Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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Em foco: Gustavo Franco
Verdades reveladas
em 2004

"Em 2004 ficou muito claro que a construção
do Brasil não começou em 2002 e que o bom
desempenho da economia tem bases associadas
às reformas da última década"

O ano que passou, em matéria de economia, trouxe lições importantes, embora não muito evidentes. Os números foram muito bons, melhores do que se esperava, o que serviu para confundir ainda mais o já proverbial conflito de personalidades no interior do PT.

O leitor bem sabe que o ano de 2003 foi dedicado aos esforços bem-sucedidos para conjurar uma crise em nada relacionada ao governo anterior, mas provocada pelo medo de que a metade errada do PT viesse a ser dominante no governo. Compromissos com o bom senso em política econômica foram fundamentais para fechar a caixa de Pandora que a eleição de Lula parecia ter aberto. Em conseqüência, o PT teve de alterar sua identidade e afastar ou esconder seus radicais nos fundos da casa. O fato é que, desde então, a política econômica do PT se tornou indistinguível da anterior.

Todavia, uma vez passada a fase aguda de dúvidas, com os ânimos serenados, a luta interna dentro do governo continuou mais encarniçada do que nunca. Sem crise, no decorrer de 2004, a tentação de abandonar a medicina convencional parecia maior e mais perigosa. Ao fim do ano, contudo, e à luz dos bons resultados na economia, o tema principal de qualquer retrospectiva econômica não pode ser outro: novamente, e agora de forma acachapante, Dr. Jeckill predominou sobre Mr. Hide.

A novela clássica de Robert Louis Stevenson, que o leitor conhece do cinema, é um paradigma sobre recantos desconhecidos da personalidade e mais especificamente sobre a presença de um "outro" dentro de cada um de nós, uma "persona" totalmente diferente, destituída de qualquer moral, um cruel assassino que, na história, levou a polícia a pensar que ele morava nos fundos do consultório de um pacato doutor.

Ilustração Ale Setti


A trama se desloca para o terror quando se descobre que o mal não é externo ao indivíduo, mas parte dele, e que assume o controle através de chaves comportamentais incompreensíveis e fortuitas. O terror é o mal destituído de razão, e, no governo Lula, Mr. Hide é a designação que cabe a um delírio autoritário, volta e meia latente, fundado numa suposta superioridade moral autoconferida e inexistente, em nome da qual não se reconhecem limites nem escrúpulos, e se pretende patrulhar o cinema, os jornalistas, a cultura e os estrangeirismos. Este é o PT da intolerância e do aparelhismo, que judicializa as políticas públicas e manipula CPIs com vistas a denegrir pessoas que pensam diferente dele (como este que vos fala), usando técnicas próprias do macartismo.

A novela de Stevenson é de 1886, o mesmo ano da publicação de Para Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, talvez o mais importante ideólogo do nazi-fascismo. "A vida", diz ele, "é essencialmente apropriação, dano, subjugação do que é alheio e mais fraco, supressão, dureza, imposição de nossas próprias formas." Nietzsche celebra o triunfo de Hide sobre Jeckill e propugna a morte da democracia. Não há dúvida de que, em certos momentos, o PT está mais para Nietzsche que para Marx.

Pois a boa notícia foi que em 2004 a democracia brasileira mostrou extraordinária vitalidade, impondo limites tanto ao "jogo pesado" na política quanto às esquisitices econômicas. As instituições políticas mostraram que têm os próprios filtros e contrapesos, de modo que foram frustradas, em boa medida, as iniciativas patrulhantes e também o denuncismo de resultados.

Em paralelo, os mercados continuaram maltratando os "heterodoxos" de linguagem parnasiana e patrocinando sua devolução às cátedras universitárias. E de toda parte vem o apoio ao doutor Palocci e a sua equipe econômica, que continuaram o trabalho que vinha de antes no sentido de despolitizar a moeda e reafirmar o paradigma de responsabilidade fiscal. Em 2004 ficou muito claro que a construção do Brasil não começou em 2002 e que o bom desempenho da economia tem bases associadas às reformas da última década. A simples verdade é que a herança era benigna; maligno é o que está escondido nos fundos da casa.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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