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Médico e açougueiro

O anatomista Gunther von Hagens
ficou rico e famoso com suas "obras
de arte" feitas de cadáveres. Mas
está na mira da polícia

Marcelo Marthe

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Galeria de fotos: As “obras de arte” de Gunther von Hagens

No centro da arena, o cadáver de um homem de 72 anos – cuja pele adquiriu um tom azulado depois de permanecer por oito meses no formol – repousa sobre uma bancada. Usando um jaleco azul e o chapéu preto que se tornou sua marca, o mestre-de-cerimônias entra em cena com um bisturi. Depois de fazer uma incisão em forma de Y no tronco do morto, ele extrai seus órgãos: coração, pulmões, estômago, fígado e rins. Em seguida, abre seu crânio com uma serra, retira o cérebro e o coloca numa bacia. A platéia vem abaixo. Esse espetáculo mórbido ocorreu na Inglaterra no último dia 20, quando 350 pessoas disputaram a tapa ingressos para assistir a uma autópsia pública conduzida pelo anatomista alemão Gunther von Hagens. Além delas, cerca de 1,4 milhão de espectadores acompanharam o evento pela TV. Foi a mais recente empreitada de um personagem polêmico. Von Hagens é o responsável pela exposição Body Worlds ("Mundos de Corpos"), que desde 1996 já foi vista por 10 milhões de pessoas em sete países e encontra-se em cartaz em Londres e Seul, na Coréia do Sul. Suas "obras de arte" são feitas com cadáveres de verdade, que têm a pele retirada para que se revelem em detalhes os órgãos, nervos, ossos, veias e artérias. As bizarras criações de Von Hagens – apelidado de doutor Frankenstein pela imprensa britânica – fazem sucesso, mas também têm causado mal-estar. O médico está sob investigação, porque se suspeita da origem dos corpos de que ele se utiliza. Há também outra questão em jogo: aquilo que Von Hagens faz é arte ou simplesmente um show de horrores, que explora o corpo humano da maneira mais vulgar?

AFP

AUTÓPSIA NA TV
Von Hagens, na polêmica dissecação pública: exploração do mau gosto e suspeita de contrabando de cadáveres


Na exposição de Londres, pode-se ver uma mulher grávida deitada numa pose clássica, com um feto à mostra em seu ventre aberto. Outra figura é a de um homem que ergue para o céu a própria pele. Sobre um cavalo empinado, com todos os músculos à mostra, encontra-se um cavaleiro cujo corpo foi seccionado em várias partes. Von Hagens alcança tais efeitos graças a uma técnica de conservação de cadáveres que inventou no fim dos anos 70: a plastinação. Ela consiste em substituir todos os líquidos do organismo, como o sangue e a gordura, por um tipo especial de silicone. Um corpo "plastinizado" não só pode ser conservado indefinidamente como também fica livre de odores e tem as cores de seus tecidos realçadas. É um processo meticuloso e caro. Para preparar cada cadáver, consomem-se dois meses de trabalho e cerca de 140.000 reais. A invenção fez de Von Hagens um anatomista respeitado em seu meio profissional. Só que ele acabou conseguindo bem mais que isso: fez de seu ofício um trampolim para a fama e a fortuna.



UM ANATOMISTA NA RENASCENÇA
Estudo do corpo humano, por Leonardo da Vinci: o inventor e mestre da pintura também foi um precursor da anatomia. Dissecou pelo menos trinta cadáveres, numa época em que a Igreja proibia essa prática, e registrou suas observações em desenhos

Von Hagens transformou suas exposições num negócio lucrativo. Em seis anos, faturou o equivalente a 250 milhões de reais em bilheteria. Hoje com 57 anos, ele vive na cidade chinesa de Dalian, onde montou uma verdadeira indústria de conservação de cadáveres. Afirma que sua "matéria-prima" provém exclusivamente de pessoas que o autorizaram a utilizar seu corpo após a morte. Atualmente, haveria uma lista de espera com 4.500 doadores em potencial. Neste momento, no entanto, a lisura de seus negócios é colocada em dúvida. A polícia da ex-república soviética do Quirguistão acusa o médico de ser receptor de 500 cadáveres obtidos ilegalmente por uma academia de medicina do país, da qual ele é professor emérito. São corpos de prisioneiros, indigentes e deficientes mentais – uma parte dos quais estaria em exibição na mostra Body Worlds, sem autorização dos familiares. Mesmo que essa conexão se revele infundada, o fato é que Von Hagens adentrou um terreno perigoso. "Ele vem tratando cadáveres como uma mercadoria qualquer. E isso fere a dignidade humana", diz Volnei Garrafa, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. Enquanto o anatomista realizava sua autópsia pública em Londres, uma multidão protestava em frente à emissora. Até a quinta-feira passada, a polícia inglesa ameaçava detê-lo por infração ao código de ética médica do país.

Divulgação/Museu Mauritshuis/Haia

PRECURSORES DO OFÍCIO
A Aula de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt: na Holanda do século XVII, o artista pintou essa cena de dissecação sob encomenda de seus retratados. Fã do quadro, Von Hagens usa um chapéu preto, semelhante ao do personagem central, em suas aparições


Nas entrevistas, Von Hagens alega que seu trabalho tem cunho educativo. Em suas exposições, diz ele, o público pode comparar os pulmões de um fumante e de um não-fumante e ver os estragos que o álcool causa ao fígado. Trata-se de um argumento estratégico: em países como a Inglaterra, ele só pode realizar suas exposições e sair fazendo autópsias na TV se reivindicar um objetivo de divulgação científica. O anatomista nunca diz abertamente que o que faz é arte, mas é evidente que tem pretensões nesse campo. Nada modesto, Von Hagens se considera continuador de uma tradição iniciada por ninguém menos do que Leonardo da Vinci. O gênio renascentista foi um precursor da anatomia moderna: dissecou mais de trinta cadáveres numa época em que a Igreja punia severamente essa prática e produziu desenhos com base em suas observações sobre o corpo humano. Também não é à toa que usa um chapéu preto: sua fonte de inspiração é um personagem do célebre quadro A Aula de Anatomia do Dr. Tulp, do holandês Rembrandt, que retrata um grupo de médicos em torno de um cadáver durante uma dissecação. Da pintura e da escultura clássicas, Von Hagens tirou as poses de muitas de suas obras. São paródias grotescas de estátuas eqüestres, de majas desnudas, de atletas helênicos. Da arte moderna, ele parece ter tirado o desejo de chocar. Quem viu sua exposição, no entanto, afirma que o médico está mais próximo dos charlatães que dos verdadeiros artistas. "Não dá para encarar aquilo como arte: é só trucagem", disse a VEJA o crítico de arte inglês David Lee. "Tudo o que Von Hagens quer é se manter sob os holofotes."


   
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