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Ponto
de vista: Lya Luft Perfil
de um líder
"O líder
nunca favorece uns em detrimento de outros, sejam
despossuídos, sejam privilegiados. Ele não pode
ser pai dos pobres nem mãe dos ricos"
"Fica bom com ovos", dizia meu velho pai, que era sábio
e tinha bastante bom humor, referindo-se a uma pessoa sem maiores dotes além
de ser "uma boa pessoa". E explicava: "É como aquele resto de comida que
você tem na geladeira, quer aproveitar porque não está estragado,
então mistura com ovos, mexe tudo numa frigideira, e até que fica
bom". Para
nós, escolhendo novos líderes neste momento gravíssimo, isto
é, deputados, senadores e governadores, além daquele que administrará
boa parte de nossa vida o presidente da República , é
hora (com atraso, aliás) de refletir sobre o perfil de quem desejamos que
nos governe. Ser uma pessoa honrada é um primeiro requisito, nem precisa
mencionar. Ninguém quer ficar nas mãos de alguém desonesto.
Mas também precisa ser competente, informado, equilibrado e enérgico.
Respeitável e respeitador. Exemplar. Um bom líder tem de ser austero,
nunca deslumbrado, e manter sua família na mesma postura. Ele precisa,
sim, servir de exemplo para o povo: porque o chefe (como o pai) é modelo
mesmo que não queira. Um líder tem de ser preparado para
seu trabalho: boa vontade não basta, carisma eventual idem. Preparo significa
sabedoria, conhecimento, cultura geral, noção dos grandes temas
nacionais e internacionais, capacidade intelectual para enfrentar problemas. Da
capacidade emocional nem se fala, pois, se não for calmo e forte, vai se
perder depressa. Alie-se a isso muita vivência em cargos assemelhados, ainda
que em escalões mais baixos ele terá acumulado experiência,
pois a prática nos ensina mais que a teoria.
O líder nunca favorece uns em detrimento de outros, sejam despossuídos,
sejam privilegiados. Nem faz demagogia, porque isso o diminui, nem abraça
os poderosos, pois ele não pode ser pai dos pobres nem mãe dos ricos.
Deve ter uma noção bem clara de que, numa democracia, povo não
são apenas os menos afortunados, mas todos: se eleito, afinal, é
de todos que ele vai precisar. Se
não roubar pessoalmente, que não seja cúmplice de ladrões;
não sendo um canalha, que seja rigoroso com eles; e, se não for
corrupto, não poderá ser, de modo algum, amigo ou companheiro de
corruptos. Nem deverá rodear-se de pessoas assim, pois entre suas imensas
responsabilidades está a de escolher bem, de estar alerta e extremamente
bem informado quanto a sua equipe.
Qualquer líder precisa ter discernimento: capacidade de conhecer as pessoas
para escolher com dedo seguro os que vão assessorá-lo e estar perto
dele: amigos, subordinados diretos, auxiliares, os que vão freqüentar
sua residência ou o palácio, ter ali salas de trabalho, circular
e aparecer ao lado dele. Como o pai não pode saber tudo o que os filhos
fazem no quarto ao lado, talvez ele também não possa saber com detalhes
o que se passa a seu redor. Porém, tem o dever de saber quase tudo. Funcionário,
em qualquer posto, não deve ser admitido sem ficha limpíssima e
grande capacidade. E, se tiver cometido infrações sérias,
não poderá ser mantido no seu posto nem despedido para inglês
ver e depois receber consolo ou compensação longe do público.
Quando surgirem escândalos ligados
a seus amigos e colaboradores, que ele nem pense na pífia desculpa de que
não sabia de nada, que foi traído sobretudo se o problema
se repetir. Vocação para traído revela fraqueza e irresponsabilidade.
O líder que há um tempo
nos governa e nos serve não pode fugir de suas tarefas, entre as quais
está, na primeira linha, verificar e controlar com pulso firme a dignidade
e a clareza de todos os procedimentos. Por isso, o líder não se
esconde atrás de outros que se responsabilizam por suas deficiências.
Nem deve usar a força do cargo para tapar o sol com a peneira, para comprar
silêncios e desviar atenção ou fazer ajustes de última
hora em seu próprio favor.
O líder é um solitário, quase um asceta, homem ou mulher
de enorme dignidade e firmeza, humilde o bastante para saber se assessorar e se
aconselhar com os melhores de seu país, altivo o bastante para respeitar
a inteligência alheia, até dos mais simples, e precisa ser um forte:
consciente de quanto é responsável pelo que lhe foi confiado. A
quem disser que delineio o perfil de um impossível herói, responderei:
quem deseja o poder tem de ser assim.
Que esta eleição seja uma celebração do respeito e
da esperança e o resgate de nossos valores, não a instauração
da desordem oficial no reino da impunidade, pois arcamos com os gastos da festa
e com os salários, tanto da cozinheira dos palácios quanto de seus
moradores. Lya Luft é escritora
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