Edição 1 630 -5/1/2000

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Alguns escritores já dispensaram os livros.
Eles são pioneiros da ficção em hipertexto

Carlos Graieb

Os americanos Michael Joyce e Stuart
Moulthrop: conduzindo o leitor por labirintos de histórias

Para a maioria dos escritores, o computador não passa de uma máquina de escrever melhorada. Alguns até hoje desconfiam das vantagens de arquivar seus textos na memória do micro. Quanto antes a obra puder ser impressa num livro, melhor. Aos poucos, no entanto, começa a surgir uma pequena tribo de autores que pensam diferente. Para eles, é o livro que se tornou dispensável. Seus romances e contos são feitos para ser lidos exclusivamente no computador. Com isso, criaram uma nova modalidade de literatura: a ficção em "hipertexto". É uma apropriação do formato das páginas da internet. Em vez de conduzir o leitor por um único caminho, da primeira linha ao ponto final, esses escritores incrementam o trajeto com atalhos e bifurcações. Cada leitor escolhe o percurso pelas possibilidades que lhe são oferecidas na tela. Em alguns casos, as narrativas se transformam em verdadeiros labirintos literários. Quase sempre há imagens e sons.

A ficção em hipertexto já ganhou adeptos no Brasil. O site Galáxias (http://www.terravista.pt/ilhadomel/2158/galaxias/index.htm) lista quatro obras. Uma delas é Quatro Gargantas Cortadas, coletânea de contos de Daniel Pellizzari. A mais curiosa, ainda que o texto deixe muito a desejar do ponto de vista estilístico, é Tristessa, assinada por um anônimo, identificado como O Passageiro. Quem chega ao site encontra uma "capa". Clicando o mouse, o leitor é transportado até o prefácio e de lá para um "navegador", no qual estão listados os sessenta capítulos principais do texto. Não existe uma seqüência correta de leitura ou, como afirma o autor, "não há instruções de navegação".

Nos Estados Unidos, a novidade está virando um negócio. Já existe pelo menos uma editora especializada no gênero, a Eastgate. Além de publicar os trabalhos, a empresa desenvolve programas de editoração eletrônica que ajudam os autores a escrever no formato hipertexto. Criada no começo dos anos 80 pelo ex-químico Mark Bernstein, a Eastgate conta atualmente com 35 títulos e 27 autores em seu catálogo. Entre eles estão as estrelas Michael Joyce e Stuart Moulthrop. O primeiro é o patriarca da nova arte. Sua obra mais antiga, Afternoon: a Story, foi publicada em 1989 e já ganhou o status de "clássico". Moulthrop é o mais ativo e engenhoso dos hiperficcionistas. Seu melhor trabalho, Victory Garden, tem um enredo convencional – uma história de amores e intrigas num campus universitário. Mas o texto é dividido em quase 1 000 "páginas", conectadas por 2.800 links eletrônicos, o que dá uma idéia da complexidade de sua arquitetura. "Ler ficção em hipertexto demanda paciência e concentração", diz Moulthrop. "Eu mesmo, às vezes preciso reunir coragem antes de iniciar uma leitura, embora ache que a experiência vale a pena."

As páginas iniciais de Quatro Gargantas Cortadas e Tristessa: literatura em hipertexto também pode ser encontrada em português

A tiragem de uma obra em hipertexto, vendida em disquete, gira em torno das 3.000 cópias. É similar à dos livros de poesia nos Estados Unidos. Mas deve aumentar. A Microsoft acaba de criar um prêmio de 100.000 dólares para obras escritas originalmente no formato eletrônico. No âmbito literário, é melhor olhar o hipertexto como aquilo que ele de fato é. Não necessariamente o anúncio de uma nova era, mas uma interessante ferramenta de criação, que mal começou a ser explorada.

 

 

 


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