Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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Coração: Raul Santos
De olho no coração

NÃO fumar, não comer em
excesso, não se entregar à vida
sedentária e não se esquecer
do exame cardiológico

A QUESTÃO
O BRASIL TEM UM ALTO ÍNDICE DE MORTES POR DOENÇAS CARDIOVASCULARES E, NESSE RITMO, PODE TORNAR-SE UM CAMPEÃO MUNDIAL DESSA ESTATÍSTICA. MÁ ALIMENTAÇÃO, SEDENTARISMO E FALTA DE PREVENÇÃO SÃO RAÍZES DO PROBLEMA.

O PERIGO
MESMO QUEM NÃO INCORRE NOS FATORES DE RISCO MAIS EVIDENTES, COMO A OBESIDADE OU O CIGARRO, NÃO DEVE DESCUIDAR DO CORAÇÃO. CERCA DE METADE DAS PESSOAS QUE JÁ SOFRERAM UM INFARTO NUNCA HAVIA APRESENTADO UM SINTOMA PRÉVIO.

Calcula-se que as doenças cardiovasculares serão a causa da morte de 30% dos brasileiros vivos hoje. E, se não mudarmos com urgência certas atitudes cotidianas e hábitos alimentares perigosos, esse número pode aumentar nas próximas décadas. Um estudo da Universidade Columbia, dos Estados Unidos, sugere que o Brasil será o campeão mundial de novos casos de infarto do miocárdio em 2040. Os riscos decorrem de nosso estilo de vida. A falta de atividade física, a alimentação rica em gorduras animais e calorias e o excesso de trabalho sem lazer (especialmente se os momentos de relaxamento forem acompanhados por um cigarrinho) são um caminho perfeito para a arteriosclerose, a maior causa de infartos e derrames.

Um fato preocupante, confirmado recentemente pelo IBGE, é que estamos cada vez mais gordos. O acúmulo de gordura na região abdominal pode indicar futuros problemas do coração. Além do óbvio problema estético, a gordura abdominal associa-se a um elevado risco de hipertensão arterial, diabetes, distúrbios do colesterol e triglicérides. Infelizmente, essas coisas vêm juntas, o que multiplica os efeitos maléficos de cada um desses fatores isolados. É preciso, portanto, comer de forma mais saudável. Não há necessidade de proibições radicais, mas é bom concentrar a dieta em carnes magras, aves, peixes, leite desnatado, grãos. O sedentarismo é outra grande ameaça. O recomendado é ter atividade física contínua durante trinta minutos todos os dias. Se não der para correr, nadar, pedalar, dançar, pelo menos caminhe, use as escadas. Cigarro, nem pensar. É necessário banir até mesmo a fumaça do vizinho, pois o fumo passivo também aumenta o risco de infarto. Exija, portanto, que sua empresa proíba o fumo em ambientes fechados.

Um dos maiores perigos para a saúde do coração, porém, está na idéia de que não precisa se preocupar quem não incorre nos fatores de risco mais evidentes, como a obesidade ou o tabagismo. Na verdade, dificilmente podemos identificar um indivíduo com probabilidade aumentada de problemas do coração sem que ele decida fazer uma visita ao médico. A medicina preventiva é muito importante na cardiologia. Estatísticas mostram que cerca de metade das pessoas que infartam nunca havia apresentado um sintoma prévio. Pressão e colesterol altos não doem, e por isso muita gente nunca visita um consultório. Na maioria das vezes, quando os fatores de risco são diagnosticados, a doença já está instalada e a possibilidade de intervenção preventiva é reduzida.

Felizmente, a arteriosclerose pode ser prevenida, o que diminui o risco de infarto e derrame em até 80%. Para isso são necessárias conscientização, perseverança, atividade física, boas maneiras à mesa e, em certos casos, uma dose de remédios. Pressão alta e colesterol alterado em geral não são curáveis, mas controláveis. Atualmente, os medicamentos receitados para esses problemas são seguros e eficazes. Seu uso, contudo, deve ser contínuo, pois do contrário não servirão para nada. A interrupção negligente do tratamento é perigosa. Uma pesquisa mostrou que as estatinas, remédios que diminuem o risco de problemas vasculares em cerca de 30%, são consumidas em média por apenas três meses – muito aquém do necessário.

Raul Santos é livre-docente em cardiologia da Faculdade de Medicina da USP
e diretor da Unidade Clínica de Dislipidemias do InCor-HCFMUSP

 
NESTA EDIÇÃO
Auto-ajuda: Stephen Covey
Vida interior: Renato Mezan
Dieta: Geraldo Medeiros
Coração: Raul Santos
Finanças pessoais: Mauro Halfeld
Economia brasileira: Mailson da Nóbrega
Economia internacional: Alice M. Rivlin
Estados Unidos: Fareed Zakaria
Cultura: Sergio Paulo Rouanet
Ciência: Francis Fukuyama
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Religião: Martha Nussbaum
Política internacional: Samantha Power
Ética: Robert Wright
Filosofia: Paul Davies

 
 
 
 
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