Criador de clones
O
cientista revela que se sentiu no papel de
Deus ao fazer a ovelha Dolly e diz que a
clonagem pode aprimorar a vida na Terra
Eduardo
Salgado, de Edimburgo
Quando decidiu
morar na Escócia, há 25 anos, o inglês Ian Wilmut
queria apenas um lugar tranqüilo para criar os filhos.
Acabou revolucionando a ciência. Wilmut é o criador da
ovelha "Dolly", primeiro mamífero clonado a
partir da célula de um animal adulto. Natural de um
vilarejo próximo a Stratford-upon-Avon, a cidade onde
nasceu William Shakespeare, Wilmut, de 54 anos, colocou o
mundo diante de alguns dilemas. É correto fazer cópias
de seres vivos? Deve-se permitir que um cientista faça
um clone humano? Há limites para a pesquisa científica?
Apesar da polêmica, Wilmut tenta manter a vida que
levava antes de ficar famoso. Pai de três filhos,
continua morando na mesma casa, não trocou de carro e
ainda leva o cachorro para passear todos os dias antes do
jantar com a família. Nos finais de semana, sai para
caminhar e tirar fotos de paisagens com a mulher,
Vivienne, com quem está casado há 31 anos. Doutor pela
Universidade de Cambridge, trabalha no Instituto Roslin,
a menos de meia hora de carro do centro de Edimburgo,
onde falou a VEJA.
Veja
Quando Dolly nasceu, o senhor se sentiu no papel de Deus?
Wilmut
Sim. Senti que estava criando algo. De qualquer forma,
não fui o primeiro nem o último ser humano a sentir
isso. A humanidade vem mudando o seu meio há milhares de
anos desde a primeira vez em que os nossos ancestrais
decidiram manter animais numa fazenda, tirar sementes de
uma planta ou cortar árvores. Esse é nosso papel e
nosso destino. Aqui, onde hoje funciona o Instituto
Roslin, havia uma floresta. Hoje, no lugar dela, há um
centro de pesquisa. Faz parte da nossa natureza tentar
entender como as coisas funcionam e querer melhorá-las.
Estamos dando continuidade a algo que começou há muito
tempo, nos primórdios da História humana.
Individualmente, todos os dias tomamos decisões que, de
alguma forma, afetam outras pessoas e o mundo em que
vivemos. Até quando botamos adubo no jardim para fazer
as plantas crescer mais depressa estamos mudando o mundo.
A diferença, no caso de Dolly, é que foi um grande
passo à frente, um grande salto.
Veja
O senhor acredita em Deus?
Wilmut
Não. Não tenho religião. Da mesma forma, não tenho
nada contra quem é religioso. Sou casado há 31 nos com
Vivienne e ela freqüenta a igreja regularmente.
Veja
Qual é a opinião da sua mulher sobre clonagem?
Wilmut
É parecida com a minha. Há dez anos, quando os
biólogos começaram a fazer transferência de núcleos
em embriões de vacas, os fetos tinham deformações
horríveis. Alguns nasciam enormes. Portanto, naquela
época era inaceitável usar a técnica comercialmente
para reproduzir animais. Minha mulher era contra essa
idéia e eu também. Achávamos que se deveria fazer mais
testes para evitar que os animais sofressem. Aos poucos
isso está mudando. A tendência é que no futuro a
clonagem se torne um procedimento cada vez mais seguro e
viável, cujos resultados poderão ser usados em
benefício da humanidade.
Veja
Alguns cientistas colocam em dúvida seu experimento
dizendo que ninguém conseguiu reproduzi-lo até agora.
Dolly é mesmo um clone?
Wilmut
Só quem não entende nada de ciência pode acreditar
nisso. Não há a menor dúvida de que Dolly é um clone.
Algumas pessoas levantaram a suspeita de que o óvulo que
deu origem a Dolly já estava fertilizado porque parte do
material genético foi retirada da célula mamária de
uma ovelha que estava grávida. Acontece que, depois do
experimento, outras equipes confirmaram o resultado
obtido pela nossa. Recentemente, camundongos foram
clonados a partir de células de animais adultos no
Havaí. O trabalho descrevendo essa experiência foi
publicado na revista Nature. No Japão nasceram
dez bezerros clonados, dos quais cinco sobreviveram. Na
Nova Zelândia, um bezerro também foi clonado a partir
de uma célula adulta.
Veja
Em nome da ética, alguns países discutem a adoção de
leis para controlar os experimentos envolvendo clonagem.
Há limites para o progresso científico?
Wilmut
A pesquisa científica deve ser ousada. É preciso não
esquecer que a ciência e a tecnologia trouxeram grandes
avanços para nossas vidas. Por isso, deveríamos
continuar sendo curiosos. Isso não significa ausência
de limites. Uma vez que temos conhecimento de determinado
processo, devemos ser bastante cuidadosos na maneira como
o usamos para não cometer erros. No caso de Dolly, temos
motivos para ficar muito orgulhosos e entusiasmados. Mas,
ao mesmo tempo, muito cuidadosos antes de usar essa nova
tecnologia.
Veja
Além de satisfazer a curiosidade científica, para que
serve clonar seres vivos?
Wilmut
A clonagem é apenas parte de um campo fascinante na
ciência, a pesquisa genética. Se você olha um carro
pelo lado de fora, pode achá-lo feio ou bonito, mas não
sabe muito como melhorar seu desempenho. Se, em vez
disso, você abre o capô e dá uma olhada no motor, pode
começar a pensar em fazer algumas mudanças. É assim
que funciona a genética. O objetivo é conhecer o
mecanismo essencial da vida. O código genético é
responsável por todas as características físicas de
uma pessoa e também por boa parte do seu comportamento.
Ao entender como esse mecanismo funciona, talvez possamos
melhorá-lo ou corrigir alguns de seus defeitos.
Veja
De que maneira?
Wilmut
Estamos fazendo um grande esforço para entender como os
genes determinam o que as pessoas e os animais são. Em
cinco ou dez anos, talvez possamos identificar algumas
regiões do genoma humano que determinam, por exemplo, a
resistência contra doenças. Ou, no caso de uma vaca, o
que determina sua produção de leite. Quando chegarmos a
esse ponto, talvez seja possível fazer algumas mudanças
que contribuam para melhorar a vida das pessoas.
Veja
É correto interferir dessa forma num trabalho que a
natureza vem fazendo sozinha há bilhões de anos,
mediante a seleção e a evolução das espécies?
Wilmut
Nosso desafio não é atrapalhar o processo natural, mas
contribuir para melhorá-lo. Interferir na natureza para
combater doenças ou produzir mais alimentos, e de melhor
qualidade, é aceitável do ponto de vista ético. A
clonagem pode aprimorar a vida na Terra. Uma
possibilidade fascinante é reproduzir, pela clonagem,
bois, vacas e outros animais que sejam grandes produtores
de carne e leite, por exemplo. A seleção de rebanhos
pelo método tradicional, de cruzamento entre os
indivíduos mais produtivos, é demorada e de resultados
pouco seguros. Com a clonagem, é possível obter
resultados imediatos. Isso já acontece com a clonagem de
plantas, que ajudou muito a melhorar a produtividade de
algumas culturas.
Veja
Suas experiências podem resolver o problema da fome no
mundo?
Wilmut
Seria exagero dizer isso. A produção atual de alimentos
já é mais do que suficiente para matar a fome de todos
os habitantes do planeta. O problema é que essa comida
é mal distribuída. Em vez de produzir mais alimentos,
temos de melhorar as condições de estocagem da comida
que já produzimos e reparti-la de forma mais justa. É
triste pensar que as pessoas ainda morrem de fome porque
não encontramos um modelo político e social que
distribua a riqueza e a comida de forma mais justa. A
solução para a fome é política, não científica. O
que a genética pode fazer é dar uma contribuição para
que isso aconteça.
Veja
Já é possível fazer várias cópias de um mesmo animal
de modo a reproduzi-lo em grande escala?
Wilmut
Ainda não. Com a tecnologia atualmente disponível,
apenas um entre 200 embriões clonados sobrevive. Além
disso, ainda temos casos de animais que nascem muito
grandes ou deformados. Não acho que seria eticamente
correto usar a clonagem em larga escala. O benefício
não valeria a pena. Uma situação diferente é a que
envolve a criação de animais geneticamente modificados
para produzir remédios e vacinas. Dessa forma seria
possível, por exemplo, desenvolver uma vaca cujo leite
tivesse uma proteína para ajudar a combater doenças
como a hemofilia. Nesse caso, mesmo que alguns animais
sofram durante a experiência, muitas pessoas serão
beneficiadas. Essa é uma questão bastante delicada e eu
respeito a opinião de quem não concorda comigo.
Veja
Por que tantas ovelhas morreram para que Dolly nascesse?
Wilmut
Ainda não sabemos direito por que isso acontece. Há
dois anos, os cientistas diziam que era impossível
clonar um mamífero adulto. Já provamos que é
possível, mas o experimento é ainda algo muito
complicado, de resultados imponderáveis. São tantas as
coisas que devem acontecer naquele óvulo que a gente
não consegue controlar o resultado da experiência. A
maioria dos embriões que fazemos morre antes de
completar uma semana. Eles nem começam a se desenvolver.
Veja
Em quanto tempo será possível diminuir o número de
mortes e deformidades no processo de clonagem?
Wilmut
É impossível dizer. Pode ser que neste momento alguém
esteja fazendo uma descoberta que ajude nesse sentido.
Pode ser que demore vinte anos. A ciência é
imprevisível. Há outros problemas a resolver, como a
excessiva vulnerabilidade das espécies clonadas ao
ataque de doenças. Em florestas feitas com clones, todas
as árvores morrem quando atacadas pela mesma doença,
já que são todas geneticamente iguais. É mais um
obstáculo a superar.
Veja
"Polly", a ovelha que o senhor clonou depois de
Dolly, tinha genes humanos. Para que serve isso?
Wilmut
Esse tipo de experimento está sendo feito por vários
laboratórios ao redor do mundo, com diferentes animais.
No caso de Polly, o objetivo foi gerar um animal com
características genéticas para produzir proteínas
necessárias ao tratamento de doenças como a hemofilia.
Outros pesquisadores estudam a possibilidade de mudar a
estrutura genética dos porcos para que possam usar
alguns de seus órgãos, como coração e rins, em
pessoas que precisam fazer transplantes e não conseguem
doador. Mais de 100.000 pessoas morrem por ano por falta
de doadores. Hoje, se pegarmos o coração de um porco e
o colocarmos em uma pessoa, haverá rejeição. A
manipulação genética pode impedir que isso aconteça.
Nesse caso, um grande problema para a humanidade estará
resolvido. Ninguém pode invocar argumentos éticos
contra esse tipo de experiência. Se hoje podemos criar
animais para comer, por que não usá-los para produzir
órgãos e salvar milhares de pessoas que precisam de
transplantes?
Veja
E se esses animais transmitirem doenças para as pessoas
que recebem seus órgãos?
Wilmut
Essa hipótese existe e serve para reforçar a
necessidade de termos muito cuidado com a tecnologia. Os
porcos têm muitos vírus. O que não sabemos é se eles
afetam os seres humanos. Mesmo quando conseguirmos acabar
com o problema da rejeição, teremos de nos assegurar
que os vírus não vão afetar os pacientes. A tecnologia
não deve ser usada em larga escala antes que tenhamos
certeza sobre os efeitos.
Veja
Em nome do avanço da ciência, o senhor toparia clonar
um ser humano?
Wilmut
Eu não conheço nenhuma razão aceitável para
justificar a clonagem de uma pessoa que já existe. Vamos
pensar na seguinte hipótese. Eu e minha mulher não
podemos ter filhos e decidimos fazer uma cópia de mim
mesmo. Uma cópia que vai ser quase como um irmão gêmeo
meu, só que nascido numa outra época. Uma pessoa que
fisicamente será muito parecida comigo, mas terá uma
outra personalidade. Aparentemente, a personalidade é
determinada metade pelos nossos genes e metade pelo meio
ambiente. Então, uma cópia nunca terá exatamente a
mesma personalidade do original. Como a minha mulher iria
reagir quando esse "filho" completasse 18 anos,
a idade que eu tinha quando ela me conheceu e se
apaixonou por mim? Como seria a relação da mãe com o
filho? Será que eu não me sentiria tentado a impor à
cópia os meus próprios comportamentos? Coloque-se no
papel do clone. Ele olharia para mim e veria como ficaria
aos 54 anos. Careca e com uns quilinhos a mais. Pode ser
pior. Imagine se uma cópia, ainda criança, vê o seu
pai ou mãe morrer de uma doença genética incurável.
Em todos esses casos, o sofrimento psicológico de todos
os envolvidos é muito alto.
Veja
Então, o senhor acha que a clonagem de seres humanos
deve ser proibida?
Wilmut
Na Europa, estamos de acordo que o preço da clonagem
humana é muito alto. Nos Estados Unidos, alguns
cientistas pensam de forma diferente. Acham que os pais
têm o direito de ter filhos da maneira que quiserem.
Esses cientistas se esqueceram de fazer a seguinte
pergunta: a clonagem é do interesse da criança que irá
nascer? Toda pessoa deve ter direito à individualidade.
E uma cópia não pode ser tratada como um indivíduo.
Há outro problema. Atualmente, estou fazendo
experiências para a clonagem de porcos. Acredito que a
pesquisa vai durar dois anos e, até lá, será preciso
usar mais de 1.000 animais nas experiências, na forma de
embriões que serão destruídos ou morrerão devido às
deformidades. Seria eticamente razoável destruir um
número tão grande de embriões para obter um clone
humano? Obviamente, não.
Veja
As experiências com clonagem podem ajudar a retardar o
processo de envelhecimento?
Wilmut
Essa é uma das grandes questões que esperamos responder
com Dolly. Ela é cópia de uma ovelha que tinha 6 anos
de idade no início da experiência. Dolly nasceu há
dois anos e, aparentemente, essa é também a idade de
suas células. Será que, na estrutura genética, tudo
voltou à estaca zero quando fizemos a cópia da ovelha
adulta? Geneticamente, Dolly tem 2 ou 8 anos? Ainda não
sabemos as respostas para essas perguntas. Quando
resolvermos esse problema, talvez possamos entender
melhor como e por que as pessoas envelhecem.

|