Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
Roberto Civita
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Filosofia: Paul Davies
Nada está escrito

NÃO abdicar da liberdade de
escolher o próprio destino

A QUESTÃO
NA CIÊNCIA E NA FILOSOFIA, CRESCERAM OS ATAQUES À IDÉIA DE QUE OS SERES HUMANOS SÃO CAPAZES DE MOLDAR SEUS DESTINOS INDIVIDUAIS. MAS NENHUMA TEORIA OFERECE UM SUBSTITUTO À ALTURA DESSE IMPORTANTE CONCEITO MORAL.

O PERIGO
PESSOAS CONVENCIDAS DE QUE A LIBERDADE DE ESCOLHA INDIVIDUAL É FALSA CORREM O RISCO DE SE CONFORMAR PASSIVAMENTE COM QUALQUER SINA QUE LHES SEJA IMPOSTA, OU ADOTAR UMA ATITUDE VIOLENTA EM RELAÇÃO ÀS COISAS QUE ACHAM QUE NÃO PODEM MUDAR.

Você não é obrigado a ler este artigo. Mas, se o fizer, poderia ter decidido de outro modo? É bem provável que você considere que era livre para deixá-lo de lado, mas será que era mesmo?

De um modo ou de outro, a crença no livre-arbítrio está presente em todas as culturas e constitui um aspecto substancial daquilo que nos torna humanos. Ela também é fundamental para nossos sistemas éticos e jurídicos. Atualmente, contudo, cientistas e filósofos estão empenhados em demolir esse esteio social — aparentemente sem se preocupar com o que poderia ser colocado em seu lugar.

O alvo desse questionamento é uma psicologia vulgar que poderia ser resumida assim: No interior de cada um de nós há um eu, um agente consciente que observa o mundo e toma decisões. Em alguns casos (ainda que talvez nem sempre), esse agente dispõe de certa margem de escolha e de controle sobre suas ações. Desse modelo simples da atuação humana decorrem as noções corriqueiras de responsabilidade, culpa, acusação e mérito. As leis, por exemplo, estabelecem uma clara distinção entre um ato criminoso realizado por uma pessoa hipnotizada ou por um sonâmbulo, e outro cometido em estado de vigília normal, com pleno conhecimento de suas conseqüências.

Tudo isso pode parecer mero senso comum, mas filósofos e autores o questionam há séculos — e os ataques vêm se avolumando. Na década de 1940, o filósofo Gilbert Ryle, da Universidade de Oxford, cunhou uma expressão zombeteira, "o fantasma na máquina", para se referir à suposição generalizada de que o cérebro é habitado por um eu imaterial, o qual controlaria de algum modo a atividade de nossos neurônios. O filósofo americano contemporâneo Daniel Dennett costuma se referir ao "mito precário" dos "titiriteiros espectrais" no interior de nossa cabeça.

Para os que demonstram ceticismo em relação ao livre-arbítrio, as decisões humanas ou são determinadas pela natureza preexistente da pessoa ou são inteiramente caprichosas. De um modo ou de outro, a genuína liberdade de escolha parece impalpável. Os físicos costumam ser os primeiros a disparar contra o livre-arbítrio. No esquema newtoniano clássico, o universo é um gigantesco mecanismo de relógio, funcionando previsivelmente de acordo com leis determinísticas. De que modo, então, um agente livre atua? Não existe a menor possibilidade, nesse sistema fechado de causalidade, de que uma mente intangível influa na movimentação dos átomos sem que ela, ao mesmo tempo, entre em conflito com as leis físicas. Tampouco a famosa indeterminação da mecânica quântica permite que a mente conquiste o direito de influenciar o mundo da matéria. A incerteza quântica não pode criar liberdade. A liberdade genuína pressupõe que nossa vontade determina de maneira confiável nossos atos.

Para os físicos, o livre-arbítrio não passa de um sentimento subjetivo; a mente não têm nenhuma eficácia causal. Mas, então, de onde vem tal sentimento? No livro The Illusion of Conscious Will (A Ilusão da Vontade Consciente), publicado em 2002, o psicólogo Daniel Wegner, da Universidade Harvard, recorre a engenhosos experimentos em laboratório para mostrar como os voluntários não abdicam da ilusão de que mantêm o controle, mesmo quando seus pensamentos conscientes não são a causa efetiva das ações que observam.

A ascensão da genética moderna também abalou a crença de que os seres humanos nascem livres para moldar seus destinos individuais. Para os cientistas, os genes determinam tanto as nossas mentes como os nossos corpos. Psicólogos evolutivos procuram fundamentar características individuais, como o altruísmo e a agressividade, nos mecanismos darwinistas da mutação aleatória e da seleção natural. "Somos máquinas de sobrevivência — veículos robotizados e cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes", diz o biólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford.

Aqueles aspectos da mente que não são predeterminados pela genética estão à mercê da "memética". Os "memes" são os equivalentes mentais dos genes — idéias, crenças e modas que se replicam e competem entre si, tal como os genes. A psicóloga britânica Susan Blackmore argumentou recentemente que nossa mente nada mais é do que coleções de memes que pegamos uns dos outros, como os vírus, e que a sensação familiar de "eu" é uma espécie de ficção criada pelos memes em favor de seus interesses próprios.

Essas idéias são perigosas porque há mais do que um grão de verdade nelas. Corremos o grave risco de que elas sejam simplificadas em demasia e usadas para justificar uma postura de vale-tudo em relação a atividades criminosas, conflitos étnicos e até mesmo genocídio. Por outro lado, as pessoas convencidas de que o conceito de escolha individual é um mito correm o risco de se conformar passivamente a qualquer destino que lhes tenha sido atribuído por um sistema social ou político explorador. Se você acha que a eugenia foi uma desastrosa perversão da ciência, imagine um mundo em que a maioria das pessoas não acredita no livre-arbítrio.

O ataque da ciência ao livre-arbítrio seria menos alarmante se houvesse, para colocar em seu lugar, alguma nova estrutura jurídica e ética. No entanto, ninguém faz a menor idéia de como seria tal estrutura. E, é bom lembrar, os cientistas podem estar equivocados ao questionar o livre-arbítrio. Seria precipitado supor que os físicos tenham dito a última palavra sobre a causalidade, ou que os cientistas cognitivos tenham compreendido plenamente o funcionamento do cérebro e a consciência. Porém, ainda que estejam certos, e o livre-arbítrio de fato se revelar uma ilusão, talvez essa seja uma ficção que vale a pena ser preservada. Com freqüência, os físicos e os filósofos mobilizam argumentos convincentes no âmbito rarefeito da academia, mas os deixam de lado quando tratam de questões práticas. Por exemplo, não é difícil nos convencermos de que o fluxo do tempo é uma ilusão (na física, o tempo simplesmente é, ele não "passa"). Mas ninguém cumpre suas tarefas corriqueiras sem se referir continuamente ao passado, presente e futuro. A sociedade acabaria por se desintegrar caso não adotasse a ficção da passagem do tempo. E o mesmo se dá com o eu e sua liberdade de participar nos acontecimentos. Parafraseando o escritor Isaac Bashevis Singer, precisamos acreditar no livre-arbítrio — não temos outra opção.

Paul Davies é professor de filosofia natural na Universidade Macquarie, em Sydney. Ele é autor de 25 livros, entre os quais The Fifth Miracle: the Search for the Origin and Meaning of Life (O Quinto Milagre: Em Busca da Origem da Vida)

 

NESTA EDIÇÃO
Auto-ajuda: Stephen Covey
Vida interior: Renato Mezan
Dieta: Geraldo Medeiros
Coração: Raul Santos
Finanças pessoais: Mauro Halfeld
Economia brasileira: Mailson da Nóbrega
Economia internacional: Alice M. Rivlin
Estados Unidos: Fareed Zakaria
Cultura: Sergio Paulo Rouanet
Ciência: Francis Fukuyama
EXCLUSIVO ON-LINE
Religião: Martha Nussbaum
Política internacional: Samantha Power
Ética: Robert Wright
Filosofia: Paul Davies
 
 
 
 
topovoltar