Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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As trajetórias do Brasil e da Argentina são
comparadas num estudo histórico inovador


Roberto Pompeu de Toledo


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Trechos do livro

A Argentina é o estrépito. O Brasil, o murmúrio. Essa é a norma (frouxa, é verdade, e à revelia dos autores) que se extrai da leitura de Brasil e Argentina – Um Ensaio de História Comparada (1850-2002), de Boris Fausto e Fernando J. Devoto (Editora 34; 576 páginas; 59 reais). Para obter a independência, a Argentina guerreia, o Brasil negocia. Na conquista da unidade, a Argentina atravessa décadas de lutas e desencontros. No Brasil, exceção feita a alguns poucos inconvenientes (Revolução Farroupilha, Balaiada, Cabanagem), a unidade é quase um dado da natureza. Já no século XX, os regimes paralelos de Perón e de Getúlio se caracterizam, o primeiro pela confrontação com os adversários, o segundo pela cooptação. Nas ditaduras militares que se abatem simultaneamente sobre os dois países, a da Argentina investe contra os opositores com sanha assassina bem maior do que a brasileira. A ditadura brasileira tem um fim gradual e até que suave. A da Argentina conhece um colapso estrepitoso na aventura trágica da Guerra das Malvinas. O estrépito, sempre.

O livro de Fausto, um dos principais historiadores brasileiros, professor da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, de A Revolução de 1930, e do argentino Devoto, professor da Universidade de Buenos Aires, autor de importantes trabalhos sobre a contribuição da imigração européia para a sociedade argentina, é inovador. Salvo engano, não existe, pelo menos do lado da historiografia brasileira, trabalho semelhante de história comparada entre dois países. Não faltam estudos sobre períodos e temas correlatos, como peronismo/getulismo ou as respectivas ditaduras militares. Mas é inédito um livro que lance olhar tão amplo, compreendendo período tão longo, sobre a história de dois países. Quanto à escolha de Brasil e Argentina, para abrir tal trilha, nada mais lógico. Chega a ser impressionante o paralelismo entre as trajetórias percorridas de um e outro lado da Bacia do Prata. Derrubadas as ditaduras, ambos os países sofrerão as agruras da hiperinflação, a Argentina mais, o Brasil menos. A Argentina engendrará o Plano Austral, o Brasil o Plano Cruzado. Ambos fracassarão, o plano argentino aliando, à frustração, o desespero dos saques e da anarquia. O estrépito, de novo.

 
Editorial Perfil
Os ditadores Perón (ŕ esq.) e Vargas (ŕ dir.): enquanto o argentino se confrontava com os adversários, o brasileiro preferia cooptar seus inimigos

No terreno, este muito freqüentado, da comparação entre Perón e Getúlio, o livro produz sínteses esclarecedoras. Enquanto Perón, com seu apelo à plebe dos "descamisados", investia na luta de classes, Getúlio optava pelo nacionalismo econômico (industrialização, Petrobras). Perón abrigava "fortes tentações totalitárias", e "em relação aos adversários sua postura se resumia à eliminação". Já Getúlio se inclinava pela senda malandra do paternalismo. Os dois, à moda dos fascismos europeus, usavam a estratégia das concentrações populares, Perón na Plaza de Mayo, Getúlio no Estádio de São Januário. Mas, e este é um achado dos autores, "o fato de essas concentrações (as de Getúlio) se realizarem em estádios fechados, e não em espaços abertos, revela uma diferença significativa".

Se a história política argentina contém uma dose maior de som e fúria, confrontação e sangue, é um engano pensar que, ao fim e ao cabo, disso resulte uma superioridade brasileira. Com todos os percalços, e sem perder de vista que, eles também, produziram, e ainda produzem, suas injustiças e desigualdades, os argentinos, como é sabido, foram capazes de construir uma sociedade mais homogênea e igualitária que a brasileira. Nesse sentido, dois fatores afiguram-se como preponderantes. Um a escravidão, que no Brasil permeou a sociedade de maneira muito mais abrangente, e por muito mais tempo, que na Argentina. Outro, o investimento na escola pública, já forte na Argentina ao tempo de Sarmiento (presidente de 1868 a 1874), enquanto o Brasil imperial, nesse quesito, dormia a sono solto. Pena que o livro não se aprofunde nesses dois temas. A dinâmica diversa entre Estado e sociedade, ao se lançar um olhar de longo alcance sobre a história de um e outro país, é no entanto ressaltada pelos autores na introdução à obra, nos seguintes termos: "Enquanto no Brasil o primeiro que salta aos olhos é o Estado, na Argentina é a sociedade".

Para o leitor brasileiro, o livro de Boris Fausto e Fernando J. Devoto é útil em dois sentidos. Primeiro, pelo que informa sobre a história argentina, assunto sobre o qual os brasileiros compartilham amplo desconhecimento. E segundo porque, como é próprio do exercício de submeter-se a comparações, um olhar sobre o outro acaba sendo muito revelador de si mesmo.

 
 
 
 
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