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Perfil solar
Ilhas
gregas são palco de excelente romance histórico
Durante a juventude, Louis de Bernières
um escritor 100% inglês, apesar do nome francês
viveu por alguns meses na Colômbia. Ali descobriu
a literatura latino-americana, até hoje sua preferida.
Bernières é, por exemplo, um dos grandes divulgadores
ingleses de Machado de Assis, que, segundo ele,
"parece ter estado 100 anos à frente de seu
tempo". Mas foi o realismo mágico de romances como Cem
Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que
causou a impressão mais forte. A ponto de virar
influência quando o jovem resolveu que também iria
escrever. "Meus três primeiros livros são uma
trilogia latina e devem tudo ao realismo mágico",
diz o autor. "Há quatro anos, porém, senti que
havia esgotado a fórmula." Louis de Bernières deu,
então, uma guinada em sua carreira. O resultado foi O
Bandolim de Corelli (tradução de Celina
Cavalcante Falck; Editora Record; 515 páginas; 40
reais), primeiro lugar na lista de mais vendidos da
Inglaterra e um dos melhores romances traduzidos neste
ano no Brasil.
O Bandolim de
Corelli tem por cenário a ilha grega
de Cefalônia, entre as décadas de 40 e 90. O grosso da
história, no entanto, diz respeito ao período da II
Guerra, quando ocorrem invasões por tropas italianas,
que se deixam contaminar pelo espírito festivo do lugar,
e depois por tropas alemãs, que chegam para restaurar a
"ordem" (ou instaurar a Nova Ordem nazista com
uma boa matança). Desfila pelo romance uma vintena de
personagens, alguns deles dignos de um filme de Fellini,
quase todos memoráveis. Há o Capitão Corelli, oficial
italiano que não liga a mínima para a guerra e prefere
entoar Heil Puccini! no lugar de Heil Hitler! Há
Carlo Piero Guercio, um soldado homossexual. E há
também Pelagia, a jovem heroína grega cujo nome
significa "oceano", e seu pai, o doutor Iannis,
um médico excêntrico que se dedica, nas horas vagas, a
escrever uma história da ilha. "Escrevo sobre
indivíduos comuns que foram apanhados na malha dos
grandes acontecimentos", diz o autor.
Bernières põe na
boca do doutor Iannis uma bela reflexão sobre a
luminosidade grega, que "gera uma nitidez
surpreendente, tem uma intensidade e um fulgor
heróicos". Algo semelhante se poderia dizer de sua
própria escrita, absolutamente límpida. Cada capítulo
do livro é estruturado como um breve conto, e Bernières
toca os mais diversos tipos de "música" com
seu Bandolim. Vai da grandiloqüência da ópera
ao intimismo da bagatela. Às vezes a história é
contada na terceira pessoa, por um narrador onisciente.
Noutras vezes o discurso é direto, como num impagável
monólogo posto na boca do ditador italiano Mussolini.
Como tem observado a crítica, a Inglaterra passa por um
momento exuberante em sua literatura. Hoje, há muito
mais variedade e invenção na literatura inglesa do que
na americana. Aos 43 anos, Louis de Bernières desponta
como um dos grandes nomes desse panorama, o que não é
pouco.
C.G.

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