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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
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"Eu odeio celular"

Acredite: há quem ache melhor
viver sem o aparelhinho

Paula Neiva

 
Antonio Milena
O empresário Beraldo: "Livrei-me de um fardo"


Basta olhar para os lados. Ele está em todo canto. Quando toca num restaurante, é um deus-nos-acuda. Os homens reviram os bolsos e as mulheres vasculham as bolsas à procura do aparelhinho: "Alô? Alô?". Os espalhafatosos berram como se estivessem sozinhos em casa, sem a menor cerimônia. Os mais discretos tentam disfarçar a conversa, virando-se para o lado ou colocando a mão sobre a boca. Mas todos falam. Para boa parte dos brasileiros, a vida é impensável sem um telefone celular. De 1990 para cá, o número deles saltou de menos de 700 para quase 32 milhões. Ocorre que, como toda devoção, a religião do celular começa a ter seus hereges. São pessoas que acreditam que é melhor viver sem o aparelhinho. Elas estão ao alcance pelo telefone apenas quando se encontram em casa ou no trabalho. Do contrário, só mesmo com a ajuda de um pombo-correio.


O empresário paulista Marcelo Beraldo tinha no celular um artigo de primeiríssma necessidade. Até que percebeu que não era tão ruim assim passar algumas horas do seu dia fora do ar. "Livrei-me de um fardo. Agora, eu me sinto mais livre", diz Beraldo. O celular estava levando o modelo carioca Ângelo Aguiar, de 26 anos, à loucura. "Não suportava mais ter de parar o que estava fazendo para atender o telefone", conta. Para os "sem-celular", é indescritível o prazer de saber que não estão disponíveis para qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar (veja quadro). Mas até que ponto a culpa é da tecnologia?

A verdade é que, em geral, aposentar o telefone portátil é uma medida drástica tomada por quem não consegue controlar de jeito nenhum seus impulsos comunicativos – e tem o bom senso de encarar isso como um problema. Para disfarçar essa incapacidade, muitos passam a falar em "ditadura do celular", uma asneira de uso muito corrente nas esquálidas universidades brasileiras. Para quem quiser justificar de maneira mais espirituosa a decisão de abandonar o aparelhinho, recomenda-se a leitura do ensaio Como Não Usar o Telefone Celular, do escritor italiano Umberto Eco, um anticelular convicto. Ele diz que apenas certas categorias de pessoas realmente necessitam de um telefone desse tipo. São elas: os doentes, os médicos, os bombeiros e os adúlteros. Para estes últimos, o aparelho seria indispensável "para receber ligações do parceiro secreto sem que os familiares, as secretárias ou os colegas mal-intencionados possam interceptar o telefonema". Ou seja, como você não é doente, médico, bombeiro nem adúltero...

 

   
 
   
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