Antonio Milena

Um novo país está sendo construído
em torno
da rodovia que liga o Rio Grande do Sul ao Pará.
Uma região jovem e com capacidade surpreendente
para enfrentar desafios
Num país de dimensões
continentais como o Brasil é natural que o processo civilizatório
ocorra por etapas. A primeira fase do progresso brasileiro se
deu ao longo da costa. Por mais de três séculos,
desde que os bandeirantes avançaram sobre a Serra do Mar,
esse tem sido o centro da economia e da cultura do país.
Foi nas proximidades do litoral que se criaram as raízes
da identidade nacional. A sociedade litorânea foi solidificada
pela construção de grandes eixos de norte a sul,
como a BR-101 e a BR-116. Nas próximas vinte páginas,
VEJA trata do segundo estágio dessa evolução.
Existe no centro do país, na região que os moradores
do litoral definiam como grotões, uma nova e excitante
onda de ocupação levada a cabo pela civilização
brasileira sobre o imenso território. Num eixo imaginário
longitudinal está brotando um país herdeiro do primeiro,
mas com horizontes diferentes e talvez mais amplos. Para relatar
esse fenômeno, os repórteres de VEJA trafegaram por
mais de 10 000 quilômetros ao longo da BR-153, a Rodovia
Transbrasiliana, de Aceguá, na fronteira com o Uruguai,
até Belém, no Pará. Percorreram estradas
vicinais, conheceram dezenas de cidades, falaram com centenas
de pessoas.
A BR-153 não é a maior nem a mais
movimentada do país, mas a única que atravessa
as cinco macrorregiões. Ela é o eixo imaginário
em torno do qual se delineia um país um tanto desconhecido
dos moradores do Brasil urbano mais próximo da costa.
A maioria das cidades entre Goiás e Pará nem sequer
existia quando, em 1958, o presidente Juscelino Kubitschek abriu
as obras da Rodovia BelémBrasília, o trecho
mais conhecido da BR-153. Nessa região, a rodovia é
a alma do pioneirismo. É uma nova fronteira simbolizada
pela juventude de Palmas, a capital que tem metade de sua população
com até 18 anos. O segundo descobrimento do Brasil que
esta reportagem flagrou é um processo em franca atividade
e cheio de surpresas. No interior de Minas Gerais, satélites
mapeiam a qualidade de cada palmo do solo, multiplicando a produtividade.
Também é um Brasil que aprende a mudar de rumo.
No Pará, a devastação da Floresta Amazônica
está dando lugar ao corte seletivo de árvores.
Um Brasil em construção é o que se descobre
nas reportagens seguintes.