Rebelde das tintas

Em Nova York, uma retrospectiva
celebra a pintura de Jackson Pollock

Foto: 1998 Pollock-Krasner Founddation/Artists Rights Society (ARS), Ny
Jackson Pollock e Blue Poles: dispensando o uso do
pincel e do cavalete para produzir o maior jorro
criativo desde o cubismo de Picasso


Foto: Rudolph Burckhardt

Nunca houve um pintor como o americano Paul Jackson Pollock (1912-1956). Ao morrer, bêbado, jogando seu carro contra uma árvore, ele se tornou uma espécie de James Dean das tintas. Só que esse rebelde teve causa em sua curta e intensíssima vida — a de alforriar a arte americana de um doloroso complexo de inferioridade em relação à pintura européia. Dispensando o uso do pincel e do cavalete para produzir suas magistrais abstrações, Pollock provou que ainda havia espaço para inovar depois da revolução cubista de Picasso. Com ele, pode-se dizer que a Europa teve de se dobrar aos Estados Unidos. Agora, finalmente, o Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMA, faz justiça a Pollock ao organizar a maior retrospectiva já feita sobre o pintor. A partir deste domingo, 1º de novembro, e até o dia 2 de fevereiro de 1999, o MoMA exibe 126 pinturas e 69 trabalhos sobre papel, além de três esculturas do artista, cobrindo todas as fases de sua produção. Para juntar tal acervo, o museu passou um pente-fino nas melhores coleções do planeta. Da Austrália, por exemplo, o MoMA conseguiu emprestado o soberbo mural Blue Poles (1952). Dada a fragilidade das telas desse artista, a mostra, que segue depois para a Tate Gallery, em Londres, é uma chance única para ver as obras de Pollock.

Além de reunir a produção do pintor, a exposição serve para que se desfaçam alguns equívocos a respeito de seu método criativo. O principal é aquele que enquadrava Pollock como um tresloucado, alguém que tomado pelo transe se punha a atirar as tintas na tela, como um pichador de paredes diletante. Tolice. Em seus drippings, os célebres gotejamentos, ele demonstrava um notável grau de deliberação e controle por baixo da aparente espontaneidade de seu trabalho. Conforme diz o curador da mostra, Kirk Varnedoe, "sua obra testemunha uma espetacular coordenação, a meio caminho entre o talento inato e um disciplinado treinamento". Realmente, muito antes dos anos 40, quando se pôs a dançar sobre a tela esticada no chão, gotejando a tinta com os próprios dedos ou com um bastão, Pollock investiu a fundo em sua arte, como demonstram as primeiras pinturas figurativas, influenciada por David Siqueiros e Picasso, entre outros. Genuinamente americana, a obra de Pollock pode ser comparada à improvisação musical do jazz. "O quadro de Pollock surge como um conjunto de quadros pintados na mesma tela, cujos temas se entrelaçam, interferem, divergem, tornam a se reunir num turbilhão delirante", observou o crítico italiano Giulio Carlo Argan. Assim como um músico medíocre não cria boa melodia de improviso, os pintores menores que copiaram Pollock também se deram mal, produzindo garatujas idiotas e nunca a teia de cores de um Pollock autêntico.

Number 26-A:
emaranhado de linhas,
numa capacidade
singular de improvisação
Foto: Moma  

"Estrangulador" — Se ainda hoje a pintura do artista pode chocar os mais conservadores, nos anos 40, quando se lançou na cena artística, Pollock e seus borrões foram encarados como apenas mais uma esquisitice. Em 1947, por exemplo, a revista Time o apelidou de "Jack, the Dripper", fazendo um trocadilho maldoso com o estrangulador inglês "Jack, the Ripper". Numa de suas entrevistas, Pollock bem que tentou legitimar a contemporaneidade de seus borrões: "O pintor moderno não pode expressar o seu tempo, o aeroplano, a bomba atômica, o rádio a partir das velhas formas da Renascença. Cada época encontra a sua própria técnica". A clareza de princípios casava com a ansiedade por fama e fortuna. Vaidoso e temperamental, ele não se fez de rogado a nenhuma investida da imprensa, na tentativa de angariar publicidade para suas mostras — atitude que prenunciou o exibicionismo dos protagonistas da pop art, na década de 60.

Nascido numa família humilde, no Estado de Wyoming, Pollock era fascinado pela idéia de tornar-se uma celebridade. Seu ego foi às alturas quando o crítico Clement Greenberg, o mais polêmico da época, cravou que ele era o maior artista vivo americano. "Se Pollock fosse francês, ele já seria chamado maître e haveria especulação com suas pinturas. Neste país, os museus, os colecionadores e os críticos continuarão — por medo, quando não por incompetência — recusando-se a acreditar que finalmente nós produzimos o melhor pintor de uma geração", declarou Greenberg. Quase instantaneamente, a obra do pintor chamou a atenção de marchands e colecionadores, como a milionária Peggy Guggenheim. Seu prestígio não demoraria a ser traduzido em dólares. Foi assim que ele, que antes vivia miseravelmente em Nova York, conseguiu dinheiro para comprar sua casa-ateliê na costa de Long Island, perto de Nova York, e o Cadillac conversível, no qual viria a se matar no inverno de 1956, numa fase de ressaca criativa.




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