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Televisão
Um programa bem maduro Popular
entre os jovens e seus pais, Malhação chega a seu décimo
ano com a audiência em alta 
Ricardo Valladares
Oscar Cabral  |
| 1.
MARJORIE ESTIANO Depois
de viver a vocalista má da Vagabanda, a atriz quer ser cantora de verdade
2. JOÃO VELHO O
filho de Pereio e Cissa Guimarães dá adeus à trama 3.
GUILHERME BERENGUER Ele
é o galã
que mais recebe cartas na Globo 4.
JULIANA DIDONE Antes de virar
a beldade da hora, a atriz foi reprovada num teste para o elenco do programa
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A
série Malhação é um artigo raro na televisão
brasileira: um bem-sucedido programa para adolescentes e também sobre a
adolescência. Enquanto os jovens se identificam com seus personagens e situações,
os adultos leia-se os pais encontram nele uma janela para entender
o comportamento e os temas que estão na ordem do dia entre os jovens. Prestes
a completar dez anos, a atração que preenche os fins de tarde de
segunda a sexta-feira da Rede Globo tornou-se uma galinha-dos-ovos-de-ouro para
a emissora. Em 2004, seus índices de audiência bateram recordes.
Do início do ano passado até novembro, ela obteve uma média
de 34 pontos no ibope, a maior de sua existência. Em seus melhores momentos,
marcou 42 pontos, número superior ao das novelas das 6 e das 7. Além
de lhes fazer frente em popularidade, seus custos de produção são
uma pechincha se comparados aos dos folhetins. O orçamento de cada capítulo
é de 60.000 reais, um terço do de um capítulo de novela.
"É o melhor custo/benefício da Globo", diz o diretor de núcleo
Ricardo Waddington, responsável pelo programa.
Malhação converteu-se
num celeiro de atores para a Globo. Desde sua estréia, em 1995, é
lá que a emissora testa os novos rostos de seu elenco (veja
quadro).
Os atores Juliana Didone e Guilherme Berenguer, que formaram o par romântico
da trama em 2004, foram os campeões de cartas da emissora no ano. Outra
estreante, a atriz Marjorie Estiano, surpreendeu no papel de vilã. Ao lado
do ator João Velho que interpreta o hipongo Catraca , Berenguer
e Marjorie integram o conjunto musical de ficção Vagabanda, cujo
sucesso elevou ainda mais a popularidade do programa. A armação
a garota canta de verdade, mas os rapazes só fingem tocar
emplacou nas rádios e embalou as vendas de uma revista acompanhada de um
CD com suas músicas. Como o segredo de sua longevidade é a reciclagem
do enredo e dos personagens de tempos em tempos, a partir do próximo dia
17 essa turma passará para um plano secundário e entrarão
em cena quinze novos atores em busca de um lugar na TV. As
opções voltadas ao público adolescente sempre foram escassas
no cardápio das grandes redes. Uma pesquisa recente mostrou que, dos dez
programas preferidos pelos jovens entre 12 e 17 anos, apenas Malhação
e Altas Horas, também da Globo, se dirigem a eles. Se esse segmento
ainda hoje dispõe de tão poucas alternativas, até alguns
anos atrás o quadro era de desolação total. Em seus primeiros
anos, o próprio Malhação desperdiçava a chance
de explorar esse vasto potencial e fazia jus ao apelido pejorativo de "novelinha
adolescente". Voltado à geração saúde, tinha como
cenário uma academia de ginástica e a profundidade da trama não
ia além de discussões sobre boa forma. Com o passar do tempo, aquele
formato se desgastou. Em 1999, depois de quatro anos de sua estréia, a
atração marcava meros 14 pontos no Ibope e integrar seu elenco era
sinônimo de carreira em baixa. "O programa tinha virado uma bagunça",
diz um produtor que viveu aqueles tempos. Nessa época, Waddington assumiu
a direção com a orientação de ser implacável
e, se fosse o caso, extinguir o seriado. Por meio de pesquisas de audiência,
no entanto, percebeu que o problema do programa eram suas deficiências de
foco. Os jovens representavam apenas 19% do público do horário.
Os espectadores se compunham, em sua maior parte, de adultos entre os quais,
evidentemente, muitos com filhos adolescentes. A partir dessa constatação,
a ordem foi reformular o programa de alto a baixo. Além de ser atraente
para os jovens, Malhação deveria também ser um canal
para os pais se informarem sobre o universo de seus rebentos.
Desde aquela guinada,
Malhação segue o mesmo formato. A academia que foi a razão
de ser de seu nome já não existe e em seu lugar surgiu um colégio,
o Múltipla Escolha. As locações ocorrem quase sempre nas
salas de aula, numa quadra de esportes ou na lanchonete da escola. O forte da
trama ainda são as amizades e os namoricos dos adolescentes, mas o programa
passou a abordar assuntos mais sérios. A cada temporada, trata de temas
ligados ao comportamento portamento dos jovens e suas relações com
o mundo dos adultos, além de questões sociais. Atualmente, Malhação
é o programa com a maior carga de campanhas de merchandising social da
TV brasileira. De janeiro de 2000 a junho de 2004, contabilizou quase 40% das
cenas desse tipo exibidas em todas as novelas da Globo no período. Em 2004,
falou a respeito da importância do trabalho voluntário e da doação
de sangue. Em temporadas anteriores, abordou a aids e a violência contra
as crianças. Em 2005, a partir do triângulo amoroso formado pelos
novos protagonistas, vai-se discutir o uso do preservativo. O personagem Bernardo,
interpretado pelo aspirante a galã Thiago Rodrigues, engravidará
Jacqueline, vivida pela também novata Joana Balaguer (uma sósia
adolescente da modelo Daniella Cicarelli). Para complicar as coisas, o rapaz namora
outra garota, Betina, papel de Fernanda Vasconcelos.
Fotos Oscar Cabral
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OS
BASTIDORES As filmagens
(à esq.) e os atores Bruno Ferrari e Graziella Schimitt no intervalo
(ao lado): namoricos no ar | Muito
do sucesso de Malhação se explica pela habilidade de sua
equipe de roteiristas comandada, desde as mudanças por que passou
no fim dos anos 90, por Ricardo Hofstetter. Um de seus acertos é a forma
leve e sincera com que se abordam os temas sérios mesclados ao folhetim.
"O truque para lidar com o público jovem é não enrolar. Para
ganhar sua fidelidade, você não pode tentar enganá-lo", diz
Hofstetter. Mas a grande proeza do programa é mesmo a de se reinventar
periodicamente. Na verdade, sob o rótulo Malhação
não há uma série com começo, meio e fim. É
como se a mesma ambientação e o mesmo título fossem usados
como panos de fundo para que uma nova novela se suceda à anterior a cada
ano. Até hoje, nada menos do que 223 atores já passaram pelo programa
e somente um personagem atual chegou à quinta temporada no ar: o largado
Cabeção, representado por Sergio Hondjakoff. Depois de seis anos
conduzindo esse enredo, digamos, auto-sustentável, o autor Hofstetter acaba
de ceder seu posto a Flávia Lins e Silva, roteirista da nova geração
da emissora.
Para os atores, trabalhar em Malhação significa, obviamente,
uma chance de ouro. Não à toa, o processo anual de seleção
é um evento que movimenta as escolas de atores e agências de modelos.
Todos os anos, a emissora recebe milhares de vídeos de interessados numa
vaguinha. Neste ano, cerca de 400 candidatos passaram por uma primeira triagem
e foram avaliados pela produtora de elenco do programa, Rosane Quintaes. Somente
quinze deles chegaram lá. Curiosamente, já ocorreu de gente que
não foi aprovada num primeiro momento obter papel de destaque em outra
temporada. Foi o caso de Berenguer, reprovado em duas ocasiões antes de
virar protagonista, e de Juliana, que também não conseguiu o emprego
em 2003 e hoje é a mocinha da trama. Investir em jovens acaba gerando,
de novo, economia para a Globo. O cachê para os iniciantes é de 1.000
reais por mês. Somente em alguns casos, como o de Hondjakoff, o mais antigo
do elenco, o salário pode chegar à casa dos 5.000 reais. "Quando
muito, sobram uns 3.500 depois dos descontos", diz ele.
Além de sonharem com uma carreira promissora, os atores também auferem
ganhos indiretos. Marjorie Estiano pretende usar a fama na Vagabanda para emplacar
uma carreira fonográfica. A atriz curitibana cujo estilo vocal emula,
na melhor das hipóteses, o da cantora Sandy assinou contrato com
a gravadora Universal e entrará em estúdio em breve para produzir
um disco. Malhação também se tornou um espaço
em que a Globo mantém em circulação sua mão-de-obra
afastada do horário nobre. A presença desses atores mais velhos
é uma forma de transmitir experiência aos novatos. Com o fim da atual
temporada, duas figuras de um mesmo clã sairão de cena. Filho do
veterano Paulo César Pereio e da atriz Cissa Guimarães, o ator João
Velho despede-se do papel de Catraca. Cissa, que interpreta uma atriz, também
está deixando o programa. Mudar para continuar sempre em forma essa
é a lei da vida em Malhação.
| Passaporte
para o horário nobre
Ana Paula Paiva  | Paulo
Jares  |
| Priscila:
"Aprendi a técnica em Malhação" | O
seriado em seus primeiros tempos:
sempre um celeiro | Malhação
sempre foi um terreno fértil para a Rede Globo testar seus novos atores.
Mesmo em seus primórdios, quando exibia uma dramaturgia de qualidade duvidosa,
já revelava nomes como Ana Paula Tabalipa, Claudio Heinrich e André
Marques. A eles se somam outros que não começaram lá, mas
devem a Malhação sua projeção em início
de carreira caso de Carolina Dieckmann, protagonista da atual novela das
8. De lá para cá, a lista não parou de crescer. De Giovanna
Antonelli a Juliana Knust, 99% das beldades em circulação no horário
nobre bateram cartão em Malhação. O mesmo ocorre com
os galãs. Muita gente saiu direto dos books de agências de modelos
para seu elenco. A atriz Priscila Fantin é um exemplo. Ela fazia um curso
no exterior quando foi convocada pelo diretor Ricardo Waddington, que se impressionou
depois de assistir a um vídeo com sua atuação em comerciais.
"Minha carreira de atriz foi um acidente. Aprendi toda a técnica em Malhação",
diz ela. | | |