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| Fotos: Antonio Milena |
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| Candidatas
do concurso da Mega: um sonho que, em dois anos, mobilizou 85.000 lindas cabecinhas |
Karmel Bortoleti veio do Recife, Fernanda Kober embarcou no outro extremo do mapa, em Campinas do Sul, no coração do território gaúcho. O objetivo das duas era o mesmo: disputar o concurso de modelos promovido pela agência Mega, que, ao lado de competições semelhantes das agências Elite e Ford, funciona como uma espécie de passaporte para a realização dos sonhos que enchem as lindas cabecinhas de meninas de todos os cantos do Brasil. Haja sonhos: só nos últimos dois anos, nada menos que 85.000 garotas participaram dos três concursos. É competição para dar arrepios em qualquer um. Com 16 anos, 50 reais na carteira e a mãe a tiracolo, a gauchinha Fernanda chegou nervosa. "Estou sentindo uma dor de barriga terrível", dizia horas antes da disputa final. "Se der certo, minha vida vai mudar completamente. Ser de classe média baixa como eu, que moro numa casa pequena, sem carro e sem telefone, é muito chato. Quando as riquinhas começam a contar vantagem, você se sente diminuída, sabe?" Mais nova 14 aninhos , Karmel aparentava mais segurança. "Cada vez que você leva um tombo tem de levantar e continuar em frente", filosofou. Os deuses sorriram para as duas iniciantes. Karmel pegou o primeiro lugar, Fernanda foi escolhida para representar a empresa de cosméticos que co-promoveu o concurso. Está dado o primeiro passo para se somarem ao pequeno exército de brasileiras que tentam brilhar nas passarelas internacionais.
O paradigma dessa legião de garotas bonitas, altíssimas e muito, muito jovens tem nome, sobrenome e 1,80 metro de altura: a gaúcha Shirley Mallmann, que em 1995 saiu do pequeno sítio da família no Rio Grande do Sul e conquistou o mundo com sua beleza nórdica. O sucesso de Shirley reforçou o cacife do produto nacional. Atualmente, pelo menos 100 meninas brasileiras entram todos os anos no competitivo mercado da moda de Paris, Milão, Nova York e Japão. Junto com a Rússia e os países do Leste Europeu, o Brasil é um dos três grandes exportadores de beldades para disputar com 10.000 modelos de todo o mundo o espaço nas campanhas publicitárias, nas passarelas e nas capas de revistas. Um exemplo da invasão nacional: no desfile da griffe italiana Swish em Milão, no começo do mês, das dezoito modelos escaladas, seis eram brasileiras (Gianne Albertoni, Alessandra Ambrósio, Cyntia Moura, Katarina Scola, Carolina Bittencourt e Lillian Pieroni). "As brasileiras são consideradas exóticas", diz John Casablancas, dono da agência americana Elite, ele próprio casado com uma beldade nativa.
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Congestionamento
de brasileiras em Milão: Cyntia Moura, Gianne Albertoni, Alessandra Ambrósio, Carolina Bittencourt, Lillian Pieroni e Katarina Scola |
| Foto: Mario Brenna |
Rostos globalizados Dois motivos impulsionam essa revoada internacional. O primeiro é que as adolescentes brasileiras estão mais altas. Antes, era difícil encontrar meninas que tivessem mais de 1,70 metro de altura no Brasil. Hoje, não é impossível ter até 10 centímetros acima disso. O segundo motivo é a mudança no padrão de beleza. Atualmente, está na moda a miscelânea. Fotógrafos e estilistas querem rostos "globalizados", com menos estereótipos étnicos e mais indícios de mistura racial. "O máximo é olhar uma modelo na passarela e não saber de onde ela é", diz a consultora de moda paulista Costanza Pascolato. Quem vê as fotos de Gisele Caroline Bündchen, 18 anos, poderia dizer que ela é americana, escandinava, croata ou até brasileira. Nem o nome de origem alemã denunciaria que ela nasceu na minúscula Horizontina, cidade do interior gaúcho. Com carreira iniciada, a duras penas, aos 14 anos, Gisele é uma das três modelos mais cobiçadas da atualidade, de acordo com o especialista Casablancas. Na temporada de desfiles da Europa, que terminou na semana passada, ela esteve nas passarelas das griffes mais prestigiadas em Milão e Paris. Sua conta bancária já começa a ser pensada em termos de milhão.
| A caçula Jeísa Chiminazzo, 13 anos: "Me acharam muito nova na Europa" |
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| Foto: João Wainer/Folha Imagem |
Gisele é a exceção que todas as novatas adorariam imitar, embora poucas consigam. Lá fora, existem três categorias de cachê. "Há espaço para centenas de top models, mas os cachês milionários de Linda Evangelista não existem mais", diz John Casablancas, evocando a veterana canadense que certa vez disse não se animar a sair de casa por menos de 10.000 dólares. Na faixa mais baixa, estão as iniciantes que aceitam trabalhar por nada ou quase nada. Quando chegou a Paris, em fevereiro, a potiguar Fernanda Tavares desfilou até por 60 dólares. A idéia é ganhar notoriedade. Deu certo. Seu rosto marcante já cobriu seis capas de revistas estrangeiras. Hoje, ela cobra no mínimo 5.000 dólares por desfile. Está no segundo nível de cachê, aquele das modelos que competem por campanhas publicitárias de cacife mais alto. "Se a modelo não consegue fazer 100.000 dólares no primeiro ano, volta para casa", conta Liliana Gomes, responsável pelo departamento de novos rostos da agência Elite.
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Sabrina
Orthmann: medidas mínimas até para modelo |
Precocidade Outro diferencial, digamos, das brasileiras é que começam extremamente cedo. Pisar a passarela aos 13 anos, como aconteceu com a precursora Gianne Albertoni, já está deixando de ser exceção para virar regra. Foi com essa idade que a catarinense Sabrina Orthmann, que nem sequer se enquadra nas medidas já esquálidas das modelos (tem 77 centímetros de busto), ganhou o concurso da agência Elite, em setembro. Comparada a Jeísa Chiminazzo, mesma idade, gaúcha de Muçum, pode ser considerada inexperiente. Jeísa já desfilou para várias griffes nas passarelas do Morumbi Fashion, em São Paulo, e de Milão embora na Europa a pouca idade tenha pesado negativamente. "Os grandes costureiros me acharam muito nova", diz ela. Nos Estados Unidos e na Europa, a idade média das iniciantes é 16 ou 17 anos. Aqui, com a desvantagem da língua e o apoio da família ao sonho precoce de sucesso das meninas, a faixa etária encolheu tanto que pode ser enquadrada na categoria trabalho infantil. "Quanto mais nova, melhor. Dá tempo de a menina aprender um pouco de inglês e acumular experiência", afirma Denise Céspedes, representante no Brasil da agência Ford. Quem não consegue faz as malas e volta para casa.
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