Edição 1 630 -5/1/2000

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Polícia

Natal trágico

Ex-diretor da Caixa Econômica do governo
Collor é encontrado morto na piscina de casa

Valéria Blanc


Claudo Versiani
José Carlos: os amigos
sumiram
desde que perdeu
o cargo de diretor


O economista José Carlos Guimarães foi um burocrata vistoso em Brasília. Ex-diretor de habitação da Caixa Econômica durante o governo Fernando Collor, Guimarães era cortejado por empresários e políticos em busca de dinheiro fácil e presença requisitada nas festas da corte. O sucesso e a badalação foram conquistados em grande parte graças à sua mulher, Eunícia Guimarães, amiga e confidente da ex-primeira-dama Rosane Collor. Desde que ruiu o governo Collor, a vida do economista virou do avesso. Os amigos sumiram, ele já não conseguia manter o padrão de vida dos velhos tempos e oficiais de Justiça viviam batendo a sua porta. No dia 25, José Carlos foi encontrado no fundo da piscina de sua casa, amarrado a duas pedras e um par de halteres. Deixou no quarto uma carta para a mulher e os filhos pedindo perdão pelo ato extremo e se dizendo "cansado da vida". Mesmo convencida de que Guimarães se suicidou, a polícia segue investigando o episódio.

Distante dos antigos figurões que freqüentavam seu gabinete para sugar dinheiro, José Carlos, que tinha 53 anos, era um homem ressentido. Seus amigos contam que ele investiu mais dinheiro do que podia numa mansão na Península dos Ministros, uma das áreas mais nobres de Brasília. Vivia apenas com a aposentadoria da Caixa. A agência de viagens que montou na expectativa de ter como clientes os amigos empresários não vingou. Além disso, mostrava-se profundamente incomodado com as dezessete ações que tramitavam contra ele na Justiça, todas pedindo o ressarcimento aos cofres públicos de 60 milhões de dólares em empréstimos que teriam sido concedidos irregularmente a empresas durante sua gestão. Entre os beneficiados estavam empresas de pessoas muito próximas a Collor, como o grupo OK, do senador Luiz Estevão, e a Encol, do engenheiro Pedro Paulo de Souza. Uma semana antes de morrer, o economista foi citado em uma dessas ações. Sem dinheiro, procurou antigos colegas da Caixa para pedir assistência jurídica. Como o banco é parte interessada, os amigos nada puderam fazer. "Estou ferrado", desabafou com um deles. Um advogado que se candidatou a fazer sua defesa recebeu em troca uma relíquia da era Collor – uma caneta Mont Blanc sem tinta.

A situação econômica de José Carlos parecia ser realmente grave. Ele chegou a procurar um agiota e pediu 30.000 reais emprestado. O agiota prometeu liberar o dinheiro desde que José Carlos assinasse um documento dando sua casa como garantia de pagamento. O economista consultou amigos e ficou sabendo que o tal agiota era Juscelino Lima Soares, o mesmo que fez o ex-secretário particular do presidente Fernando Collor, Cláudio Vieira, sumir de Brasília há três anos. Ele se dizia ameaçado de morte por não conseguir pagar 1 milhão de reais de um empréstimo. Sem alternativa, a penúltima decisão do economista foi vender outra casa que tinha no Lago Sul. A Caixa Econômica, no entanto, impediu a transação. A venda só poderia ser concretizada quando todos os processos estivessem encerrados. No dia de Natal, José Carlos tomou sua última decisão. Os amigos reapareceram no enterro.

 

 

 


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