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O último
dos generais
João
Figueiredo foi o executor da abertura
e chefe do governo mais atrapalhado do regime de 64
Maurício
Lima e Sílvio Ferraz
O
general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que morreu
de infarto na véspera do Natal, assumiu o governo com
missão previamente definida. Ele recebeu de seu antecessor,
Ernesto Geisel, a tarefa de executar a abertura lenta, gradual
e irrestrita. Figueiredo deveria anistiar os desafetos do regime
de 64, transformar em pluripartidário um sistema político
que autorizava a existência apenas da Arena e do MDB e
passar a faixa a um sucessor civil. "Ele já nasceu com
essa missão", afirma o embaixador Roberto Campos. Sob
esse aspecto, seu governo realizou um feito notável.
Nenhum dos presidentes do regime militar foi tão fiel
à programação original. Castello Branco
entrou em 1964 para ficar dois anos, mas permaneceu três.
Costa e Silva achava-se limitado pela Constituição
em vigor e editou o AI-5. Sob Emílio Médici, a
tortura virou instrumento oficial de trabalho anti-subversão
e, no governo Geisel, o Congresso foi fechado para a edição
de um conjunto de medidas eleitorais que contivesse o avanço
da oposição, o chamado "Pacote de Abril".

Como sua tarefa
já era conhecida, fica a impressão de que seu
papel no processo de transição democrática
foi praticamente decorativo. É um erro histórico
acreditar nisso. A participação de Figueiredo
foi fundamental no processo de abertura. Embora não tenha
sido seu mentor intelectual, foi um finalizador determinado.
Se fosse indisciplinado ou tivesse ambições políticas,
poderia ter mudado o que já estava traçado e sabe-se
lá o que teria acontecido nesse caso. O mundo não
respirava ares democráticos como agora. Hoje, qualquer
tentativa de golpe é prontamente rechaçada por
governos de países razoavelmente civilizados. Naquela
época, isso não acontecia. Ao assinar a Lei de
Anistia, Figueiredo passou a conviver com figuras como Leonel
Brizola, recém-chegado do exterior. Também foi
o primeiro militar a enfrentar as greves e ver surgir um poderoso
movimento sindical, o dos metalúrgicos do ABC, chefiado
por Luís Inácio Lula da Silva. Não caiu
na tentação de alterar os rumos da abertura. Lula
chegou a ser preso durante o regime, mas não houve mortes
nem supressão do sindicalismo. "O governo tinha como
bandeira um projeto de reconstrução nacional e
ainda estava forte. A prova é que, se quisesse, teria
barrado a posse de Tancredo Neves", afirma o ex-ministro Jarbas
Passarinho, que serviu aos governos Costa e Silva, Médici
e Figueiredo.
Os militares,
sem dúvida, definiram a agenda da abertura e o ritmo
em que ela ocorreria, porém seria ingenuidade achar que
o processo de distensão se deu inteiramente de dentro
dos quartéis para fora. A sociedade enviou seguidos recados
ao governo de que o regime perdera sustentação
popular. Em 1974, nas eleições para o Senado,
o MDB, partido de oposição, impôs uma vitória
humilhante ao partido governista, Arena: 72% dos senadores eleitos.
O clima de insatisfação com os abusos do regime
crescia a cada dia. "Os militares organizaram a distensão
de modo que não houvesse radicalismos", diz o cientista
político Jarbas Medeiros, da Universidade Federal de
Minas Gerais.
O general Figueiredo
era conhecido pelo comportamento ciclotímico e pela paixão
por cavalos. Gostava de fazer analogias com os animais. Dizia
aos amigos que não queria pisar no céu porque
lá só havia um cavalo, o de São Jorge,
e ainda por cima pangaré. Nos últimos quinze anos
lutou contra o "coice final", como chamava a morte no seu linguajar.
Muitas vezes, fazia comentários que tinham mais a ver
com seus tempos de cavalaria do que com a figura de um presidente.
Numa dessas frases, pediu para que todos o esquecessem. Em outra,
que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Durante o
governo, teve inúmeros incômodos com a saúde.
Logo que assumiu a Presidência, gostava de se exibir só
de sunga, meias e tênis fazendo ginástica. Mas
a boa forma física era só fachada. Durante o período
em que esteve no poder, sofreu duas cirurgias graves e um infarto.
Internou-se onze vezes para se submeter a cirurgias. Do maxilar
ao coração, passando por uma trivial apendicite.
Numa delas, foi até Cleveland, nos Estados Unidos, para
a instalação de uma ponte de safena. Entre amigos,
recordava como controlou a pressão arterial: "Esses médicos
eram uns chatos. Viviam medindo minha pressão, até
quando eu estava conversando. Um dia chamei o Newton (Newton
Mattos, seu médico particular) e decretei: 'Ô,
Newton, se a minha pressão passar de 13 por 8 você
está demitido'. E ele nunca mais me chateou".
O lado folclórico
não impediu Figueiredo de sofrer uma profunda impopularidade.
É bem verdade que o mundo estava num processo de estagnação
econômica. Mas a repercussão no Brasil foi desastrosa.
A dívida externa subiu de 50 bilhões de dólares
para 100 bilhões. A inflação disparou de
46% ao ano para 224%. Ele próprio, reconhecendo esse
calamitoso estado de coisas, confessou a um operário:
"Se eu ganhasse um salário mínimo dava um tiro
no coco". Os índices econômicos e sociais demonstravam
um irreconciliável divórcio com o povo. "Eu não
odeio o povo brasileiro. Ele é que me odeia", chegou
a dizer. E, num rasgo de autocrítica, no 23º aniversário
do golpe de 1964, verbalizou o que era consenso: "A grande falha
da revolução foi terem me escolhido presidente
da República. Eu fiz essa abertura aí, pensei
que fosse dar numa democracia, e deu num troço que não
sei bem o que é". Ainda assim, bem melhor do que o governo
que ele chefiou.
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