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"Eu odeio celular"
Acredite:
há quem ache melhor
viver
sem o aparelhinho
Paula Neiva
Antonio Milena
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| O
empresário Beraldo: "Livrei-me de um fardo" |
Basta
olhar para os lados. Ele está em todo canto. Quando toca num restaurante,
é um deus-nos-acuda. Os homens reviram os bolsos e as mulheres
vasculham as bolsas à procura do aparelhinho: "Alô? Alô?".
Os espalhafatosos berram como se estivessem sozinhos em casa, sem a menor
cerimônia. Os mais discretos tentam disfarçar a conversa,
virando-se para o lado ou colocando a mão sobre a boca. Mas todos
falam. Para boa parte dos brasileiros, a vida é impensável
sem um telefone celular. De 1990 para cá, o número deles
saltou de menos de 700 para quase 32 milhões. Ocorre que, como
toda devoção, a religião do celular começa
a ter seus hereges. São pessoas que acreditam que é melhor
viver sem o aparelhinho. Elas estão ao alcance pelo telefone apenas
quando se encontram em casa ou no trabalho. Do contrário, só
mesmo com a ajuda de um pombo-correio.
| O empresário
paulista Marcelo Beraldo tinha no celular um artigo de primeiríssma
necessidade. Até que percebeu que não era tão
ruim assim passar algumas horas do seu dia fora do ar. "Livrei-me
de um fardo. Agora, eu me sinto mais livre", diz Beraldo. O celular
estava levando o modelo carioca Ângelo Aguiar, de 26 anos, à
loucura. "Não suportava mais ter de parar o que estava fazendo
para atender o telefone", conta. Para os "sem-celular", é indescritível
o prazer de saber que não estão disponíveis para
qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar (veja quadro).
Mas até que ponto a culpa é da tecnologia? |
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A verdade
é que, em geral, aposentar o telefone portátil é
uma medida drástica tomada por quem não consegue controlar
de jeito nenhum seus impulsos comunicativos e tem o bom senso de
encarar isso como um problema. Para disfarçar essa incapacidade,
muitos passam a falar em "ditadura do celular", uma asneira de uso muito
corrente nas esquálidas universidades brasileiras. Para quem quiser
justificar de maneira mais espirituosa a decisão de abandonar o
aparelhinho, recomenda-se a leitura do ensaio Como Não Usar
o Telefone Celular, do escritor italiano Umberto Eco, um anticelular
convicto. Ele diz que apenas certas categorias de pessoas realmente necessitam
de um telefone desse tipo. São elas: os doentes, os médicos,
os bombeiros e os adúlteros. Para estes últimos, o aparelho
seria indispensável "para receber ligações do parceiro
secreto sem que os familiares, as secretárias ou os colegas mal-intencionados
possam interceptar o telefonema". Ou seja, como você não
é doente, médico, bombeiro nem adúltero...
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