Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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Televisão
Um programa bem maduro

Popular entre os jovens e seus pais,
Malhação chega a seu décimo ano
com a audiência em alta


Ricardo Valladares

 
Oscar Cabral

1. MARJORIE ESTIANO
Depois de viver a vocalista má da Vagabanda, a atriz quer ser
cantora de verdade
2. JOÃO VELHO
O filho de Pereio e Cissa Guimarães dá adeus à trama
3. GUILHERME BERENGUER
Ele é o galã que mais recebe cartas na Globo
4. JULIANA DIDONE
Antes de virar a beldade da hora, a atriz foi reprovada num
teste para o elenco do programa



DA INTERNET
Vídeos

A série Malhação é um artigo raro na televisão brasileira: um bem-sucedido programa para adolescentes e também sobre a adolescência. Enquanto os jovens se identificam com seus personagens e situações, os adultos – leia-se os pais – encontram nele uma janela para entender o comportamento e os temas que estão na ordem do dia entre os jovens. Prestes a completar dez anos, a atração que preenche os fins de tarde de segunda a sexta-feira da Rede Globo tornou-se uma galinha-dos-ovos-de-ouro para a emissora. Em 2004, seus índices de audiência bateram recordes. Do início do ano passado até novembro, ela obteve uma média de 34 pontos no ibope, a maior de sua existência. Em seus melhores momentos, marcou 42 pontos, número superior ao das novelas das 6 e das 7. Além de lhes fazer frente em popularidade, seus custos de produção são uma pechincha se comparados aos dos folhetins. O orçamento de cada capítulo é de 60.000 reais, um terço do de um capítulo de novela. "É o melhor custo/benefício da Globo", diz o diretor de núcleo Ricardo Waddington, responsável pelo programa.

Malhação converteu-se num celeiro de atores para a Globo. Desde sua estréia, em 1995, é lá que a emissora testa os novos rostos de seu elenco (veja quadro). Os atores Juliana Didone e Guilherme Berenguer, que formaram o par romântico da trama em 2004, foram os campeões de cartas da emissora no ano. Outra estreante, a atriz Marjorie Estiano, surpreendeu no papel de vilã. Ao lado do ator João Velho – que interpreta o hipongo Catraca –, Berenguer e Marjorie integram o conjunto musical de ficção Vagabanda, cujo sucesso elevou ainda mais a popularidade do programa. A armação – a garota canta de verdade, mas os rapazes só fingem tocar – emplacou nas rádios e embalou as vendas de uma revista acompanhada de um CD com suas músicas. Como o segredo de sua longevidade é a reciclagem do enredo e dos personagens de tempos em tempos, a partir do próximo dia 17 essa turma passará para um plano secundário e entrarão em cena quinze novos atores em busca de um lugar na TV.

As opções voltadas ao público adolescente sempre foram escassas no cardápio das grandes redes. Uma pesquisa recente mostrou que, dos dez programas preferidos pelos jovens entre 12 e 17 anos, apenas Malhação e Altas Horas, também da Globo, se dirigem a eles. Se esse segmento ainda hoje dispõe de tão poucas alternativas, até alguns anos atrás o quadro era de desolação total. Em seus primeiros anos, o próprio Malhação desperdiçava a chance de explorar esse vasto potencial e fazia jus ao apelido pejorativo de "novelinha adolescente". Voltado à geração saúde, tinha como cenário uma academia de ginástica e a profundidade da trama não ia além de discussões sobre boa forma. Com o passar do tempo, aquele formato se desgastou. Em 1999, depois de quatro anos de sua estréia, a atração marcava meros 14 pontos no Ibope e integrar seu elenco era sinônimo de carreira em baixa. "O programa tinha virado uma bagunça", diz um produtor que viveu aqueles tempos. Nessa época, Waddington assumiu a direção com a orientação de ser implacável e, se fosse o caso, extinguir o seriado. Por meio de pesquisas de audiência, no entanto, percebeu que o problema do programa eram suas deficiências de foco. Os jovens representavam apenas 19% do público do horário. Os espectadores se compunham, em sua maior parte, de adultos – entre os quais, evidentemente, muitos com filhos adolescentes. A partir dessa constatação, a ordem foi reformular o programa de alto a baixo. Além de ser atraente para os jovens, Malhação deveria também ser um canal para os pais se informarem sobre o universo de seus rebentos.

Desde aquela guinada, Malhação segue o mesmo formato. A academia que foi a razão de ser de seu nome já não existe e em seu lugar surgiu um colégio, o Múltipla Escolha. As locações ocorrem quase sempre nas salas de aula, numa quadra de esportes ou na lanchonete da escola. O forte da trama ainda são as amizades e os namoricos dos adolescentes, mas o programa passou a abordar assuntos mais sérios. A cada temporada, trata de temas ligados ao comportamento portamento dos jovens e suas relações com o mundo dos adultos, além de questões sociais. Atualmente, Malhação é o programa com a maior carga de campanhas de merchandising social da TV brasileira. De janeiro de 2000 a junho de 2004, contabilizou quase 40% das cenas desse tipo exibidas em todas as novelas da Globo no período. Em 2004, falou a respeito da importância do trabalho voluntário e da doação de sangue. Em temporadas anteriores, abordou a aids e a violência contra as crianças. Em 2005, a partir do triângulo amoroso formado pelos novos protagonistas, vai-se discutir o uso do preservativo. O personagem Bernardo, interpretado pelo aspirante a galã Thiago Rodrigues, engravidará Jacqueline, vivida pela também novata Joana Balaguer (uma sósia adolescente da modelo Daniella Cicarelli). Para complicar as coisas, o rapaz namora outra garota, Betina, papel de Fernanda Vasconcelos.

Fotos Oscar Cabral
OS BASTIDORES
As filmagens (à esq.) e os atores Bruno Ferrari e Graziella Schimitt no intervalo (ao lado): namoricos no ar

Muito do sucesso de Malhação se explica pela habilidade de sua equipe de roteiristas – comandada, desde as mudanças por que passou no fim dos anos 90, por Ricardo Hofstetter. Um de seus acertos é a forma leve e sincera com que se abordam os temas sérios mesclados ao folhetim. "O truque para lidar com o público jovem é não enrolar. Para ganhar sua fidelidade, você não pode tentar enganá-lo", diz Hofstetter. Mas a grande proeza do programa é mesmo a de se reinventar periodicamente. Na verdade, sob o rótulo Malhação não há uma série com começo, meio e fim. É como se a mesma ambientação e o mesmo título fossem usados como panos de fundo para que uma nova novela se suceda à anterior a cada ano. Até hoje, nada menos do que 223 atores já passaram pelo programa e somente um personagem atual chegou à quinta temporada no ar: o largado Cabeção, representado por Sergio Hondjakoff. Depois de seis anos conduzindo esse enredo, digamos, auto-sustentável, o autor Hofstetter acaba de ceder seu posto a Flávia Lins e Silva, roteirista da nova geração da emissora.

Para os atores, trabalhar em Malhação significa, obviamente, uma chance de ouro. Não à toa, o processo anual de seleção é um evento que movimenta as escolas de atores e agências de modelos. Todos os anos, a emissora recebe milhares de vídeos de interessados numa vaguinha. Neste ano, cerca de 400 candidatos passaram por uma primeira triagem e foram avaliados pela produtora de elenco do programa, Rosane Quintaes. Somente quinze deles chegaram lá. Curiosamente, já ocorreu de gente que não foi aprovada num primeiro momento obter papel de destaque em outra temporada. Foi o caso de Berenguer, reprovado em duas ocasiões antes de virar protagonista, e de Juliana, que também não conseguiu o emprego em 2003 e hoje é a mocinha da trama. Investir em jovens acaba gerando, de novo, economia para a Globo. O cachê para os iniciantes é de 1.000 reais por mês. Somente em alguns casos, como o de Hondjakoff, o mais antigo do elenco, o salário pode chegar à casa dos 5.000 reais. "Quando muito, sobram uns 3.500 depois dos descontos", diz ele.

Além de sonharem com uma carreira promissora, os atores também auferem ganhos indiretos. Marjorie Estiano pretende usar a fama na Vagabanda para emplacar uma carreira fonográfica. A atriz curitibana – cujo estilo vocal emula, na melhor das hipóteses, o da cantora Sandy – assinou contrato com a gravadora Universal e entrará em estúdio em breve para produzir um disco. Malhação também se tornou um espaço em que a Globo mantém em circulação sua mão-de-obra afastada do horário nobre. A presença desses atores mais velhos é uma forma de transmitir experiência aos novatos. Com o fim da atual temporada, duas figuras de um mesmo clã sairão de cena. Filho do veterano Paulo César Pereio e da atriz Cissa Guimarães, o ator João Velho despede-se do papel de Catraca. Cissa, que interpreta uma atriz, também está deixando o programa. Mudar para continuar sempre em forma – essa é a lei da vida em Malhação.

 

Passaporte para o horário nobre

 
Ana Paula Paiva
Paulo Jares
Priscila: "Aprendi a técnica em Malhação" O seriado em seus primeiros tempos: sempre um celeiro

Malhação sempre foi um terreno fértil para a Rede Globo testar seus novos atores. Mesmo em seus primórdios, quando exibia uma dramaturgia de qualidade duvidosa, já revelava nomes como Ana Paula Tabalipa, Claudio Heinrich e André Marques. A eles se somam outros que não começaram lá, mas devem a Malhação sua projeção em início de carreira – caso de Carolina Dieckmann, protagonista da atual novela das 8. De lá para cá, a lista não parou de crescer. De Giovanna Antonelli a Juliana Knust, 99% das beldades em circulação no horário nobre bateram cartão em Malhação. O mesmo ocorre com os galãs. Muita gente saiu direto dos books de agências de modelos para seu elenco. A atriz Priscila Fantin é um exemplo. Ela fazia um curso no exterior quando foi convocada pelo diretor Ricardo Waddington, que se impressionou depois de assistir a um vídeo com sua atuação em comerciais. "Minha carreira de atriz foi um acidente. Aprendi toda a técnica em Malhação", diz ela.

 
 
 
 
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