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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
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A rebelião dos tucanos

Governadores eleitos se reúnem
com
Lula, fazem reivindicações
e anunciam
que o comando do
partido é deles

Malu Gaspar

 
Armando Favaro/AG. Estado
José Aníbal, o presidente do partido, não foi convidado para a reunião

Primeiro foram os governadores do PMDB que se rebelaram contra a proposta das lideranças do partido de fazer oposição sistemática ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada foi a vez de os tucanos se insurgirem. À revelia de seus comandantes, os sete governadores eleitos do PSDB se reuniram com Lula na cidade de Araxá, em Minas Gerais. Elaboraram uma extensa pauta de reivindicações e anunciaram que estão dispostos a apoiar o governo nas votações dos projetos que o PT pretende implementar ainda durante o processo de transição. O encontro foi pautado pela cordialidade. O deputado Aécio Neves, eleito governador de Minas e que desde o primeiro turno das eleições já deixava cair uma asa para a candidatura petista, foi aguardar Lula no aeroporto. O presidente eleito, completamente à vontade, disse que se sentia entre amigos e lembrou os tempos em que muitos ali aproveitavam as folgas na Constituinte para jogar futebol. No final da reunião, os tucanos divulgaram uma nota anunciando a consolidação de uma parceria com o futuro governo e afirmando que o partido fará uma oposição responsável.

Assim como no PMDB, o que está por trás desse cenário de entendimento é a disputa pelo comando do partido. Tanto que o resultado mais visível da reunião foi o bate-boca que se seguiu entre os próprios tucanos. Desde o final das eleições, há uma disputa de bastidores pelo espólio do PSDB. Algumas lideranças defendem a oposição sistemática. Chegaram a propor reajustes para o salário mínimo e redução de alíquotas de imposto de renda – o discurso fácil que até ontem pertencia à oposição e, mais particularmente, aos petistas. Outra parte, capitaneada agora pelos governadores eleitos, tendo o deputado Aécio Neves na proa, não quer afastar-se do futuro governo, pelo menos por agora. Olhando muito à frente, Aécio trabalhou em silêncio para organizar o encontro de Araxá. A reunião atendia a interesses dos dois lados. Para Lula, significava a abertura de mais um canal de negociação que pode render apoios importantes no futuro. Para o grupo de governadores tucanos, uma demonstração de força e prestígio dentro de seu partido. A certa altura, um jornalista perguntou a Aécio se ele não temia que aquela reunião dos governadores com Lula contrariasse a cúpula do tucanato. "A cúpula agora somos nós", devolveu Aécio Neves.

 
José Paulo Lacerda/AE
Os governadores eleitos do PSDB com o presidente Lula em Minas Gerais: "A cúpula agora somos nós"

O recado chegou ao destino. O presidente do partido, deputado José Aníbal, ficou tão bicudo quanto um tucano verdadeiro. Um dos principais colaboradores de José Serra durante a campanha, Aníbal pertence ao grupo que quer levar o PSDB para a oposição radical. Na véspera do encontro, ele até chegou a anunciar que o partido criaria uma comissão técnica para fiscalizar o governo petista. Percebendo o movimento dos dissidentes, telefonou para Aécio e reclamou. Ou a executiva do PSDB também seria convidada ou a reunião não deveria acontecer. Aécio disse que falaria com os colegas. O presidente do partido ainda tentou, sem sucesso, convencer alguns governadores a desistir de participar. "Só fomos informados da presença de Lula na última hora", encenou o governador Marconi Perillo, de Goiás, com ar de surpresa. Outros foram direto ao assunto: "Eles (José Aníbal e aliados) perderam a eleição, levaram o partido à derrota. Agora, devem deixar que quem tem voto conduza o PSDB", disse Ivo Cassol, o governador eleito de Rondônia.

A aliança entre governadores tucanos e o governo do PT é apenas o primeiro movimento de um intrincado jogo de xadrez. Por enquanto, a trégua interessa aos dois lados. Atolados em dívidas, os governadores necessitam das benesses federais para manter o orçamento saudável. Ansioso para formar maioria, o novo governo precisa das bancadas controladas pelos governadores para aprovar projetos de lei e emendas constitucionais. Um governador de Estados como São Paulo e Minas Gerais tem sob seu controle uma bancada de quase cinqüenta deputados. As conveniências de momento vão, no entanto, dar lugar a uma renhida disputa tão logo os interesses de ambos os partidos – PSDB e PT – sejam confrontados. Hoje, as duas legendas são as que têm os mais sólidos projetos de poder. Basta lembrar que nas últimas três eleições tucanos e petistas foram os principais protagonistas. Além disso, a estratégia final, tanto de Aécio Neves como do governador paulista Geraldo Alckmin, é se cacifar para disputar a Presidência da República daqui a quatro anos. Por enquanto, vale a pena se distanciar da marca José Serra. Mais adiante, será a vez de bater firme em Lula e no PT.

 
 
   
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