A vida sem cigarro

Conheça a história de gente que conseguiu
parar de fumar e hoje vive muito melhor

Marcos Gusmão

Parou há quatro anos
Nome: Neimar Alves, 39 anos, publicitária de Porto Alegre
Quanto tempo fumou: Dezessete anos
O que motivou a decisão: Sofreu pressão das filhas, teve problemas de pele, como envelhecimento precoce e rugas
O que mudou em sua vida: Recuperou o paladar. Trocou o cafezinho e o cigarro por água e hoje se sente menos estressada. Melhorou seu desempenho no trabalho e ganhou disposição. Faz ginástica três vezes por semana numa academia
Montagens de Weigand sobre
fotos de Marcelo Cabral,
Edison Vara, Eugenio Savio
 

Todo fumante conhece os males causados pelo cigarro. Sabe que ele diminui a disposição física, reduz a capacidade pulmonar e o apetite, além de estar por trás de alguns tipos de câncer, levar ao enfisema pulmonar, aumentar o risco de derrame ou ataque cardíaco, matar, enfim. Mesmo assim as pessoas continuam dando suas tragadas. Qual é a lógica disso? A mais compreensível de todas. Para a maioria esmagadora dos fumantes, a idéia de parar de fumar está mais associada à privação do vício do que aos benefícios que a decisão produz. É a mesma lógica dos obesos que prometem iniciar uma dieta na segunda-feira, mas desistem na terça mesmo sabendo que a gordura faz mal à saúde. Manter-se acima do peso parece ser mais confortável do que o desafio de enfrentar as restrições à mesa. Com o tabaco é a mesma coisa. "O cigarro produz sensações relacionadas ao prazer e ao alívio das tensões", diz a psicanalista Valéria Ribeiro, do Recife, que trata de dependentes de cigarro, álcool e tóxicos. "Parar de fumar não propicia nada disso."

O olfato, o paladar
e o hálito voltam
ao normal uma
semana depois
do último cigarro

Conforme as estatísticas do Ministério da Saúde, existem no Brasil cerca de 35 milhões de fumantes. Deles, metade já tentou parar de fumar (sabe-se lá com que entusiasmo), porém não conseguiu. Os relatos dessas pessoas mostram o grau de dependência que a nicotina produz. Muitas ficam mais nervosas, dormem mal, sentem tremores e engordam. É por isso que não resistem e voltam ao vício. Os estudos sobre o assunto mostram que apenas 3% conseguem parar de fumar definitivamente. A novidade agora é que existe um conjunto de condutas e terapias capazes de aumentar a taxa de sucesso em até dez vezes se o fumante admitir que é um viciado e procurar ajuda de especialistas.

Parou há seis anos
Nome: Hélio Valle, 34 anos, economista de Belo Horizonte
Quanto tempo fumou: Quinze anos
O que motivou a decisão: Não tinha resistência física para praticar esportes, perdeu peso e estava com a auto-estima em baixa
O que mudou em sua vida: Corre e anda de bicicleta todos os dias, além de ir à academia. Atingiu o peso ideal e recuperou o olfato e o paladar

Auxílio — De algum tempo para cá surgiram no mercado medicamentos e técnicas que ajudam a pessoa a superar essas dificuldades iniciais. Os adesivos e as gomas de mascar repositores de nicotina, por exemplo, liberam a substância no organismo em quantidades que vão se reduzindo gradativamente. Isso leva o ex-fumante a se livrar aos poucos da dependência química. Embora não haja nenhuma comprovação científica de seus efeitos nem um acompanhamento de sua eficácia a longo prazo, muitas pessoas têm recorrido à acupuntura. A técnica do ponto cirúrgico, segundo os acupunturistas, age sobre os sintomas da síndrome de abstinência. "Quem já tentou outros métodos e não conseguiu pode ter aí uma chance de se livrar do problema", afirma o médico Montezuma Pimenta Ferreira, coordenador do ambulatório de tabagismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Hábito — O problema é que, associado à dependência, fumar é um hábito do qual é difícil livrar-se. Para combatê-lo, alguns procedimentos estão sendo tentados com sucesso. O mais eficaz tem sido uma psicoterapia de grupo para ex-fumantes, nos mesmos padrões adotados pela associação dos Alcoólicos Anônimos. Essa terapia combina o uso de adesivos e gomas de mascar repositores de nicotina com reuniões em que as pessoas comentam suas experiências. A lógica é que a comparação das dificuldades e dos avanços cria um vínculo de solidariedade que dificulta à pessoa retomar o vício.

Parou há três meses
Nome: Marília Freitas Di Lascio, 37 anos, artista gráfica de São Paulo
Quanto tempo fumou: Vinte anos
O que motivou a decisão: Sentiu queda na resistência física. Também quis prevenir-se contra problemas de pele
O que mudou em sua vida: Depois de engordar 4 quilos, mudou seus hábitos alimentares. Hoje prefere uma dieta rica em verduras e legumes. Voltou a caminhar pela manhã e nada 1.000 metros por semana. A pele está mais hidratada
Montagem de Weigand sobre fotos de Marcelo Cabral, Frederic Jean  

Nervosismo — O que as campanhas antifumo quase nunca mostram são os benefícios da vida sem cigarro. A primeira atitude de quem está disposto a parar de fumar é tentar reduzir o consumo diário de cigarros e marcar uma data para deixar o vício. Muitos não conseguem cumprir o que prometem e as pessoas à sua volta vêem nisso um sinal de fraqueza. Não é. "Pouca gente consegue parar de fumar sozinho e de supetão", diz o médico Ferreira.

Para evitar as recaídas, retire cinzeiros, isqueiros e maços de cigarro de casa e do trabalho

O fundamental é não desanimar diante do primeiro fracasso. O abandono do vício chega a ser precedido de até quatro tentativas. A publicitária Neimar Alves, de Porto Alegre, fumou dos 18 aos 35 anos e tentou parar de fumar duas vezes. Interrompeu o vício uma vez quando estava grávida da primeira filha, Mariana, hoje com 19 anos, mas voltou meses depois de dar à luz. Não conseguiu fazer o mesmo durante a gestação de Maria Augusta, 15 anos, sua segunda filha. "Ela diz até hoje que eu não gosto dela porque não abandonei o cigarro durante a gravidez", conta Neimar. As filhas reclamavam e ela mesma passou a perceber que já não sentia mais cheiros nem o sabor da comida. Há quatro anos resolveu parar. No primeiro mês, a maior dificuldade foi controlar o nervosismo. "Voltei a ter prazer em usar perfume e minha pele melhorou", diz ela.

Rotina — Quem consegue largar o cigarro deve mudar o estilo de vida para consolidar sua condição de ex-fumante. Eliminar os cinzeiros, por exemplo, é uma boa providência. Quem fumava após o café da manhã e depois tomava banho deve inverter a rotina matinal. Isso pode parecer bobagem, mas não é. "É importante quebrar a rotina relacionada ao hábito de fumar", salienta o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo. Também é fundamental ficar atento a cada benefício da vida sem cigarro.

Vida saudável — A artista gráfica Marília Freitas Di Lascio, 37 anos, de São Paulo, começou a fumar aos 17. Decidiu parar porque sua resistência física tinha caído e, pelo estado da pele, vinha aparentando mais idade do que tem. "Quando ia ao cinema, ficava com medo de sentir vontade durante o filme e fumava um ou dois cigarros antes da sessão", conta ela. Nos três meses em que está sem fumar, notou que a pele está mais hidratada. Chegou a engordar 4 quilos, mas já iniciou uma dieta e voltou a fazer caminhadas pela manhã. Também passou a praticar natação — ou seja, trocou o vício pela vida saudável que sempre imaginou ter e nunca conseguiu. "Hoje, presto atenção a cada sabor e a cada cheiro", comemora ela. "Isso ajuda a resistir à vontade de fumar, que é menor a cada dia."

Primeiros benefícios — O olfato e o paladar melhoram imediatamente. A temperatura alta da fumaça e algumas das 4.000 substâncias nocivas encontradas no cigarro inibem a atividade das células responsáveis por essas sensações. Sem o cigarro, elas voltam. Logo na primeira semana, o ex-fumante sente o hálito mais puro. Isso se explica pela ausência do alcatrão. Associada à temperatura da fumaça, essa substância resseca a boca, reduz a salivação e prejudica o hálito. O cheiro corporal também melhora com o fim da exposição à fumaça carregada de nicotina. Ela impregna a pele, os cabelos e as roupas. Mas o melhor mesmo é quando o ex-fumante começa a perceber que o sono fica repousante, que a capacidade de concentração no trabalho aumenta (muita gente desvia a atenção de suas tarefas porque sente vontade de fumar) e que a resistência física melhora uma enormidade. Há seis anos sem fumar, o economista Hélio Valle, 34 anos, de Belo Horizonte, anda de bicicleta e corre hoje 45 minutos por dia, faça chuva ou faça sol. De quebra, freqüenta uma academia de ginástica. Fumou durante quinze anos, dos 13 aos 28. Pesava 63 quilos, muito menos do que o recomendado para seu 1,85 metro de altura. "Era o campeão da falta de auto-estima", lembra ele. Hoje, o cheiro do cigarro o incomoda. "Beijar uma mulher que fuma é pior do que lamber cinzeiro", diz o economista.

Calcule a sua dependência do cigarro

O teste abaixo é usado por médicos do mundo todo para determinar o nível de dependência de nicotina. Os fumantes com baixa pontuação, até 6 pontos, têm mais facilidade em parar de fumar. Quem ultrapassa essa marca pode precisar de um tratamento com supervisão médica

1) Quanto tempo depois de acordar você fuma o primeiro cigarro?

Cinco minutos   De seis a trinta minutos   Uma hora

2) Você sente falta do cigarro quando está em locais onde ele é proibido (como cinemas, restaurantes e alguns vôos)?

Sim   Não

3) De qual cigarro você não abre mão?

O primeiro ao acordar   Qualquer outro

4) Quantos cigarros você fuma por dia?

dez ou menos de onze a vinte   de 21 a trinta 31 ou mais

5) Você fuma com mais freqüência nas primeiras horas após acordar do que no restante do dia?

Sim   Não

6) Mesmo quando está doente a ponto de não sair da cama você continua fumando?

Sim   Não

Pontuação instantânea:

Resultados:

0 a 2 pontos Não há dependência
3 a 4 pontos Baixa dependência
5 pontos Dependência média
acima de 6 pontos Alta dependência

Mais informações: sobre os riscos do cigarro, visite na Internet a página do Instituto Nacional de Câncer (www.inca.org.br). Veja também o site da Sociedade Brasileira de Cardiologia (www.cardiol.br/fumo.htm).

Com reportagem de Cristiane Sanches, de Belo Horizonte,
e
Rodrigo Vieira da Cunha, de Porto Alegre




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