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A religião
da pureza
Alface
sem agrotóxicos foi só
o começo. Agora existem cervejas,
camisetas e até batons orgânicos
Roseli Loturco
O que começou
há pouco mais de uma década com alfaces e tomates cultivados
sem uso de substâncias químicas transformou-se num negócio
mundial de 20 bilhões de dólares. Mais do que isso. O modismo
dos chamados "orgânicos" virou mania, passou a culto e, mais um
pouco, vai se tornar uma espécie de religião de um deus
politicamente correto. Nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, onde
a coisa é levada mais a sério, são vendidos cervejas,
cosméticos e até roupas e ursos de pelúcia cujo grande
atrativo de mercado é o fato de ter sido certificados como "produtos
orgânicos". Para receber um selo desses, o artigo tem de ter sido
cultivado sem uso de pesticidas ou fertilizantes químicos. Se for
de origem animal, exige-se que o rebanho não tenha sido criado
com crueldade nem tratado com antibióticos ou anabolizantes. Mas
o que seria, por exemplo, uma "camiseta orgânica"? Além de
a matéria-prima usada para confeccioná-la ter de satisfazer
todos os pré-requisitos acima, a camiseta não pode ter sido
produzida em fábricas que exploram o trabalho infantil, pagam salários
injustos a seus funcionários ou os discriminem por raça
ou sexo.
"O que leva
as pessoas a buscar produtos orgânicos são expressões
de valores sobre meio ambiente, de cunho espiritual e, por vezes, decisões
políticas, porque acreditam estar agindo da maneira mais correta
possível", explica Maria Rodale, pesquisadora americana estudiosa
do fenômeno, típico de sociedades ricas que podem se dar
ao luxo de escolher o tipo de algodão e de manufatura dos produtos
que consomem pelos quais aceitam pagar preços bem mais altos
que os da média do mercado. No Brasil, o fenômeno começa
a ganhar corpo. Os produtos agrícolas cultivados à moda
politicamente correta já ocupam uma área de 300.000
hectares. As fazendas orgânicas brasileiras empregam 3.500
agricultores e faturam anualmente 250 milhões de reais. O mercado
dobra a cada ano.
Nos Estados
Unidos, o segmento de orgânicos vem crescendo anualmente de 15%
a 20%, cinco vezes mais que o ritmo de crescimento da economia como um
todo. Pesquisas indicam que 68% dos americanos consomem algum tipo de
produto orgânico. Como o conceito orgânico é de difícil
verificação, os abusos quase desqualificaram o rótulo.
Com o tempo, surgiram órgãos certificadores que dão
aos consumidores as garantias mínimas de que não estão
comprando nabo por rabanete. "O consumidor está mais exigente,
sabe que tem direitos e avalia com critérios se o que está
comprando é orgânico de fato. Isso não acontecia no
passado", afirma Dennis Ditchfield, presidente do Instituto Biodinâmico
(IBD), órgão brasileiro certificador de produtos orgânicos
reconhecido internacionalmente. Ditchfield observa que de cinco anos para
cá o volume de informações conceituais sobre esses
produtos aumentou, o que facilita o entendimento do consumidor. Em pesquisa
realizada pelo Instituto Gallup, em 1997, com 668 pessoas, nove em cada
dez donas-de-casa brasileiras consideravam que o produto orgânico
era melhor que o convencional, mas não sabiam dizer bem qual a
razão de sua preferência. Hoje, apesar de ainda não
representarem maioria absoluta, muitos já sabem explicar os motivos
que os levam a tomar esse tipo de decisão. "Comprar um produto
orgânico reflete uma filosofia de vida", diz Midori Ishii, nutricionista
e professora da Universidade de São Paulo (USP). Do ponto de vista
nutricional, o produto orgânico não difere muito de um outro
cultivado à moda tradicional. Mas a insistência do consumidor
em comprar um produto "politicamente correto" tem seu preço. O
que no resto do mundo significa uma diferença entre 15% e 30% em
relação ao preço dos produtos comuns no Brasil pode
chegar a até 120%. "Isso ainda é devido à supervalorização
dos orgânicos nos pontos-de-venda", acredita Ditchfield. "Mas essa
diferença deve ceder com o tempo, e os preços no Brasil
vão se aproximar dos padrões europeus."
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