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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
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Só mesmo ele

Presidente eleito critica a ação
dos antigos companheiros e os
convoca para trabalhar

Maurício Lima

 
Antonio Gauderia/Folha Imagem
Lula e os sindicalistas: hora de pensar no Brasil

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Os adversários do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva elaboraram uma máxima durante a campanha: a aparência suave e o tom conciliador das propostas do candidato petista não passavam de um lance de marketing. O verdadeiro Lula, radical e sectário, só iria aparecer depois das eleições. Pelo que se viu até agora, esse Lula foi de fato colocado para hibernar sem data para retorno. Lula, ainda durante a transição, tem enfrentado questões delicadas, como as pressões para o aumento do salário mínimo, a necessidade do futuro governo de puxar para cima as alíquotas do imposto de renda e a necessidade também de honrar os contratos com o FMI, com a mesma serenidade com que o faria o atual ministro Pedro Malan, da Fazenda. Na semana passada, Lula ultrapassou de longe o que poderiam ousar Malan e Fernando Henrique se somassem suas forças. Para uma platéia em que estavam presentes as maiores lideranças sindicais do país, os velhos companheiros, como o presidente eleito gosta de dizer, Lula defendeu a reforma da Previdência, combateu as reivindicações permanentes por aumentos de salário e, por fim, criticou a atuação dos próprios sindicatos. "Estamos em um momento em que precisamos de menos bravata e mais competência", disse o presidente eleito. "O movimento sindical precisa acabar com essa história de só funcionar na época da data-base e depois ficar um ano sem ter o que fazer."

Só mesmo um presidente que veio do meio sindical e da esquerda teria respaldo ideológico e político para colocar esse freio nos sindicalistas de maneira tão dura e explícita. Qualquer outro de seus concorrentes na eleição, José Serra, Ciro Gomes ou Anthony Garotinho, seria provavelmente acusado de conspirar contra as conquistas dos trabalhadores. Ao contrário do que era esperado, o presidente eleito, que presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, nem sequer se deu ao trabalho de suavizar suas críticas com algumas menções favoráveis ao corporativismo sindical brasileiro. Aproveitou a identidade com a maioria dos presentes para cobrar coerência, sacrifícios e mostrar que ser governo é bem mais difícil do que ficar na porta de fábrica pedindo aumentos ao patrão. "Que diabos de sindicalistas revolucionários somos nós, que só sabemos pedir o bem-bom onde já está mais ou menos bom?", disse Lula. Depois do desnudamento impiedoso das práticas sindicais correntes no Brasil, Lula saiu aplaudido do encontro. Surpreendente.

 
 
   
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