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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
Entrevista: José María Aznar

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Como
ficar rico

Primeiro-ministro explica como
a Espanha saltou para o Primeiro
Mundo em apenas uma geração
e ainda cresce mais que o resto
da Europa

Raul Juste Lores

José María Aznar é primeiro-ministro da Espanha há seis anos. Nesse período, seu país se transformou no maior investidor europeu no Brasil, com mais de 26 bilhões de dólares aplicados aqui. Aznar zerou o déficit público, garantiu um crescimento médio de 3% ao ano, mais que o dobro da média da União Européia, e também baixou o desemprego de escandalosos 22% para 11%, índice alto, mas razoável para os padrões europeus. Quando assumiu, poucos apostavam em tanto sucesso. Faltavam-lhe o charme e o carisma do antecessor, o socialista Felipe González, que governou a Espanha por treze anos. O que aconteceu foi que os espanhóis aprovaram seu estilo discreto e o reelegeram, dois anos atrás, com maioria no Parlamento. Aznar era um solitário governante conservador numa Europa majoritariamente socialista. Hoje ele é a figura mais destacada da direita moderna que governa alguns dos países mais importantes, como a França. Advogado, ex-fiscal da Receita, o primeiro-ministro é casado com a bonita e extrovertida Ana Botella e tem três filhos. Aznar recebeu VEJA para esta entrevista no Palacio de la Moncloa, em Madri.

Veja – O desemprego na Espanha foi reduzido à metade nos últimos seis anos e o crescimento da economia se mantém bem acima da média européia. Qual a receita desse sucesso econômico?
Aznar – A receita consiste em garantir a manutenção da estabilidade econômica. Consegue-se isso com uma sólida abertura ao exterior e com a promoção de reformas na legislação trabalhista e na tributária. Essa economia mais flexível e competitiva gera crescimento e, por conseqüência, empregos. Quando assumi, em 1996, o desemprego na Espanha chegava a 22%. Hoje, está em 11%. Criar empregos é a melhor política social que existe. Na verdade, graças ao crescimento econômico foi possível melhorar ainda mais o estado de bem-estar social. Com as contas do governo saneadas, pode-se aumentar o valor das aposentadorias e tornar mais eficientes o sistema de saúde e o de educação. Não teria sido possível conseguir tudo isso com políticas populistas ou com o endividamento público.

Veja – O senhor conversou longamente com o presidente eleito Lula, logo depois da vitória dele. Que conselhos lhe deu?
Aznar – Não dei nenhum conselho. O Brasil é um país fundamental no mundo, e desejo sinceramente o sucesso de Lula. O êxito de seu governo é muito importante para as Américas e, portanto, para o mundo. Seria um bom sinal para toda a região. Acho que Lula sabe muito bem o que fazer. É evidente que a estabilidade e a credibilidade são as bases necessárias para o crescimento e a prosperidade, para a criação de riquezas e para a solução dos problemas sociais.

Veja – Lula costuma citar o Pacto de Moncloa, o acordo entre partidos, empresários e sindicatos espanhóis após o fim da ditadura franquista, como um exemplo de transição. Que lições os brasileiros podem tirar desse pacto?
Aznar – O Pacto de Moncloa foi a expressão de um compromisso, assumido por todas as forças políticas e sociais, de olhar apenas para o futuro. Não se deve deixar que os problemas do passado nos impeçam de assentar as bases essenciais de uma política econômica de desenvolvimento. Cada um dos participantes precisou renunciar a alguma coisa para que todos pudessem ganhar. Nesse sentido, o exemplo espanhol é muito positivo e pragmático.

Veja – Neste ano, pela primeira vez em uma década, diminuíram os investimentos espanhóis na América Latina. Quando eles voltarão?
Aznar – O investimento espanhol na América Latina é um investimento estratégico. Vai ser mantido de qualquer maneira, apesar da crise argentina. A Espanha tinha investido 4,5 bilhões de dólares na região de 1990 a 1995. Nos cinco anos seguintes, foram 108 bilhões de dólares. Estamos no Brasil para ficar. Confiamos no futuro do país e em sua capacidade de desenvolvimento. As empresas espanholas estão dispostas a fazer as contribuições necessárias para ajudar.

Veja – Como a América Latina pode se desenvolver?
Aznar – A situação na América Latina é difícil. Mas é melhor do que foi alguns anos atrás. Há mais democracia, as instituições são mais fortes e foram feitas algumas reformas importantes. Só falta prosseguir nesse caminho. Nada acontece por acidente. Quem acreditaria, cinco anos atrás, que a Espanha seria um exemplo de estabilidade econômica e que a Alemanha teria sérios problemas de déficit? O continente precisa de maior coesão e objetivos históricos a médio prazo. O presidente Fernando Henrique Cardoso definiu bem isso na última cúpula ibero-americana, na República Dominicana. Ele dizia que, durante muito tempo, o Brasil não queria saber nada sobre seus vizinhos. Agora, sabe que necessita deles. É uma grande mudança. Faz falta aos latino-americanos a existência de países líderes. Vejo o Brasil como um país com essa vocação para ser o líder.

Veja – Os países latino-americanos crescem pouco, mas enfrentam enormes barreiras dos países ricos. Como é possível competir com o protecionismo?
Aznar – Pessoalmente, acredito em um mundo baseado nas relações de livre-comércio. Mas acho que há outras prioridades no caminho do desenvolvimento. O fim dos subsídios agrícolas europeus não é a pedra filosofal do crescimento latino-americano. Mesmo quando não havia subsídios, alguns países cresciam e outros não. O primeiro passo para o desenvolvimento é fazer as lições de casa. Isso significa promover reformas estruturais, que ninguém vai fazer por eles.

Veja – Os Estados Unidos e a Alemanha vão aumentar o déficit público como um instrumento para reanimar a economia. Mas o FMI não aceita que o Brasil use o mesmo recurso. Por que a receita prescrita para os brasileiros é mais amarga?
Aznar – A necessidade de sair de uma recessão ou de uma crise econômica não é desculpa para o aumento do gasto público ou para o endividamento. Os Estados Unidos e a Alemanha são países muito diferentes do Brasil. São a primeira e a terceira maiores economias do mundo e não têm a credibilidade em jogo. Para outros países, a combinação déficit e endividamento pode ser fatal. A Espanha possui hoje equilíbrio orçamentário, déficit zero, e estamos contentes por isso. É o que nos permitiu reduzir os juros, atrair e promover novos investimentos. Essa é realmente a única receita para o crescimento.

Veja – O desenvolvimento econômico da Espanha deve ser creditado ao fato de o país ter a ajuda da União Européia?
Aznar – A economia espanhola deu três grandes saltos de progresso nos últimos quarenta anos. O primeiro nos anos 60. O segundo, quando entramos para a União Européia, em 1986. O terceiro desde 1996. Os três coincidiram com grandes aberturas do país ao exterior. Há vinte anos, a Espanha recebia ajuda oficial para o desenvolvimento. Hoje, é o sétimo país que mais ajuda países em desenvolvimento. Somos o sexto que mais faz investimentos no mundo e o primeiro entre os europeus na América Latina. Só perdemos para os Estados Unidos.

Veja – Por que o crescimento econômico dos países da União Européia é tão pequeno?
Aznar – Não temos problemas de estabilidade, mas de crescimento. Para superá-los, as economias deveriam ser mais liberais. Muitos países ainda não fizeram as reformas fiscais e trabalhistas que lhe dariam maior competitividade. Os países mais flexíveis são os que mais progridem. Nós baixamos duas vezes o valor dos impostos sem diminuir a arrecadação. Isso porque as empresas prosperam e a base de onde se arrecada cresceu.

Veja – A centro-direita tem vencido as eleições na maioria dos países da União Européia. O que isso significa?
Aznar – Não acredito nos velhos debates ideológicos. Acredito em resultados. Quando se quer só ficar queixando-se dos problemas, como faz a esquerda européia, obtêm-se maus resultados eleitorais. A situação tem sido diferente para aqueles que estão dispostos a assumir os desafios e a tomar decisões difíceis, às vezes incompreendidas a princípio. No final, a coerência e a clareza sempre dão bons resultados. A melhor política social é aquela que consegue criar empregos. Quando se tenta consertar as coisas apenas com subsídios, a situação se complica.

Veja – A Espanha exportava mão-de-obra barata até os anos 70. Hoje, muitos espanhóis querem fechar o país aos imigrantes. Como a Espanha deve lidar com os trabalhadores estrangeiros?
Aznar – Viramos um país próspero, e muita gente vem participar dessa prosperidade, trabalhar por ela. É uma das grandes mudanças. De um país de emigrantes para um que recebe imigrantes. Em cinco anos, cresceu de 300.000 para 1,5 milhão o número de imigrantes em condição legal. É um sinal de prosperidade. Devemos recebê-los com a mesma generosidade com que os espanhóis foram acolhidos em tantos países. Quando recebemos um latino-americano, estamos recebendo alguém da família.

Veja – O senhor não teme pelo crescimento da xenofobia na Espanha, como em tantos países europeus?
Aznar – Não, de maneira alguma. Até agora, não houve nenhum problema grave. Faz falta, contudo, que os fluxos migratórios no mundo sejam ordenados, que não dependam da clandestinidade.

Veja – As relações da União Européia com os Estados Unidos azedaram devido às discordâncias em relação ao Iraque. Esse distanciamento vai aumentar?
Aznar – A União Européia e os Estados Unidos têm muito a ganhar se encontrarem pontos de entendimento. E têm muito a perder, sobretudo a Europa, se procurarem o confronto. Isso não significa dar sempre razão aos Estados Unidos, mas ter bem claro que é bom trabalhar de comum acordo com eles nas questões de segurança e no desenvolvimento do mundo. Os Estados Unidos salvaram a Europa em quatro ocasiões no século XX. Na I e na II Guerra, com o Plano Marshall e com a queda do Muro de Berlim. Não é pouca coisa. A Europa deve assumir responsabilidade sobre a própria segurança, mas a partir de um sólido entendimento com os Estados Unidos. Em conjunto, americanos e europeus devem irradiar normas internacionais baseadas na liberdade, no livre-comércio e no respeito à democracia e aos direitos humanos. A vida política oferece oportunidades e riscos. Pode-se optar pelo caminho europeu ocidental, da democracia e da prosperidade. Ou não. Todos sabem onde, no mundo, está o desenvolvimento.

Veja – Se os Estados Unidos atacarem o Iraque, o senhor manterá seu apoio?
Aznar – O regime de Saddam é obrigado pelas resoluções da ONU a se desarmar. A chegada dos inspetores internacionais ao Iraque não é o fim de uma situação, é o começo de um trabalho. Se o Iraque tivesse cumprido suas obrigações, não teríamos chegado a essa situação. A bola está no campo do Iraque. Temos agora de esperar e ser conseqüentes com a resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança. Ninguém gosta de guerras, com exceção dos que as declaram. Aliás, as democracias não declaram guerras, elas simplesmente se defendem. Não existe o conceito de democracia agressiva, mas, sim, o de regimes tirânicos e ameaçadores. Uma parte do antiamericanismo que existe hoje na Europa tem um componente ideológico primário, de que eu não compartilho.

Veja – A Espanha sofre com o terrorismo dos separatistas bascos do ETA há trinta anos e parece longe de derrotá-lo. Por que é tão difícil vencer o terror?
Aznar – O terrorismo não tem solução imediata ou fácil. Ele opera com o medo, com a intimidação, com a extorsão. As pessoas temem falar, temem manifestar-se. Com o terrorismo, não se pode transigir. Ele ameaça os valores democráticos, da liberdade e a própria convivência. O destino lógico para o terrorismo é sua derrota. Se uma democracia vacila, se um estado de direito se ajoelha, se a lei não se aplica, se o terror é capaz de impor as normas internacionais, as democracias correm risco de desaparecimento, e o mundo ficará muito mais inseguro. A lei do terror terá se apropriado dele. A responsabilidade das democracias é enorme.

Veja – O senhor foi vítima de um atentado terrorista em 1995, quando o ETA colocou 70 quilos de dinamite em seu carro. Sua vida mudou muito depois do atentado?
Aznar – Minha vida cotidiana não mudou nada. Mas agora comemoro dois aniversários, um do dia em que nasci, outro do dia em que deixei de morrer. Minhas convicções não foram alteradas. Continuo tendo as mesmas opiniões sobre o terrorismo, por isso tentaram me matar. Minha família está acostumada a essas coisas, com uma fortaleza admirável. O que não podemos nunca é nos esquecer das vítimas. Gente que morreu por defender a liberdade, a Constituição, a convivência pacífica entre os espanhóis. Muita gente foi assassinada na Espanha pela liberdade de pensar.

Veja – O senhor anunciou que deixará o cargo em 2004, depois de dois mandatos. Em que situação o senhor voltaria a se candidatar?
Aznar – Se estivermos diante de um conflito bélico às nossas portas, se ocorrer alguma das pestes bíblicas, alguma calamidade, teria de enfrentá-las. Minha decisão é categórica, não serei candidato em 2004. Não me preocupo muito com o que vou fazer depois. A vida não começa nem termina na política.

 
 
   
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