Porém,
rejeitar a concepção do mal adotada por Bush não significa
rejeitar a idéia de absolutos morais, de certo e errado, bom e mau. No
sentido maniqueísta, o mal não é apenas a ruindade absoluta.
É antes uma majestosa e abrangente explicação dessa ruindade,
a vinculação de muitas ruindades a uma origem única. Em O
Senhor dos Anéis, as várias tropas inimigas, patentemente horripilantes
— orcs, espectros do anel e assemelhados —, eram más no sentido maniqueísta
porque respondiam a um comando unificado; todas estavam sob o domínio do
temível Sauron. Para as forças
do bem — hobbits, elfos, Bush —, tal unificação da maldade simplifica
imensamente a questão da estratégia. Se todos os nossos inimigos
são títeres de Satã, não vale a pena estabelecer distinções
sutis entre eles. Não há a menor necessidade de determinar quais
deles são irresgatáveis e quais podem ser subornados. Como todos
são irremediavelmente danosos, só nos resta combatê-los em
todas as ocasiões, suportar todo o ônus disso e assim por diante. Todavia,
e se o mundo não for assim tão simples? E se alguns terroristas
se contentarem com a destruição dos Estados Unidos, ao passo que
outros almejam um enclave nacional na Chechênia ou em Mindanao? E se o tratamento
uniforme dado aos terroristas — como se todos tivessem objetivos igualmente ilegítimos
— os tornar de fato mais parecidos, mais uniformemente anti-americanos, mais fanatizados?
(Note-se que a expressão "império do mal", do presidente
Reagan, não incorria em tal perigo, pois a ameaça soviética
já era monolítica.) Ou, ainda,
e se o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte constituem, na verdade,
problemas muito diversos? E se os governantes desses países, por mais danos
que tenham causado, continuam sendo seres humanos que reagem de modo racional
a incentivos evidentes? Se formos de fato receptivos a essa possibilidade, poderíamos
até nos animar quando, diante de uma ameaça de invasão, algum
ditador abominável permite que equipes de inspeção da ONU
vasculhem seus domínios. Todavia, se nos convencermos de que esse ditador
não só é danoso mas também um representante do mal,
provavelmente vamos concluir que, seja como for, o melhor é invadir logo
seu país. Não há entendimento possível com o demônio. Claro
que, se vemos todos os terroristas como incorrigivelmente maléficos, estaremos
menos inclinados a nos preocupar com os direitos civis dos suspeitos de terrorismo,
ou com um tratamento decente nas prisões para aqueles acusados ou condenados
por atos terroristas. Pois a luta contra o mal exige uma política de terra
arrasada. Porém, e se tal política, ao fazer com que muitos muçulmanos
nos Estados Unidos e em outros países se sintam perseguidos, na verdade
estimular a proliferação de terroristas? O
abandono dessa metafísica contraproducente não implica a aceitação
do relativismo, nem necessariamente a rejeição da noção
de mal. Podemos muito bem atribuir as ações deletérias a
uma única origem — e portanto acreditar em uma espécie de mal —
sem, contudo, adotar a versão do maniqueísmo que tanto parece agradar
a Bush. Poderíamos crer que, em algum ponto da natureza humana, há
uma semente ruim e que esta explica muitos dos terríveis atos praticados
pelas pessoas. Caso sejamos cristãos, nada nos impede de identificar tal
semente como o pecado original. Caso não sejamos religiosos, poderíamos
vê-la em termos seculares — por exemplo, como um âmago egoísta
capaz de distorcer nossa perspectiva moral, predispondo-nos a admitir, e até
desejar, o sofrimento daqueles que ameaçam nossos interesses. Essa
idéia do mal como algo atuante em todos nós resulta em um ponto
de vista muito diverso do que parece ter sido adotado pelo presidente Bush. Ela
poderia nos levar à seguinte indagação: se todos nós
nascemos com essa semente de maldade, por que ela produz mais frutos em algumas
pessoas do que em outras? Tal questão pode nos levar a analisar os malfeitores
em seus próprios ambientes e, com isso, distinguir em cada situação
as causas específicas do terrorismo. Outra
possível conseqüência dessa concepção do mal é
nos incitar a um estimulante exame de nós mesmos. Poderia nos tornar mais
atentos aos sinais de que nossos próprios cálculos morais foram
distorcidos por interesses pessoais, políticos ou ideológicos. Se,
digamos, tivéssemos de iniciar uma guerra que ira causar a morte de mais
de 10.000 pessoas, talvez fôssemos alertados
por dúvidas ocasionais a respeito de nossa decisão ou motivação
— em vez de nos impregnarmos da certeza de que, como servos eleitos de Deus, estamos
livres de qualquer culpa. Em suma, com essa
concepção do mal, o mundo não se parece com um filme da série
O Senhor dos Anéis, no qual todos os bandidos prestam contas à
mesma chefia e, para facilitar a identificação, são todos
horrendos. Na realidade, o nosso é um mundo bem mais ambíguo, um
mundo no qual o mal se oculta em todos, e que requer uma política esclarecida
igualmente sutil. Encontramos indícios
dessa concepção até mesmo na trilogia O Senhor dos Anéis.
A começar do próprio anel insidioso, capaz de incutir em todos os
que o contemplam o desesperado desejo de possuí-lo, um desejo que, se não
for domado, leva à corrupção absoluta. Sua mensagem parece
ser a de que, graças à debilidade humana, qualquer um pode abrigar
o mal — hobbits, elfos e até mesmo, podemos imaginar, um ou outro americano. Robert
Wright é pesquisador do Center for Human Values da Universidade Princeton
e autor de O Animal Moral – Porque Somos Como Somos: a Nova Ciência
da Psicologia Evolucionista |