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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
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A religião da pureza

Alface sem agrotóxicos foi só
o começo. Agora existem cervejas,
camisetas e até batons orgânicos

Roseli Loturco

O que começou há pouco mais de uma década com alfaces e tomates cultivados sem uso de substâncias químicas transformou-se num negócio mundial de 20 bilhões de dólares. Mais do que isso. O modismo dos chamados "orgânicos" virou mania, passou a culto e, mais um pouco, vai se tornar uma espécie de religião de um deus politicamente correto. Nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, onde a coisa é levada mais a sério, são vendidos cervejas, cosméticos e até roupas e ursos de pelúcia cujo grande atrativo de mercado é o fato de ter sido certificados como "produtos orgânicos". Para receber um selo desses, o artigo tem de ter sido cultivado sem uso de pesticidas ou fertilizantes químicos. Se for de origem animal, exige-se que o rebanho não tenha sido criado com crueldade nem tratado com antibióticos ou anabolizantes. Mas o que seria, por exemplo, uma "camiseta orgânica"? Além de a matéria-prima usada para confeccioná-la ter de satisfazer todos os pré-requisitos acima, a camiseta não pode ter sido produzida em fábricas que exploram o trabalho infantil, pagam salários injustos a seus funcionários ou os discriminem por raça ou sexo.

"O que leva as pessoas a buscar produtos orgânicos são expressões de valores sobre meio ambiente, de cunho espiritual e, por vezes, decisões políticas, porque acreditam estar agindo da maneira mais correta possível", explica Maria Rodale, pesquisadora americana estudiosa do fenômeno, típico de sociedades ricas que podem se dar ao luxo de escolher o tipo de algodão e de manufatura dos produtos que consomem – pelos quais aceitam pagar preços bem mais altos que os da média do mercado. No Brasil, o fenômeno começa a ganhar corpo. Os produtos agrícolas cultivados à moda politicamente correta já ocupam uma área de 300.000 hectares. As fazendas orgânicas brasileiras empregam 3.500 agricultores e faturam anualmente 250 milhões de reais. O mercado dobra a cada ano.

Nos Estados Unidos, o segmento de orgânicos vem crescendo anualmente de 15% a 20%, cinco vezes mais que o ritmo de crescimento da economia como um todo. Pesquisas indicam que 68% dos americanos consomem algum tipo de produto orgânico. Como o conceito orgânico é de difícil verificação, os abusos quase desqualificaram o rótulo. Com o tempo, surgiram órgãos certificadores que dão aos consumidores as garantias mínimas de que não estão comprando nabo por rabanete. "O consumidor está mais exigente, sabe que tem direitos e avalia com critérios se o que está comprando é orgânico de fato. Isso não acontecia no passado", afirma Dennis Ditchfield, presidente do Instituto Biodinâmico (IBD), órgão brasileiro certificador de produtos orgânicos reconhecido internacionalmente. Ditchfield observa que de cinco anos para cá o volume de informações conceituais sobre esses produtos aumentou, o que facilita o entendimento do consumidor. Em pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, em 1997, com 668 pessoas, nove em cada dez donas-de-casa brasileiras consideravam que o produto orgânico era melhor que o convencional, mas não sabiam dizer bem qual a razão de sua preferência. Hoje, apesar de ainda não representarem maioria absoluta, muitos já sabem explicar os motivos que os levam a tomar esse tipo de decisão. "Comprar um produto orgânico reflete uma filosofia de vida", diz Midori Ishii, nutricionista e professora da Universidade de São Paulo (USP). Do ponto de vista nutricional, o produto orgânico não difere muito de um outro cultivado à moda tradicional. Mas a insistência do consumidor em comprar um produto "politicamente correto" tem seu preço. O que no resto do mundo significa uma diferença entre 15% e 30% em relação ao preço dos produtos comuns no Brasil pode chegar a até 120%. "Isso ainda é devido à supervalorização dos orgânicos nos pontos-de-venda", acredita Ditchfield. "Mas essa diferença deve ceder com o tempo, e os preços no Brasil vão se aproximar dos padrões europeus."

   
 
   
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