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O "ele" que é
"eu"
e o "eu" que é "ele"
Algumas
suposições sobre o curioso hábito
de falar de si próprio na terceira pessoa
O governador eleito
do Rio de Janeiro se chama de Garotinho. Não, não se
está dizendo que ele se chama Garotinho. Isso já seria
suficientemente bizarro, mas é fato tão bem conhecido
que não mais se estranha. Ele se chama de Garotinho,
vale dizer, quando se está referindo a si próprio, usa
a terceira pessoa. Diz: "O Garotinho vai cumprir
suas promessas", "O Garotinho tem o melhor
programa de segurança para o Rio", "O
Garotinho não aprova o modelo econômico em vigor".
É como se ele estivesse falando não de si mesmo, mas de
outro. É um curioso hábito, esse. Revelaria quem sabe
uma expansão do ego, de forma a localizá-lo não apenas
dentro da pessoa, mas projetá-lo para fora. Ou, ao
contrário, revelaria uma tal retração do ego que a
pessoa o projetaria para fora pelo motivo de não
suportá-lo, dentro?
Garotinho não
está sozinho. O paulista Paulo Maluf, outro que disputou
as últimas eleições para governador, tem o mesmo
costume. "O Maluf é um grande tocador de
obras", diz ele. "Nestes tempos de crise,
precisamos de alguém como o Maluf." Um terceiro
brasileiro ilustre com o mesmo cacoete é Pelé, o grande
Pelé, o cidadão Edson Arantes do Nascimento. Ele
também se refere a si próprio como "Pelé", e
ocasionalmente como "Édson". Que leva uma
pessoa a tratar-se como se fosse outra? Por que razões
ela como que se divide em duas, uma que fala e outra
sobre a qual fala, assumindo os papéis de sujeito e
objeto ao mesmo tempo?
Um clássico desse tipo de procedimento
encontra-se, com todo o respeito, na Bíblia. Ali, Deus, o Jeová
do Antigo Testamento, refere-se a si próprio, freqüentemente, por "Jeová".
Numa de suas ordens a Moisés, por exemplo, diz para os israelitas se aprontarem
"porque depois de amanhã Jeová descerá aos olhos de todo o povo sobre
a montanha do Sinai" (Êxodo, 19, 11). Noutra ocasião,
também falando a Moisés, diz: "Todo este povo, no meio do qual estás,
verá a obra de Jeová, porque coisa temível é o que vou fazer contigo"
(Êxodo, 34, 10). A Deus, na verdade, cabe perfeitamente falar
assim porque Deus é tudo. É sujeito e objeto. Sua identidade está envolta
em mistério, como indicam as palavras com que se define ao mesmo Moisés:
"Eu sou aquele que é" (Êxodo, 3,14).
Os míseros seres
humanos que se utilizam do mesmo estratagema, estariam
eles pensando que são Deus? Não nos casos citados.
Garotinho não pensa que é Deus. Nem ele nem Maluf. São
ambos homens religiosos, que não cometeriam tal
sacrilégio. Nem mesmo Pelé, que teria mais razões para
isso, pensa que é Deus. Em Pelé o hábito de tratar-se
na terceira pessoa é mais compreensível. De certa forma
ele é, realmente, duas pessoas uma o inigualável
rei dos estádios, o atleta do século, e outra o homem
comum, de terno e gravata, o simples Edson que casa,
descasa, tem filhos e, ocasionalmente, pode até ser
ministro. Compreende-se, assim, que quando está no papel
de Édson se refira ao "Pelé", e, quando no de
Pelé, se refira ao "Édson".
Outros, sem as
mesmas razões de Pelé, talvez mantenham o mesmo hábito
por modéstia. As pessoas modestas não gostam de falar
de si. Seria por pudor, então vamos dar-lhes o
benefício dessa suposição , que se refeririam a
si mesmas como se fossem outra pessoa. A intenção seria
poupar o constrangimento de a toda hora estar dizendo
"eu": "eu isso", "eu
aquilo"... Daí o "Maluf isso",
"Maluf aquilo", na boca do próprio Maluf, ou
"Garotinho isso", "Garotinho aquilo",
na de Garotinho. O "eu", ainda mais dito por um
governante, pode assumir proporções de avassaladora
imodéstia. É o caso da frase "O Estado sou
eu", dita pelo rei Luís XIV. Se tivesse dito
"O Estado é o rei", ou mesmo "o Estado é
o rei Luís XIV", fórmulas que na prática têm
igual significado, teria colocado a questão dentro de
limites mais aceitáveis institucionais, não
pessoais.
Na hipótese
contrária, as pessoas que se referem a si mesmas pelo
próprio nome estariam como que embriagadas de si mesmas.
Assim como o adolescente que se apaixona não cansa de
dizer o nome da amada, escrevê-lo no papel e gravá-lo
nas árvores, assim também a pessoa apaixonada por si
mesma não se cansaria de pronunciar o próprio nome.
Haveria algo de amoroso no "Garotinho" saído
dos lábios de Garotinho, ou no "Maluf" de
Maluf. Eles seriam como o Narciso da mitologia grega, o
pobre rapaz que, debruçado na fonte que lhe projetava a
imagem, se enfeitiçou consigo mesmo. Narciso, como se
sabe, terminou mal. Seu desejo era sair de si para
amar-se, estender os braços e enlaçar-se a si mesmo. Na
impossibilidade de fazê-lo, morreu e virou flor.
Bíblia,
mitologia grega. Foi-se longe demais, quem sabe. Para que
complicar tanto? Alguns dirão que se chamar pelo
próprio nome, na boca de político, não passa de reles
artifício populista, uma maneira de ser diferente e
fixar-se na cabeça do eleitor. A intenção, ao invocar
um duplo, aquele outro que é ele mesmo, mas ao mesmo
tempo não é, seria criar um tipo de
preferência, um tipo capaz de muitas façanhas, firmes
certezas e excelsos propósitos.

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