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Coração:
Raul Santos De
olho no coração
NÃO
fumar, não comer em excesso, não se entregar à vida
sedentária e não se esquecer do exame cardiológico A
QUESTÃO O BRASIL TEM UM ALTO ÍNDICE
DE MORTES POR DOENÇAS CARDIOVASCULARES E, NESSE RITMO, PODE TORNAR-SE UM
CAMPEÃO MUNDIAL DESSA ESTATÍSTICA. MÁ ALIMENTAÇÃO,
SEDENTARISMO E FALTA DE PREVENÇÃO SÃO RAÍZES DO PROBLEMA.
O PERIGO MESMO
QUEM NÃO INCORRE NOS FATORES DE RISCO MAIS EVIDENTES, COMO A OBESIDADE
OU O CIGARRO, NÃO DEVE DESCUIDAR DO CORAÇÃO. CERCA DE METADE
DAS PESSOAS QUE JÁ SOFRERAM UM INFARTO NUNCA HAVIA APRESENTADO UM SINTOMA
PRÉVIO. Calcula-se que as doenças
cardiovasculares serão a causa da morte de 30% dos brasileiros vivos hoje.
E, se não mudarmos com urgência certas atitudes cotidianas e hábitos
alimentares perigosos, esse número pode aumentar nas próximas décadas.
Um estudo da Universidade Columbia, dos Estados Unidos, sugere que o Brasil será
o campeão mundial de novos casos de infarto do miocárdio em 2040.
Os riscos decorrem de nosso estilo de vida. A falta de atividade física,
a alimentação rica em gorduras animais e calorias e o excesso de
trabalho sem lazer (especialmente se os momentos de relaxamento forem acompanhados
por um cigarrinho) são um caminho perfeito para a arteriosclerose, a maior
causa de infartos e derrames. Um fato preocupante,
confirmado recentemente pelo IBGE, é que estamos cada vez mais gordos.
O acúmulo de gordura na região abdominal pode indicar futuros problemas
do coração. Além do óbvio problema estético,
a gordura abdominal associa-se a um elevado risco de hipertensão arterial,
diabetes, distúrbios do colesterol e triglicérides. Infelizmente,
essas coisas vêm juntas, o que multiplica os efeitos maléficos de
cada um desses fatores isolados. É preciso, portanto, comer de forma mais
saudável. Não há necessidade de proibições
radicais, mas é bom concentrar a dieta em carnes magras, aves, peixes,
leite desnatado, grãos. O sedentarismo é outra grande ameaça.
O recomendado é ter atividade física contínua durante trinta
minutos todos os dias. Se não der para correr, nadar, pedalar, dançar,
pelo menos caminhe, use as escadas. Cigarro, nem pensar. É necessário
banir até mesmo a fumaça do vizinho, pois o fumo passivo também
aumenta o risco de infarto. Exija, portanto, que sua empresa proíba o fumo
em ambientes fechados. Um dos maiores perigos para
a saúde do coração, porém, está na idéia
de que não precisa se preocupar quem não incorre nos fatores de
risco mais evidentes, como a obesidade ou o tabagismo. Na verdade, dificilmente
podemos identificar um indivíduo com probabilidade aumentada de problemas
do coração sem que ele decida fazer uma visita ao médico.
A medicina preventiva é muito importante na cardiologia. Estatísticas
mostram que cerca de metade das pessoas que infartam nunca havia apresentado um
sintoma prévio. Pressão e colesterol altos não doem, e por
isso muita gente nunca visita um consultório. Na maioria das vezes, quando
os fatores de risco são diagnosticados, a doença já está
instalada e a possibilidade de intervenção preventiva é reduzida.
Felizmente, a arteriosclerose pode ser prevenida,
o que diminui o risco de infarto e derrame em até 80%. Para isso são
necessárias conscientização, perseverança, atividade
física, boas maneiras à mesa e, em certos casos, uma dose de remédios.
Pressão alta e colesterol alterado em geral não são curáveis,
mas controláveis. Atualmente, os medicamentos receitados para esses problemas
são seguros e eficazes. Seu uso, contudo, deve ser contínuo, pois
do contrário não servirão para nada. A interrupção
negligente do tratamento é perigosa. Uma pesquisa mostrou que as estatinas,
remédios que diminuem o risco de problemas vasculares em cerca de 30%,
são consumidas em média por apenas três meses muito
aquém do necessário.
Raul Santos é livre-docente em cardiologia da Faculdade de Medicina da
USP e diretor da Unidade Clínica de Dislipidemias do InCor-HCFMUSP
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