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De dar sono
Terror de
Júlio Verne não assusta ninguém
No final da vida, o escritor francês
Júlio Verne (1828-1905) era um homem frustrado.
Inventara a ficção científica e alcançava enorme
sucesso com "aventuras geográficas" ao estilo
de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Mesmo assim,
sentia-se acorrentado. Queria escapar para outros
domínios literários, mas seu editor sempre o forçava a
retornar ao "bom caminho". Nem suas obras
póstumas escaparam da implacável vigilância. Foram
reescritas para corresponder às expectativas dos fãs.
Só agora os originais de algumas delas estão vindo à
luz e revelam os esforços de Verne para fugir do
padrão. É o caso de O Segredo de Guilherme
Storitz (editora Scipione Cultural; tradução de
Estela dos Santos Abreu; 167 páginas; 15,90 reais),
história de um homem que descobre o segredo da
invisibilidade. Verne queria escrever uma narrativa
fantástica e "assustadora". Seu principal
modelo era o alemão E.T.A. Hoffmann. Infelizmente,
porém, deve-se dar alguma razão ao editor cruel de
Verne. O Segredo é um livro chato.
Tem o pior do estilo do autor, como infindáveis
descrições de paisagem (dá até para suspeitar que sua
vocação era de guia turístico). Falta-lhe também o
elemento que torna um conto fantástico memorável, algo
muito bem definido pelo austríaco Sigmund Freud, pai da
psicanálise. Ao analisar contos de terror
especialmente de Hoffmann , Freud foi exato ao
chamar de "inquietação sinistra" o sentimento
provocado pelo gênero. Em sua desajeitada incursão
pelas "regiões sombrias", Verne causa apenas
sono.
C.G.

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