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Natal trágico
Ex-diretor da Caixa Econômica do governo
Collor é encontrado morto na piscina de casa
Valéria Blanc
Claudo Versiani
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José
Carlos: os amigos
sumiram desde
que perdeu
o cargo de diretor
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O economista José Carlos Guimarães foi um burocrata
vistoso em Brasília. Ex-diretor de habitação
da Caixa Econômica durante o governo Fernando Collor,
Guimarães era cortejado por empresários e políticos
em busca de dinheiro fácil e presença requisitada
nas festas da corte. O sucesso e a badalação foram
conquistados em grande parte graças à sua mulher,
Eunícia Guimarães, amiga e confidente da ex-primeira-dama
Rosane Collor. Desde que ruiu o governo Collor, a vida do economista
virou do avesso. Os amigos sumiram, ele já não
conseguia manter o padrão de vida dos velhos tempos e
oficiais de Justiça viviam batendo a sua porta. No dia
25, José Carlos foi encontrado no fundo da piscina de
sua casa, amarrado a duas pedras e um par de halteres. Deixou
no quarto uma carta para a mulher e os filhos pedindo perdão
pelo ato extremo e se dizendo "cansado da vida". Mesmo convencida
de que Guimarães se suicidou, a polícia segue
investigando o episódio.
Distante dos antigos figurões que freqüentavam
seu gabinete para sugar dinheiro, José Carlos, que tinha
53 anos, era um homem ressentido. Seus amigos contam que ele
investiu mais dinheiro do que podia numa mansão na Península
dos Ministros, uma das áreas mais nobres de Brasília.
Vivia apenas com a aposentadoria da Caixa. A agência de
viagens que montou na expectativa de ter como clientes os amigos
empresários não vingou. Além disso, mostrava-se
profundamente incomodado com as dezessete ações
que tramitavam contra ele na Justiça, todas pedindo o
ressarcimento aos cofres públicos de 60 milhões
de dólares em empréstimos que teriam sido concedidos
irregularmente a empresas durante sua gestão. Entre os
beneficiados estavam empresas de pessoas muito próximas
a Collor, como o grupo OK, do senador Luiz Estevão, e
a Encol, do engenheiro Pedro Paulo de Souza. Uma semana antes
de morrer, o economista foi citado em uma dessas ações.
Sem dinheiro, procurou antigos colegas da Caixa para pedir assistência
jurídica. Como o banco é parte interessada, os
amigos nada puderam fazer. "Estou ferrado", desabafou com um
deles. Um advogado que se candidatou a fazer sua defesa recebeu
em troca uma relíquia da era Collor uma caneta Mont
Blanc sem tinta.
A situação econômica de José Carlos
parecia ser realmente grave. Ele chegou a procurar um agiota
e pediu 30.000 reais emprestado.
O agiota prometeu liberar o dinheiro desde que José Carlos
assinasse um documento dando sua casa como garantia de pagamento.
O economista consultou amigos e ficou sabendo que o tal agiota
era Juscelino Lima Soares, o mesmo que fez o ex-secretário
particular do presidente Fernando Collor, Cláudio Vieira,
sumir de Brasília há três anos. Ele se dizia
ameaçado de morte por não conseguir pagar 1 milhão
de reais de um empréstimo. Sem alternativa, a penúltima
decisão do economista foi vender outra casa que tinha
no Lago Sul. A Caixa Econômica, no entanto, impediu a
transação. A venda só poderia ser concretizada
quando todos os processos estivessem encerrados. No dia de Natal,
José Carlos tomou sua última decisão. Os
amigos reapareceram no enterro.
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