Ponto de vista: Stephen
Kanitz
A era do administrador
"Em 2006, o candidato da oposição
que
demonstrar boa capacidade gerencial
será
um forte candidato à sucessão de Lula"
Ilustração Ale Setti
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Por que os Estados Unidos são o país mais bem-sucedido
do mundo? Porque são um país que resolveu o problema
da miséria e da estagnação econômica,
ao contrário do Brasil?
O segredo americano, e que você jamais
encontrará em nenhum livro de economia, é que os Estados
Unidos são um país bem administrado, um país
administrado por profissionais.
Dezenove por cento dos graduados de universidades
americanas são formados em administração. Administração
é a profissão mais freqüente, e portanto a que
dá o tom ao resto da nação.
Infelizmente, o Brasil nunca foi bem administrado.
Sempre fomos administrados por profissionais de outras áreas,
desde nossas empresas até o governo. Até recentemente,
tínhamos somente quatro cursos de pós-graduação
em administração, um absurdo!
De 1832 a 1964 a profissão mais freqüente
no Brasil era a de advogado, e foi essa a profissão que exerceu
a maior influência no país, tanto que nos deu a maioria
de nossos presidentes até 1964. A revolução
de 1964 acabou com a era do advogado e a legalidade, e tivemos a
era do economista, que perdura até hoje.
Nos próximos dez anos isso lentamente
mudará. O Brasil já tem 2.300 cursos de administração,
contra 350 em 1994. Estamos logo depois dos Estados Unidos e da
Índia.
Administração já é
hoje a profissão mais freqüente deste país, com
18% dos formandos. Antes, nossos gênios escolhiam medicina,
direito e engenharia. Agora escolhem medicina, administração
e direito, nessa ordem.
Há dez anos tínhamos apenas
200.000 administradores, e só 5% das empresas contavam com
um profissional para tocá-las. O resto era dirigido por "empresários"
que aprendiam administração no tapa. Por isso, até
hoje 50% das empresas brasileiras quebram nos dois primeiros anos
e metade de nosso capital inicial vira pó.
O que o aumento da participação
dos administradores na gestão das empresas significará
para o Brasil? Uma nova era muito promissora. Finalmente seremos
administrados por profissionais, e não por amadores. Daqui
para a frente, 75% das empresas não quebrarão nos
primeiros quatro anos de vida, e nossos investimentos gerarão
empregos, e não falências.
Em 2010, teremos 2 milhões de administradores
formados, e se cada um empregar vinte pessoas haverá 40 milhões
de empregos novos. Será o fim da exclusão social.
Administradores nunca foram ouvidos por políticos
e deputados nem concorriam a cargos públicos. Em 2010, é
muito provável que teremos nosso primeiro presidente da República
formado em administração. Por incrível que
pareça, nunca tivemos um executivo no Executivo.
Muitos de nossos ministros e governantes aprendiam
administração no próprio cargo, errando a um
custo social imenso para a nação. Foi-se o tempo em
que o mundo era simples e não havia necessidade de ter um
curso de administração para ser um bom administrador.
Em 2006, o candidato da oposição
que demonstrar boa capacidade gerencial será um forte candidato
à sucessão de Lula. João Paulo Cunha, do PT,
já o alertou de que, "se houver um bom administrador, ele
conquistará o eleitorado da periferia".
Não quero exagerar a importância
dos administradores, mas somente lembrar que eles são o elo
que faltava. Ordem não gera progresso, estabilidade econômica
não gera crescimento de forma espontânea, sempre há
a necessidade de um catalisador.
Não será uma transição
fácil, pois as classes dominantes não aceitam dividir
o poder que têm. Há muita gente interessada em manter
essa bagunça e desorganização, como vivem denunciando
Luiz Nassif, Arnaldo Jabor e José Simão. Gente que
é contra supervisão, eficiência e organização.
Administradores têm pouco espaço
na imprensa para defender suas idéias e soluções.
Em pleno século XXI, sou um dos raros administradores com
uma coluna na grande imprensa brasileira, e mesmo assim mensal.
Peter Drucker há quarenta anos tem uma coluna semanal em
dezenas de jornais americanos, ele e mais trinta gurus da administração.
Administradores têm outra forma de encarar
o mundo. Eles lutam para criar a riqueza que ainda não temos.
Economistas e intelectuais lutam para distribuir a pouca riqueza
que conseguimos criar, o que só tem gerado mais impostos
e mais pobreza.
Se esses 2 milhões de jovens administradores
que vêm por aí ocuparem o espaço político
que merecem, seremos finalmente um país bem administrado,
com 500 anos de atraso. Desejo a todos coragem e boa sorte.
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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