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Em
foco: Gustavo Franco Verdades
reveladas em 2004
"Em 2004 ficou muito claro
que a construção do Brasil não começou em 2002
e que o bom desempenho da economia tem bases associadas às reformas
da última década" O ano que passou,
em matéria de economia, trouxe lições importantes, embora
não muito evidentes. Os números foram muito bons, melhores do que
se esperava, o que serviu para confundir ainda mais o já proverbial conflito
de personalidades no interior do PT. O leitor bem
sabe que o ano de 2003 foi dedicado aos esforços bem-sucedidos para conjurar
uma crise em nada relacionada ao governo anterior, mas provocada pelo medo de
que a metade errada do PT viesse a ser dominante no governo. Compromissos com
o bom senso em política econômica foram fundamentais para fechar
a caixa de Pandora que a eleição de Lula parecia ter aberto. Em
conseqüência, o PT teve de alterar sua identidade e afastar ou esconder
seus radicais nos fundos da casa. O fato é que, desde então, a política
econômica do PT se tornou indistinguível da anterior.
Todavia, uma vez passada a fase aguda de dúvidas, com os ânimos serenados,
a luta interna dentro do governo continuou mais encarniçada do que nunca.
Sem crise, no decorrer de 2004, a tentação de abandonar a medicina
convencional parecia maior e mais perigosa. Ao fim do ano, contudo, e à
luz dos bons resultados na economia, o tema principal de qualquer retrospectiva
econômica não pode ser outro: novamente, e agora de forma acachapante,
Dr. Jeckill predominou sobre Mr. Hide. A novela
clássica de Robert Louis Stevenson, que o leitor conhece do cinema, é
um paradigma sobre recantos desconhecidos da personalidade e mais especificamente
sobre a presença de um "outro" dentro de cada um de nós, uma "persona"
totalmente diferente, destituída de qualquer moral, um cruel assassino
que, na história, levou a polícia a pensar que ele morava nos fundos
do consultório de um pacato doutor.
Ilustração
Ale Setti
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A
trama se desloca para o terror quando se descobre que o mal não é
externo ao indivíduo, mas parte dele, e que assume o controle através
de chaves comportamentais incompreensíveis e fortuitas. O terror é
o mal destituído de razão, e, no governo Lula, Mr. Hide é
a designação que cabe a um delírio autoritário, volta
e meia latente, fundado numa suposta superioridade moral autoconferida e inexistente,
em nome da qual não se reconhecem limites nem escrúpulos, e se pretende
patrulhar o cinema, os jornalistas, a cultura e os estrangeirismos. Este é
o PT da intolerância e do aparelhismo, que judicializa as políticas
públicas e manipula CPIs com vistas a denegrir pessoas que pensam diferente
dele (como este que vos fala), usando técnicas próprias do macartismo.
A novela de Stevenson é de 1886, o mesmo
ano da publicação de Para Além do Bem e do Mal, de
Nietzsche, talvez o mais importante ideólogo do nazi-fascismo. "A vida",
diz ele, "é essencialmente apropriação, dano, subjugação
do que é alheio e mais fraco, supressão, dureza, imposição
de nossas próprias formas." Nietzsche celebra o triunfo de Hide sobre Jeckill
e propugna a morte da democracia. Não há dúvida de que, em
certos momentos, o PT está mais para Nietzsche que para Marx.
Pois a boa notícia foi que em 2004 a democracia brasileira mostrou extraordinária
vitalidade, impondo limites tanto ao "jogo pesado" na política quanto às
esquisitices econômicas. As instituições políticas
mostraram que têm os próprios filtros e contrapesos, de modo que
foram frustradas, em boa medida, as iniciativas patrulhantes e também o
denuncismo de resultados. Em paralelo, os mercados
continuaram maltratando os "heterodoxos" de linguagem parnasiana e patrocinando
sua devolução às cátedras universitárias. E
de toda parte vem o apoio ao doutor Palocci e a sua equipe econômica, que
continuaram o trabalho que vinha de antes no sentido de despolitizar a moeda e
reafirmar o paradigma de responsabilidade fiscal. Em 2004 ficou muito claro que
a construção do Brasil não começou em 2002 e que o
bom desempenho da economia tem bases associadas às reformas da última
década. A simples verdade é que a herança era benigna; maligno
é o que está escondido nos fundos da casa.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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