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Filosofia:
Paul Davies Nada
está escrito
NÃO
abdicar da liberdade de escolher o próprio destino A
QUESTÃO NA CIÊNCIA E NA FILOSOFIA,
CRESCERAM OS ATAQUES À IDÉIA DE QUE OS SERES HUMANOS SÃO
CAPAZES DE MOLDAR SEUS DESTINOS INDIVIDUAIS. MAS NENHUMA TEORIA OFERECE UM SUBSTITUTO
À ALTURA DESSE IMPORTANTE CONCEITO MORAL. O
PERIGO PESSOAS CONVENCIDAS DE QUE A LIBERDADE DE
ESCOLHA INDIVIDUAL É FALSA CORREM O RISCO DE SE CONFORMAR PASSIVAMENTE
COM QUALQUER SINA QUE LHES SEJA IMPOSTA, OU ADOTAR UMA ATITUDE VIOLENTA EM RELAÇÃO
ÀS COISAS QUE ACHAM QUE NÃO PODEM MUDAR. Você
não é obrigado a ler este artigo. Mas, se o fizer, poderia ter decidido
de outro modo? É bem provável que você considere que era livre
para deixá-lo de lado, mas será que era mesmo? De
um modo ou de outro, a crença no livre-arbítrio está presente
em todas as culturas e constitui um aspecto substancial daquilo que nos torna
humanos. Ela também é fundamental para nossos sistemas éticos
e jurídicos. Atualmente, contudo, cientistas e filósofos estão
empenhados em demolir esse esteio social — aparentemente sem se preocupar com
o que poderia ser colocado em seu lugar. O alvo
desse questionamento é uma psicologia vulgar que poderia ser resumida assim:
No interior de cada um de nós há um eu, um agente consciente que
observa o mundo e toma decisões. Em alguns casos (ainda que talvez nem
sempre), esse agente dispõe de certa margem de escolha e de controle sobre
suas ações. Desse modelo simples da atuação humana
decorrem as noções corriqueiras de responsabilidade, culpa, acusação
e mérito. As leis, por exemplo, estabelecem uma clara distinção
entre um ato criminoso realizado por uma pessoa hipnotizada ou por um sonâmbulo,
e outro cometido em estado de vigília normal, com pleno conhecimento de
suas conseqüências. Tudo isso pode
parecer mero senso comum, mas filósofos e autores o questionam há
séculos — e os ataques vêm se avolumando. Na década de 1940,
o filósofo Gilbert Ryle, da Universidade de Oxford, cunhou uma expressão
zombeteira, "o fantasma na máquina", para se referir à
suposição generalizada de que o cérebro é habitado
por um eu imaterial, o qual controlaria de algum modo a atividade de nossos neurônios.
O filósofo americano contemporâneo Daniel Dennett costuma se referir
ao "mito precário" dos "titiriteiros espectrais" no
interior de nossa cabeça. Para os que
demonstram ceticismo em relação ao livre-arbítrio, as decisões
humanas ou são determinadas pela natureza preexistente da pessoa ou são
inteiramente caprichosas. De um modo ou de outro, a genuína liberdade de
escolha parece impalpável. Os físicos costumam ser os primeiros
a disparar contra o livre-arbítrio. No esquema newtoniano clássico,
o universo é um gigantesco mecanismo de relógio, funcionando previsivelmente
de acordo com leis determinísticas. De que modo, então, um agente
livre atua? Não existe a menor possibilidade, nesse sistema fechado de
causalidade, de que uma mente intangível influa na movimentação
dos átomos sem que ela, ao mesmo tempo, entre em conflito com as leis físicas.
Tampouco a famosa indeterminação da mecânica quântica
permite que a mente conquiste o direito de influenciar o mundo da matéria.
A incerteza quântica não pode criar liberdade. A liberdade genuína
pressupõe que nossa vontade determina de maneira confiável nossos
atos. Para os físicos, o livre-arbítrio
não passa de um sentimento subjetivo; a mente não têm nenhuma
eficácia causal. Mas, então, de onde vem tal sentimento? No livro
The Illusion of Conscious Will (A Ilusão da Vontade Consciente),
publicado em 2002, o psicólogo Daniel Wegner, da Universidade Harvard,
recorre a engenhosos experimentos em laboratório para mostrar como os voluntários
não abdicam da ilusão de que mantêm o controle, mesmo quando
seus pensamentos conscientes não são a causa efetiva das ações
que observam. A ascensão da genética
moderna também abalou a crença de que os seres humanos nascem livres
para moldar seus destinos individuais. Para os cientistas, os genes determinam
tanto as nossas mentes como os nossos corpos. Psicólogos evolutivos procuram
fundamentar características individuais, como o altruísmo e a agressividade,
nos mecanismos darwinistas da mutação aleatória e da seleção
natural. "Somos máquinas de sobrevivência — veículos
robotizados e cegamente programados para preservar as moléculas egoístas
conhecidas como genes", diz o biólogo Richard Dawkins, da Universidade
de Oxford. Aqueles aspectos da mente que não
são predeterminados pela genética estão à mercê
da "memética". Os "memes" são os equivalentes
mentais dos genes — idéias, crenças e modas que se replicam e competem
entre si, tal como os genes. A psicóloga britânica Susan Blackmore
argumentou recentemente que nossa mente nada mais é do que coleções
de memes que pegamos uns dos outros, como os vírus, e que a sensação
familiar de "eu" é uma espécie de ficção
criada pelos memes em favor de seus interesses próprios. Essas
idéias são perigosas porque há mais do que um grão
de verdade nelas. Corremos o grave risco de que elas sejam simplificadas em demasia
e usadas para justificar uma postura de vale-tudo em relação a atividades
criminosas, conflitos étnicos e até mesmo genocídio. Por
outro lado, as pessoas convencidas de que o conceito de escolha individual é
um mito correm o risco de se conformar passivamente a qualquer destino que lhes
tenha sido atribuído por um sistema social ou político explorador.
Se você acha que a eugenia foi uma desastrosa perversão da ciência,
imagine um mundo em que a maioria das pessoas não acredita no livre-arbítrio. O
ataque da ciência ao livre-arbítrio seria menos alarmante se houvesse,
para colocar em seu lugar, alguma nova estrutura jurídica e ética.
No entanto, ninguém faz a menor idéia de como seria tal estrutura.
E, é bom lembrar, os cientistas podem estar equivocados ao questionar o
livre-arbítrio. Seria precipitado supor que os físicos tenham dito
a última palavra sobre a causalidade, ou que os cientistas cognitivos tenham
compreendido plenamente o funcionamento do cérebro e a consciência.
Porém, ainda que estejam certos, e o livre-arbítrio de fato se revelar
uma ilusão, talvez essa seja uma ficção que vale a pena ser
preservada. Com freqüência, os físicos e os filósofos
mobilizam argumentos convincentes no âmbito rarefeito da academia, mas os
deixam de lado quando tratam de questões práticas. Por exemplo,
não é difícil nos convencermos de que o fluxo do tempo é
uma ilusão (na física, o tempo simplesmente é, ele não
"passa"). Mas ninguém cumpre suas tarefas corriqueiras sem se
referir continuamente ao passado, presente e futuro. A sociedade acabaria por
se desintegrar caso não adotasse a ficção da passagem do
tempo. E o mesmo se dá com o eu e sua liberdade de participar nos acontecimentos.
Parafraseando o escritor Isaac Bashevis Singer, precisamos acreditar no livre-arbítrio
— não temos outra opção. Paul
Davies é professor de filosofia natural na Universidade Macquarie, em Sydney.
Ele é autor de 25 livros, entre os quais The Fifth Miracle: the Search
for the Origin and Meaning of Life (O Quinto Milagre: Em Busca da Origem
da Vida) |