Edição 1 630 -5/1/2000

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O último dos generais

João Figueiredo foi o executor da abertura
e chefe do governo mais atrapalhado do regime de 64

Maurício Lima e Sílvio Ferraz

O general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que morreu de infarto na véspera do Natal, assumiu o governo com missão previamente definida. Ele recebeu de seu antecessor, Ernesto Geisel, a tarefa de executar a abertura lenta, gradual e irrestrita. Figueiredo deveria anistiar os desafetos do regime de 64, transformar em pluripartidário um sistema político que autorizava a existência apenas da Arena e do MDB e passar a faixa a um sucessor civil. "Ele já nasceu com essa missão", afirma o embaixador Roberto Campos. Sob esse aspecto, seu governo realizou um feito notável. Nenhum dos presidentes do regime militar foi tão fiel à programação original. Castello Branco entrou em 1964 para ficar dois anos, mas permaneceu três. Costa e Silva achava-se limitado pela Constituição em vigor e editou o AI-5. Sob Emílio Médici, a tortura virou instrumento oficial de trabalho anti-subversão e, no governo Geisel, o Congresso foi fechado para a edição de um conjunto de medidas eleitorais que contivesse o avanço da oposição, o chamado "Pacote de Abril".

Como sua tarefa já era conhecida, fica a impressão de que seu papel no processo de transição democrática foi praticamente decorativo. É um erro histórico acreditar nisso. A participação de Figueiredo foi fundamental no processo de abertura. Embora não tenha sido seu mentor intelectual, foi um finalizador determinado. Se fosse indisciplinado ou tivesse ambições políticas, poderia ter mudado o que já estava traçado e sabe-se lá o que teria acontecido nesse caso. O mundo não respirava ares democráticos como agora. Hoje, qualquer tentativa de golpe é prontamente rechaçada por governos de países razoavelmente civilizados. Naquela época, isso não acontecia. Ao assinar a Lei de Anistia, Figueiredo passou a conviver com figuras como Leonel Brizola, recém-chegado do exterior. Também foi o primeiro militar a enfrentar as greves e ver surgir um poderoso movimento sindical, o dos metalúrgicos do ABC, chefiado por Luís Inácio Lula da Silva. Não caiu na tentação de alterar os rumos da abertura. Lula chegou a ser preso durante o regime, mas não houve mortes nem supressão do sindicalismo. "O governo tinha como bandeira um projeto de reconstrução nacional e ainda estava forte. A prova é que, se quisesse, teria barrado a posse de Tancredo Neves", afirma o ex-ministro Jarbas Passarinho, que serviu aos governos Costa e Silva, Médici e Figueiredo.

Os militares, sem dúvida, definiram a agenda da abertura e o ritmo em que ela ocorreria, porém seria ingenuidade achar que o processo de distensão se deu inteiramente de dentro dos quartéis para fora. A sociedade enviou seguidos recados ao governo de que o regime perdera sustentação popular. Em 1974, nas eleições para o Senado, o MDB, partido de oposição, impôs uma vitória humilhante ao partido governista, Arena: 72% dos senadores eleitos. O clima de insatisfação com os abusos do regime crescia a cada dia. "Os militares organizaram a distensão de modo que não houvesse radicalismos", diz o cientista político Jarbas Medeiros, da Universidade Federal de Minas Gerais.

O general Figueiredo era conhecido pelo comportamento ciclotímico e pela paixão por cavalos. Gostava de fazer analogias com os animais. Dizia aos amigos que não queria pisar no céu porque lá só havia um cavalo, o de São Jorge, e ainda por cima pangaré. Nos últimos quinze anos lutou contra o "coice final", como chamava a morte no seu linguajar. Muitas vezes, fazia comentários que tinham mais a ver com seus tempos de cavalaria do que com a figura de um presidente. Numa dessas frases, pediu para que todos o esquecessem. Em outra, que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Durante o governo, teve inúmeros incômodos com a saúde. Logo que assumiu a Presidência, gostava de se exibir só de sunga, meias e tênis fazendo ginástica. Mas a boa forma física era só fachada. Durante o período em que esteve no poder, sofreu duas cirurgias graves e um infarto. Internou-se onze vezes para se submeter a cirurgias. Do maxilar ao coração, passando por uma trivial apendicite. Numa delas, foi até Cleveland, nos Estados Unidos, para a instalação de uma ponte de safena. Entre amigos, recordava como controlou a pressão arterial: "Esses médicos eram uns chatos. Viviam medindo minha pressão, até quando eu estava conversando. Um dia chamei o Newton (Newton Mattos, seu médico particular) e decretei: 'Ô, Newton, se a minha pressão passar de 13 por 8 você está demitido'. E ele nunca mais me chateou".

O lado folclórico não impediu Figueiredo de sofrer uma profunda impopularidade. É bem verdade que o mundo estava num processo de estagnação econômica. Mas a repercussão no Brasil foi desastrosa. A dívida externa subiu de 50 bilhões de dólares para 100 bilhões. A inflação disparou de 46% ao ano para 224%. Ele próprio, reconhecendo esse calamitoso estado de coisas, confessou a um operário: "Se eu ganhasse um salário mínimo dava um tiro no coco". Os índices econômicos e sociais demonstravam um irreconciliável divórcio com o povo. "Eu não odeio o povo brasileiro. Ele é que me odeia", chegou a dizer. E, num rasgo de autocrítica, no 23º aniversário do golpe de 1964, verbalizou o que era consenso: "A grande falha da revolução foi terem me escolhido presidente da República. Eu fiz essa abertura aí, pensei que fosse dar numa democracia, e deu num troço que não sei bem o que é". Ainda assim, bem melhor do que o governo que ele chefiou.

 

 


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