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matemático israelense, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em
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"Fazer
concessões é o pior caminho para conseguir a paz" |
Robert Aumann recebeu, em 2005, o Prêmio Nobel de Economia
por seus estudos na área da Teoria dos Jogos. Suas teses ajudam a compreender
os princípios que regem os conflitos e como se consegue convencer adversários
a cooperar entre si. As teorias do judeu ortodoxo de 79 anos têm aplicação
prática na economia, na diplomacia, em política e até em
religião. Aumann começou a se interessar pelo assunto na década
de 50, depois de conhecer John Nash vencedor do Prêmio Nobel de Economia
de 1994 e de receber a missão de desenvolver estratégias
de defesa para os Estados Unidos em plena Guerra Fria. Aumann nasceu na Alemanha
e sua família emigrou para os Estados Unidos em 1938, para fugir do nazismo.
Um de seus filhos morreu na primeira guerra do Líbano, em 1982. Aumann,
que vem ao Brasil no próximo dia 9 para uma série de palestras,
concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de sua sala na Universidade Hebraica de
Jerusalém.
O fato de sua vida ter sido marcada por dramas de guerras
determinou seu interesse pelo tema?
Sim, você está certo.
A II Guerra Mundial e o constante estado de conflito em Israel, que se estende
desde 1922, certamente me influenciaram. A convivência constante com guerras
despertou em mim grande interesse pelo mecanismo das lutas armadas. Eu me considero
um homem de paz. Mas a forma como os outros homens de paz querem acabar com as
guerras não é eficiente. Eu quero paz, mas de um jeito diferente.
O estudo da economia e da Teoria dos Jogos me ensinou que as coisas nem sempre
são o que parecem. O funcionamento dessas ciências é mais
complexo e tem relação com a maneira com que as ações
de um indivíduo afetam outras pessoas. Essa interação depende
de uma rede intrincada de participantes ou, como costumo chamar, jogadores. Por
isso, não basta querer a paz para consegui-la. É preciso entender
como esse desejo afeta outras pessoas. Dizer "eu quero paz" pode não
trazer paz, mas guerra. Para minimizar as surpresas é preciso calcular
com muito cuidado como uma ação leva a outras.
| "Mesmo que o governo iraniano consiga construir a bomba atômica, duvido que os aiatolás a usem. O problema é essas armas caírem nas mãos da Al Qaeda, que não tem endereço" |
O que
é a Teoria dos Jogos?
É uma ciência que examina situações
em que dois ou mais indivíduos ou entidades lutam por diferentes objetivos,
nem sempre opostos. Cada jogador tem consciência de que os outros também
agem de forma a atingir as próprias metas. Um exemplo óbvio são
os jogos recreativos ou esportivos, como o xadrez, o pôquer e o futebol,
em que todos os participantes possuem metas próprias. No xadrez, cada peça
movida por um jogador desencadeia uma série de reações no
adversário. A compra de uma casa também pode ser analisada por meio
da Teoria dos Jogos, mas sugere um cenário completamente diferente, pois
o comprador tem objetivos comuns aos do vendedor. Ambos estão interessados
em que o negócio se concretize. Alguns aspectos da negociação,
porém, são opostos, porque o comprador quer um preço mais
baixo e o vendedor um preço mais alto. Nessa disputa, o comprador analisa
os movimentos do vendedor, e vice-versa. Cada um pensa sob o ponto de vista do
outro para elaborar uma maneira de atuar. O mesmo vale para a política
ou para a guerra. Minha pesquisa consiste em analisar as estratégias de
situações interativas como essas.
Há fórmulas
matemáticas para analisar as estratégias possíveis?
Não
há uma fórmula matemática universal, mas existem conceitos
fundamentais na Teoria dos Jogos, como a noção de equilíbrio.
Esse conceito foi inventado por John Nash, a quem a maioria das pessoas conhece
pelo filme Uma Mente Brilhante (com Russell Crowe no papel do cientista). Nash desenvolveu a noção do ponto de equilíbrio, que ocorre
quando cada jogador encontra sua maneira ideal de atuar no jogo. Cada um, portanto,
cria sua melhor estratégia possível, levando em conta o que o outro
está fazendo. Para cada tipo de situação há fórmulas
diferentes a ser aplicadas.
Nash ganhou o Prêmio Nobel por sua
teoria do ponto de equilíbrio e o senhor por ter dado um passo além,
com a Teoria dos Jogos Repetitivos. Em que elas diferem?
A base conceitual
é a mesma. Mas a maneira de as pessoas se comportarem no jogo repetitivo
é diferente. Quando se joga o mesmo jogo repetidas vezes, o comportamento
de um jogador hoje afeta a atuação do outro amanhã, e assim
por diante. Minha teoria vê toda essa repetição como um único
jogo e determina qual é o equilíbrio do processo inteiro. A conclusão
é que, em uma situação repetitiva uma negociação
que se estende por várias rodadas, por exemplo , é mais fácil
conseguir cooperação entre as partes. A ideia básica
dessa teoria é o uso de incentivos. No ponto de equilíbrio de um
jogo, cada um faz o que é melhor para si. Para convencer o outro a fazer
algo que é bom para você, é preciso dar a ele motivos para
que o ajude.
Como o senhor começou a aplicar a Teoria dos Jogos
à Guerra Fria?
Eu conheci John Nash no Instituto de Tecnologia
de Massachusetts (MIT) nos anos 50 e estou em contato constante com ele desde
1994. Quando eu o conheci, Nash contou-me sobre a Teoria dos Jogos e a do ponto
de equilíbrio, mas eu não estava interessado nesse assunto. Em 1954,
fui trabalhar na Universidade Princeton e deparei com um problema muito prático
que me fez lembrar das conversas com Nash. O desafio era desenvolver a melhor
estratégia para defender uma cidade de um hipotético ataque nuclear
aéreo, em que apenas um ou outro avião carrega bombas atômicas.
Agora que Nash está mais ou menos recuperado de sua doença (ele
sofre de esquizofrenia), voltou a trabalhar com o tema. Eu o vejo com certa
frequência, umas duas vezes por ano.
De que maneira a Teoria dos
Jogos pode ajudar a evitar ou solucionar guerras?
É preciso identificar
os elementos comuns a diferentes situações de conflito. Em diversos
conflitos atuais, há uma tentativa de resolver o problema tomando medidas
para agradar à outra parte. Há quem pense que atender às
demandas do adversário pode trazer a paz. Basta usar raciocínio
lógico e analisar a história para ver que isso não é
verdade. O senso comum diz que a II Guerra Mundial foi causada por Adolf Hitler.
Há alguma verdade nisso, porque foi ele quem ordenou a invasão da
Polônia em setembro de 1939. Mas o papel desempenhado pelo primeiro-ministro
inglês Neville Chamberlain é frequentemente negligenciado. É
impressionante ler os jornais daquele tempo e perceber quanto a retórica
de Chamberlain era similar ao que ouvimos hoje em dia na diplomacia: "Nós
temos de conseguir a paz, temos de entender o outro lado, temos de fazer concessões...".
Como a política de pacificação de Chamberlain?
Ele estava tão obcecado em garantir a paz que passou a atender
a todas as demandas de Hitler. Ao fim das negociações de Munique,
em 1938, ele perguntou a Hitler se todas as exigências da Alemanha haviam
sido atendidas. Hitler disse que sim. Chamberlain, então, voltou a Londres,
exibiu pomposamente o acordo assinado com Hitler e proferiu a frase que entraria
para a história dos piores erros de avaliação: "A paz
em nosso tempo está assegurada". Dias depois as tropas alemãs
ocuparam os Sudetos. Meses depois tomaram a então Checoslováquia.
Um ano depois Hitler invadiu a Polônia. Só então a Inglaterra
declarou guerra à Alemanha. Hitler ficou furioso. Ele tinha razões
para isso. Chamberlain levou-o a acreditar que a Inglaterra aceitaria qualquer
coisa que ele fizesse, sem limites. As concessões de Chamberlain foram
um incentivo para Hitler, e elas levaram o mundo à II Grande Guerra.
| "Em diversos conflitos atuais, há uma tentativa de agradar à outra parte. Erra quem pensa que atender às demandas do adversário pode trazer a paz. Isso não é verdade" |
Se fazer concessões não ajuda, que tipo de incentivo pode acabar
com um conflito?
É preciso dizer na mesa de negociação:
"Não vamos aceitar essas demandas e, se vocês insistirem nelas,
vamos revidar com violência". Há dois tipos de incentivo: a
cenoura e o porrete. Theodore Roosevelt dizia para falar com suavidade, mas ter
sempre à mão um porrete. Se Chamberlain tivesse dito a Hitler em
1938 em Munique que não aceitaria certas demandas, Hitler teria de recuar,
porque não estava ainda preparado para a guerra. Na crise dos mísseis
de Cuba, em 1962, o presidente americano John Kennedy deixou claro aos russos
que, se os mísseis não fossem retirados da ilha, os Estados Unidos
agiriam. Com isso, Kennedy conseguiu a paz.
Foi a partir desse ponto
que a Guerra Fria atingiu seu equilíbrio?
Exato. A Guerra Fria
nunca esquentou porque nenhum dos lados cedeu às demandas do outro além
de determinados limites. Havia aviões carregando armas nucleares no ar
24 horas por dia, 365 dias por ano, durante mais de quarenta anos. Em um jogo,
algumas concessões podem ser necessárias, mas sempre com uma contrapartida.
Do contrário, o adversário torna-se mais e mais intransigente e
segue em frente com seus planos, sentindo-se impune.
Essa é
a maneira correta de tratar o Irã em relação aos seus planos
de construir um arsenal nuclear?
No caso do Irã, não fico
muito preocupado. Mesmo que o governo iraniano consiga construir a bomba atômica,
duvido que ele a utilize. Obviamente, isso daria ao Irã um bom poder de
barganha, o que não é nada agradável. Não acredito
que faria uso dessa arma, no entanto, porque Estados Unidos e Israel têm
capacidade para responder a um ataque com um poder muito superior. É um
pouco a lógica da Guerra Fria. O problema com o Irã não é
o regime dos aiatolás querer utilizar a bomba, mas essa tecnologia cair
nas mãos de grupos terroristas como a Al Qaeda, que não tem endereço.
O que mantinha o equilíbrio durante a Guerra Fria é que um lado
podia destruir o outro. A Al Qaeda não é um inimigo convencional
com um país, uma capital e um povo. Ela pode atacar e não sofre
retaliações.
O que fazer, então?
Já
foram dados incentivos para o governo iraniano abandonar seu programa de enriquecimento
de urânio. O que precisa ser feito agora é dar incentivos para que
os aiatolás não entreguem a tecnologia e o material nuclear a grupos
terroristas que não têm nada a perder. Ou seja, é preciso
encontrar uma maneira de atribuir ao Irã a responsabilidade pelas consequências
de um eventual desvio de seu armamento para mãos erradas.
Por
essa análise, Israel não precisaria fazer um ataque preventivo ao
Irã, certo?
Concordo, mas muitos membros do governo israelense
não pensam como eu. O governo nunca me consultou sobre esses temas, nunca
me pediu para analisar a questão sob a ótica da Teoria dos Jogos.
Acho que tenho mais influência no Brasil do que em Israel.
O conflito
entre israelenses e palestinos é de outra natureza, não?
No
conflito árabe-israelense, ambos os lados têm espaço para
negociação e para manobras, em uma relação de longo
prazo. Não é uma situação em que é preciso
pegar ou largar. Isso, em teoria, é bom para um processo de paz. O fracasso
vem do fato de o governo israelense ser excessivamente flexível nas negociações
com os palestinos. Fala-se apenas em paz, paz, paz. Como nos anos que precederam
a II Guerra Mundial. Os árabes não se convenceram de que nós,
israelenses, pretendemos ficar aqui. Eles dizem que somos como os cruzados, que
vieram, ficaram por mais de 100 anos e se foram. Israel, no entanto, nada faz
para convencê-los de que os judeus continuarão por aqui. Muitos dos
problemas que estamos enfrentando hoje se devem à retirada israelense da
Faixa de Gaza, em 2005. Não poderia haver nada pior para a paz. Os árabes
pensaram que estávamos capitulando, pois foi essa mesma a mensagem que
passamos a eles ao fazer a retirada unilateral. Os árabes interpretaram
nosso gesto como fraqueza, tornaram-se intransigentes, e isso afastou ainda mais
a possibilidade de uma negociação com melhores resultados.