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Livros Diferenças
de estilo As trajetórias do Brasil e da Argentina
são comparadas num estudo histórico inovador  Roberto
Pompeu de Toledo
A
Argentina é o estrépito. O Brasil, o murmúrio. Essa é
a norma (frouxa, é verdade, e à revelia dos autores) que se extrai
da leitura de Brasil e Argentina Um Ensaio de História Comparada
(1850-2002), de Boris Fausto e Fernando J. Devoto (Editora 34; 576 páginas;
59 reais). Para obter a independência, a Argentina guerreia, o Brasil negocia.
Na conquista da unidade, a Argentina atravessa décadas de lutas e desencontros.
No Brasil, exceção feita a alguns poucos inconvenientes (Revolução
Farroupilha, Balaiada, Cabanagem), a unidade é quase um dado da natureza.
Já no século XX, os regimes paralelos de Perón e de Getúlio
se caracterizam, o primeiro pela confrontação com os adversários,
o segundo pela cooptação. Nas ditaduras militares que se abatem
simultaneamente sobre os dois países, a da Argentina investe contra os
opositores com sanha assassina bem maior do que a brasileira. A ditadura brasileira
tem um fim gradual e até que suave. A da Argentina conhece um colapso estrepitoso
na aventura trágica da Guerra das Malvinas. O estrépito, sempre.
O
livro de Fausto, um dos principais historiadores brasileiros, professor da Universidade
de São Paulo e autor, entre outros, de A Revolução de
1930, e do argentino Devoto, professor da Universidade de Buenos Aires, autor
de importantes trabalhos sobre a contribuição da imigração
européia para a sociedade argentina, é inovador. Salvo engano, não
existe, pelo menos do lado da historiografia brasileira, trabalho semelhante de
história comparada entre dois países. Não faltam estudos
sobre períodos e temas correlatos, como peronismo/getulismo ou as respectivas
ditaduras militares. Mas é inédito um livro que lance olhar tão
amplo, compreendendo período tão longo, sobre a história
de dois países. Quanto à escolha de Brasil e Argentina, para abrir
tal trilha, nada mais lógico. Chega a ser impressionante o paralelismo
entre as trajetórias percorridas de um e outro lado da Bacia do Prata.
Derrubadas as ditaduras, ambos os países sofrerão as agruras da
hiperinflação, a Argentina mais, o Brasil menos. A Argentina engendrará
o Plano Austral, o Brasil o Plano Cruzado. Ambos fracassarão, o plano argentino
aliando, à frustração, o desespero dos saques e da anarquia.
O estrépito, de novo. Editorial
Perfil
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ditadores Perón (ŕ esq.) e Vargas (ŕ dir.): enquanto o argentino
se confrontava com os adversários, o brasileiro preferia cooptar seus inimigos
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No terreno, este muito freqüentado,
da comparação entre Perón e Getúlio, o livro produz
sínteses esclarecedoras. Enquanto Perón, com seu apelo à
plebe dos "descamisados", investia na luta de classes, Getúlio optava pelo
nacionalismo econômico (industrialização, Petrobras). Perón
abrigava "fortes tentações totalitárias", e "em relação
aos adversários sua postura se resumia à eliminação".
Já Getúlio se inclinava pela senda malandra do paternalismo. Os
dois, à moda dos fascismos europeus, usavam a estratégia das concentrações
populares, Perón na Plaza de Mayo, Getúlio no Estádio de
São Januário. Mas, e este é um achado dos autores, "o fato
de essas concentrações (as de Getúlio) se realizarem
em estádios fechados, e não em espaços abertos, revela uma
diferença significativa". Se a história
política argentina contém uma dose maior de som e fúria,
confrontação e sangue, é um engano pensar que, ao fim e ao
cabo, disso resulte uma superioridade brasileira. Com todos os percalços,
e sem perder de vista que, eles também, produziram, e ainda produzem, suas
injustiças e desigualdades, os argentinos, como é sabido, foram
capazes de construir uma sociedade mais homogênea e igualitária que
a brasileira. Nesse sentido, dois fatores afiguram-se como preponderantes. Um
a escravidão, que no Brasil permeou a sociedade de maneira muito mais abrangente,
e por muito mais tempo, que na Argentina. Outro, o investimento na escola pública,
já forte na Argentina ao tempo de Sarmiento (presidente de 1868 a 1874),
enquanto o Brasil imperial, nesse quesito, dormia a sono solto. Pena que o livro
não se aprofunde nesses dois temas. A dinâmica diversa entre Estado
e sociedade, ao se lançar um olhar de longo alcance sobre a história
de um e outro país, é no entanto ressaltada pelos autores na introdução
à obra, nos seguintes termos: "Enquanto no Brasil o primeiro que salta
aos olhos é o Estado, na Argentina é a sociedade".
Para o leitor brasileiro, o livro de Boris Fausto e Fernando J. Devoto é
útil em dois sentidos. Primeiro, pelo que informa sobre a história
argentina, assunto sobre o qual os brasileiros compartilham amplo desconhecimento.
E segundo porque, como é próprio do exercício de submeter-se
a comparações, um olhar sobre o outro acaba sendo muito revelador
de si mesmo. |