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Entrevista:
Daniel Vasella
Patentes salvam vidas
O presidente
de um dos cinco maiores
laboratórios farmacêuticos do mundo
diz
que sem respeito ao direito autoral
acabam também os avanços no combate
ao câncer e a outras doenças

Marcelo Carneiro
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AFP

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"Quando um
remédio é lançado,
você passa a ver
efeitos que não
via quando ele era usado
em um número menor
de pessoas"
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Em 1988,
aos 35 anos, o médico suíço Daniel Vasella
decidiu abandonar os plantões em um hospital universitário
para trabalhar na área de vendas de um laboratório
farmacêutico em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Se o projeto
não desse certo, poderia voltar ao consultório, pensava.
Hoje, Vasella é o presidente mundial da Novartis, empresa
que fatura anualmente 30 bilhões de dólares e é
um dos cinco gigantes da indústria farmacêutica. O
executivo tornou-se paradigma do implacável estilo americano
de negociação. Em 2001, protagonizou uma polêmica
com o governo brasileiro por causa da ameaça de quebra de
patentes de medicamentos contra aids. Ele fala sem rodeios sobre
um dos assuntos mais constrangedores para seu ramo atualmente: os
graves efeitos colaterais de remédios, que recentemente resultaram
na retirada de alguns produtos do mercado. "É errado acreditar
que remédios não tenham efeitos colaterais ou que
os laboratórios conheçam todos esses efeitos quando
uma nova droga é lançada", disse Vasella, em entrevista
por telefone a VEJA, de seu escritório na Basiléia,
dias antes de sua viagem ao Brasil, na qual encontrará o
presidente Lula.
Veja
Em setembro, o laboratório Merck teve de retirar
o antiinflamatório Vioxx das prateleiras. O remédio
está sob suspeita de provocar infarto nos pacientes. Em dezembro,
outro laboratório, o Pfizer, admitiu que o Celebra também
poderia causar problemas cardíacos. O que está acontecendo
com a indústria farmacêutica?
Vasella
Esses episódios trazem várias lições.
A primeira delas: é errado acreditar que remédios
não tenham efeitos colaterais ou que os laboratórios
conheçam todos esses efeitos quando uma nova droga é
lançada no mercado. Não há nenhum remédio
que não tenha efeito colateral. Eu disse nenhum. Cada droga
tem seus efeitos, mais ou menos severos. Quando um remédio
é lançado, ele passa a ser usado como tratamento para
10.000 ou 100.000 pacientes, e você então começa
a ver efeitos colaterais que não via quando esse medicamento
era administrado a um número menor de pessoas. Por isso é
vital que a indústria farmacêutica, os médicos,
os pacientes e os órgãos governamentais trabalhem
juntos, em uma operação de vigilância, para
identificar os efeitos colaterais quando os remédios passarem
a ser usados por mais pessoas. Nós tratamos um paciente porque
ele está doente e porque temos a esperança de que
a droga que ele está recebendo promova mais benefícios
do que efeitos colaterais.
Veja
Nos últimos três anos, a Novartis reduziu
em até 35% o tempo médio da chegada de uma nova droga
às farmácias, das primeiras pesquisas ao lançamento
no mercado. Essa rapidez não compromete a segurança
do medicamento?
Vasella
Não. Nós conseguimos acelerar esse processo melhorando
a tecnologia. Mas existe um dilema. Ao mesmo tempo, hoje as autoridades
da área regulatória têm exigido estudos clínicos
com um número maior de pacientes, o que os torna mais demorados
e mais caros. A discussão em torno do Vioxx e do Celebra
certamente forçará as autoridades a assumir uma atitude
ainda mais conservadora na liberação dos medicamentos.
Veja
Mas, depois desses episódios, o FDA, agência
americana que é referência mundial no controle de medicamentos,
foi acusado por especialistas de ter afrouxado seus mecanismos de
vigilância.
Vasella
Não
vejo razão para nenhum tipo de suspeita sobre a atuação
do FDA. Nossa relação com a agência é
dura, às vezes difícil, mas sempre orientada por padrões
científicos e racionais.
Veja
Para várias pessoas, a indústria farmacêutica
é vista como um negócio mais focado em marketing do
que em encontrar a cura das doenças. Por que os laboratórios
têm essa imagem?
Vasella
O sistema de saúde envolve pacientes, médicos, hospitais,
laboratórios, farmácias e até o governo. Nós,
porém, somos os únicos que tornamos públicos
nossos lucros. É uma situação profundamente
difícil. Por um lado, produzimos remédios que ajudam
pacientes. Por outro, temos lucro com isso. Às vezes, muito
lucro. Há alguns anos, tivemos uma polêmica sobre a
liberação de patentes de medicamentos contra a aids
para os países africanos. A indústria farmacêutica
não teve um bom comportamento naquele episódio. Parecia
que nossos lucros eram mais importantes que o destino dos doentes
mais pobres do mundo e essa foi uma má decisão.
Deveríamos ter buscado uma alternativa. Situações
excepcionais exigem soluções excepcionais.
Veja
Mas, em 2001, em meio à guerra entre o Brasil e
os grandes laboratórios envolvendo a quebra de patentes para
medicamentos contra a aids, o senhor disse que não investiria
em um país que não respeita a propriedade intelectual.
Sua opinião mudou?
Vasella
Não.
Quem despreza a propriedade intelectual está ferindo os pacientes.
É uma atitude anti-ética, porque sem o respeito às
patentes não haverá progresso. Tenho de levantar minha
voz contra isso. Também acredito que nós precisamos
estabelecer parcerias com governos e com organizações
não-governamentais ou multilaterais para dar acesso a medicamentos
para pessoas que não tenham condições de pagar.
Mas quebrar patentes é uma atitude míope de quem acha
que está ajudando o paciente. Você pode ajudar, a curto
prazo, mas está destruindo a possibilidade de novas terapias
para as gerações futuras. Nesse assunto, sou inflexível,
não há ambigüidade. No caso dos países
da África, acho que os laboratórios aprenderam a lição.
Acredito também que a indústria é muito melhor
do que a forma como está sendo vista hoje. É importante
lembrar que, ao longo dos últimos quarenta anos, o lançamento
de novos medicamentos, por parte dos laboratórios, reduziu
dramaticamente a mortalidade da população. Nos casos
de infarto, por exemplo, essa diminuição chegou a
60%. A sociedade precisa decidir se quer continuar a contar com
esse tipo de avanço. Para que existam empresas investindo
no desenvolvimento de novas terapias, é necessário
que haja respeito às patentes e que os remédios tenham
um preço capaz de financiar as pesquisas, além de
gerar lucro. Afinal, nós trabalhamos em uma economia capitalista.
Veja
O senhor discutirá essa questão na reunião
que terá com o presidente Lula?
Vasella
Tenho
certeza de que isso será colocado em discussão. A
Novartis não produz medicamentos contra a aids, mas eu gostaria
que o governo e as companhias que têm esses remédios
chegassem a um acordo que atendesse à necessidade dos pacientes
e ao mesmo tempo respeitasse a propriedade intelectual. Imagine
se cada país pudesse quebrar as patentes dos remédios
anti-aids. Em pouquíssimo tempo, nós estaríamos
na mesma situação que há, hoje, para as doenças
tropicais. Ninguém investiria um centavo em pesquisa, porque
não se poderia ganhar dinheiro com ela. Já no século
XVIII, Adam Smith dizia que o comportamento das pessoas está
diretamente relacionado aos seus interesses. E a melhor maneira
de termos novos produtos é criar, para as empresas, o interesse
em desenvolvê-los. Não acredito que os governos tenham
bons institutos de pesquisa. Nos países do antigo bloco soviético,
apesar de muito dinheiro ter sido investido nos institutos, quase
nenhuma nova droga foi descoberta.
Veja
A Novartis, uma empresa de origem européia, investiu
4 bilhões de dólares na construção de
um centro de pesquisa nos Estados Unidos. Seu estilo de gestão
é mais americano do que europeu. Isso lhe traz problemas
em casa?
Vasella
Nós também mudamos nosso escritório central
para Cambridge, nos Estados Unidos, e isso não nos criou
nenhum problema. Hoje, nós somos vistos como uma empresa
suíço-americana e posso dizer que a cultura gerencial
americana é a mais avançada. A razão de termos
instalado o centro de pesquisa em Cambridge, próximo do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e de Harvard, é simples.
Nos EUA, nós teremos acesso aos maiores talentos científicos,
mais facilmente do que teríamos em qualquer outro lugar no
mundo. Na Europa, tem sido cada vez mais difícil encontrar
pesquisadores e atrair talentos. Cerca de 70% dos estudantes europeus
que fazem pós-doutorado nos Estados Unidos preferem permanecer
lá a retornar a seu país.
Veja
E por que isso ocorre?
Vasella
A
sociedade americana acredita, ama e aplaude o progresso. Na Europa,
nós temos uma série de dúvidas a respeito do
progresso. É uma sociedade mais conservadora. Além
disso, os governos europeus têm gasto muito dinheiro em programas
sociais, de saúde e com os desempregados e os aposentados,
mas esquecem que os indivíduos devem ter responsabilidade
e liberdade. Hoje, as pessoas desenvolveram uma atitude de esperar
tudo do governo. Se você se aposenta aos 60 ou aos 55 anos,
quando ainda poderia trabalhar por mais tempo, quem vai pagar por
isso? É um problema que vai além da indústria
farmacêutica.
Veja
Com a ajuda principalmente da internet, muitos pacientes
conseguem um volume enorme de informações sobre suas
doenças. Como isso afeta a relação médico-paciente?
Vasella
Hoje, os doentes, especialmente os que sofrem de um mal crônico
ou muito grave, conseguem acesso rápido a uma grande quantidade
de informações. Em alguns casos, eles sabem mais que
seus próprios médicos, e isso é um desafio
para esses profissionais. Mas os pacientes não têm
como comparar seu caso com o de outros doentes, fazer um julgamento
sobre qual é o tratamento mais apropriado e qual não
é recomendável, algo que só um médico
está apto a fazer. Portanto, os médicos continuam
tendo papel crucial no tratamento.
Veja
Um dos desafios da medicina tem sido criar remédios
que retardem os efeitos de doenças geralmente associadas
à velhice. Como a indústria tem reagido a isso?
Vasella
Esse é, de fato, um dos maiores desafios, em razão
das mudanças demográficas que estão ocorrendo
no mundo, tanto nos países desenvolvidos quantos nos que
estão em desenvolvimento. O número de pessoas acima
de 65 anos, na Europa, vai crescer quase 27% nos próximos
25 anos. Isso tem impacto nos custos de saúde, porque pessoas
acima dos 55 anos passam a usar mais os serviços médicos,
consumir mais remédios e sofrer de doenças crônicas
como arteriosclerose, mal de Alzheimer ou demência.
Veja
Por que é tão difícil encontrar a
cura para as doenças que afetam o cérebro?
Vasella
Há
várias razões. A mais significativa é que o
cérebro é o órgão mais complexo. Além
disso, as doenças e terapias associadas ao cérebro
dificilmente podem ser comparadas com modelos usados em outros animais,
como ocorre nos demais órgãos do corpo humano. Isso
torna as pesquisas nessa área uma sucessão de estudos
de tentativa e erro. No momento, estamos trabalhando em um tipo
de vacina contra o mal de Alzheimer, mas eu devo ser prudente, porque
não conseguimos ainda entender completamente a doença.
Estes são nossos dois maiores problemas: falta de conhecimento
e alta complexidade do cérebro.
Veja
Até os 35 anos, o senhor era um médico que
atendia em consultórios, sem nenhuma experiência empresarial
ou executiva. Como foi a transição para o mundo da
indústria farmacêutica?
Vasella
No
primeiro ano, foi bastante difícil. Eu era um médico
respeitado, mas, quando decidi mudar de carreira, não conhecia
nada. Tive de começar do zero. As pessoas me olhavam e se
perguntavam: "O que ele está fazendo aqui, por que não
continuou a ser médico, será que matou algum paciente?".
Após um ano, ganhei o respeito de meus colegas. Depois de
dois anos, não tive dúvida: queria continuar no mundo
dos negócios.
Veja
O senhor decidiu tornar público seu salário
(o equivalente a 39 milhões de reais anuais), uma atitude
rara entre executivos líderes de empresas. Qual a razão?
Vasella
Discutimos bastante sobre essa decisão. Por um lado, havia
a questão da privacidade, e quanto uma pessoa ganha é
um dado privado. Por outro, os acionistas queriam mais transparência.
Nós chegamos à conclusão de que os acionistas
deveriam saber quanto eu ganho. É claro que isso tem efeitos
negativos e positivos. Há gente que, ao saber qual é
meu salário, passa a me ver com outros olhos. Até
para meus filhos é complicado explicar que eu ganhe tanto.
O lado bom é que não tenho nada a esconder.
Veja
Aos 5 anos, o senhor descobriu que tinha asma. Aos 8,
contraiu tuberculose e meningite. Aos 10, perdeu sua irmã
mais velha, vítima de câncer. Três anos depois,
viu seu pai também morrer, por causa de complicações
pós-cirúrgicas. Em que medida a proximidade com a
doença e a morte foram determinantes para sua vocação?
Vasella
Quando
se é paciente por um bom tempo, passa-se a saber como os
doentes se sentem. Isso não é fácil. Quando
se enfrenta a morte tão cedo, descobre-se que faz parte da
realidade da vida a certeza de que um dia vamos morrer. Você
não fica pensando nisso a toda hora, mas passa a ter consciência
de que esse dia chegará. Obviamente, minha decisão
pela medicina está ligada a dois fatores. Primeiro, o desejo
de ser um médico tão bom quanto os que eu tive. Segundo,
ter o poder, com novos medicamentos, de mudar dramaticamente para
melhor a qualidade de vida dos pacientes. Minha consciência
a respeito da morte deu-me fome pelas descobertas.
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