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Terapia da alma
Como
o Re Vida, um grupo de
apoio a pacientes de
câncer, ajuda
a diminuir a solidão da doença
Anna Paula
Buchalla
Frederic Jean
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"Não
há experiência mais solitária do que a do câncer. É difícil dizer
isso, mas nesse momento as pessoas da família são quase um incômodo.
Elas se esforçam para agradar, sem entender que o que você precisa
mesmo é entender o que você tem."
Hector Babenco, cineasta |
Um dos efeitos
colaterais do câncer é a solidão. Explica-se: como
o diagnóstico da doença ainda é interpretado como
uma inapelável sentença de morte, o paciente vê-se
entregue à própria sorte. Para completar, ele se crê
vítima de uma maldição divina ou culpado por ter
gerado o tumor que o consome está-se falando aqui do mito
de que o câncer é conseqüência de emoções
reprimidas e bobagens que tais. Atormentado por esses sentimentos, é
comum que o doente se isole. Para tirá-lo dessa redoma de angústia,
é importante que ele conte com algum tipo de apoio psicológico.
Um dos trabalhos mais notáveis nesse sentido é o que vem
sendo realizado pelo grupo Re Vida, em São Paulo. Seus criadores
partem de um princípio simples o de que só quem passou
pela doença é capaz de compreender integralmente a dor do
outro e de uma conclusão que soa paradoxal: a de que a família,
em tais casos, não é a mais indicada para ajudar. Por isso
mesmo, o Re Vida não envolve os parentes do doente. "Em família,
emoções antigas acabam se confundindo com dados de realidade,
o que só prejudica o trabalho", diz o psicoterapeuta Edmundo Barbosa,
diretor do Re Vida.
Fotos André Penner
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"Ficar
face a face com a morte é uma carga pesada demais para carregar sozinho.
A ajuda psicológica ensina a dividir a dor. Essa é também uma trajetória
de cura. A cura dos medos, da solidão."
Priscilla Coutinho Pereira, tradutora
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A base das
atividades promovidas pelo grupo de apoio é a troca de experiências
entre os pacientes e aqueles que conseguiram se livrar do câncer.
"Quando estava doente, meus amigos e familiares representavam quase um
incômodo. Eu via o esforço que eles faziam para me ajudar,
mas no fundo o que eu queria era entender o que eu tinha e sentia. O Re
Vida me ajudou muito a percorrer esse caminho", diz o cineasta Hector
Babenco, que venceu um câncer no sistema linfático. Há
cerca de quatro meses, o enfermeiro paulista Carlos Más, de 46
anos, recebeu a notícia de que tinha um câncer no intestino.
"Tenho quatro filhos, um deles com 4 anos. Não é fácil
ver que as pessoas que você ama estão sofrendo por você",
diz ele, que encontrou alívio no Re Vida.
O grupo
foi criado há catorze anos por especialistas em psicoterapia oncológica
e por pacientes que superaram a doença. Seu método é
uma combinação de experiências americanas bem-sucedidas,
como as do Cancer Support and Education Center e do Commonweal, que têm
sede na Califórnia. Em sessões semanais de psicoterapia
de grupo, durante quatro meses, o paciente disseca seus medos. Duas vezes
ao ano é feito um retiro em uma fazenda no interior de São
Paulo, onde os pacientes têm alimentação especializada,
sessões de ioga, relaxamento, massagem e meditação.
"Só quem enfrentou o pânico do diagnóstico, o medo
de abrir o resultado dos exames, os enjôos, a perda de cabelos sabe
como esses encontros injetam ânimo", diz Virginia Garcia de Souza,
uma das fundadoras do grupo.
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| Retiro
de pacientes de câncer em uma fazenda: natureza, meditação, relaxamento
e muita conversa |
O Re Vida
tem uma concepção diferente, talvez mais elaborada, mas
os grupos de apoio tradicionais também são bastante efetivos.
"Em geral, esses grupos têm a grande vantagem de dar ao paciente
a real dimensão do problema que ele vive", afirma Sergio Simon,
oncologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. A tradutora
fluminense Priscilla Coutinho conhece bem a importância desse tipo
de trabalho. Aos 40 anos, ela enfrenta o seu terceiro tumor. "O diagnóstico
de câncer é um fardo pesado demais para ser carregado sozinho",
diz ela. "A ajuda psicológica ensina a dividir a dor, o que não
deixa de ser uma forma de cura a cura dos medos e da solidão."
O câncer é uma solidão de multidões. Só
neste ano, cerca de 340.000 brasileiros ouviram
a notícia de que estão doentes, segundo dados do Instituto
Nacional do Câncer. Graças aos avanços nos métodos
de diagnóstico e tratamento, 60% dos casos têm solução
se flagrados em estágio inicial. A doença já não
é necessariamente uma sentença de morte.
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