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Brasil | Eleições
Os sobreviventes da burocracia A
república do papel, que sufoca a eficiência do país, só
é ruim para o cidadão comum. Para os corruptos, é uma
maravilha 
Chrystiane Silva
Montagem sobre fotos Getty Images e AP
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Há
muito se sabe que a interferência do Estado na vida dos cidadãos
e empresas brasileiros paralisa a ordem econômica e cria uma cultura de
submissão da população ao Estado. O empresário que
decide montar um negócio no Brasil passa cinco meses, em média,
preenchendo formulários, pagando taxas e percorrendo órgãos
públicos até conseguir registrar legalmente uma companhia. Sem concluir
essa maratona, não pode criar, produzir, vender, prestar serviços
ou contratar empregados. Em suma, não consegue se auto-realizar, gerar
riqueza ou conhecimento. Fechar uma empresa é um processo ainda mais demorado:
pode consumir até dez anos. Na comparação internacional,
o caos burocrático brasileiro beira a infâmia. Na Austrália
bastam dois dias para uma companhia estar legalizada e pronta para funcionar.
Na paupérrima Namíbia, são necessários 95 dias para
abrir uma empresa. Não é por menos que o ambiente brasileiro de
negócios ocupa a 119ª posição, à frente do haitiano
e do angolano, no Doing Business, estudo do Banco Mundial que disseca e classifica
as dificuldades encontradas por empreendedores em 155 países.
Isso, como já foi dito acima, já se conhece. Fala-se pouco, no entanto,
sobre os motivos pelos quais a burocracia tanto resiste no Brasil. Exigências,
prazos e documentos desnecessários não surgem do vácuo. É
como a conhecida história do jabuti. Se ele está em cima da árvore,
alguém o colocou lá jabuti, afinal de contas, não
sobe em árvore. Também é um erro ver a burocracia apenas
como um produto da burrice humana. A burocracia só é burra na visão
das vítimas. Ela é inteligente na outra ponta, quando protege cartórios,
enriquece grupos de interesse e alimenta corruptos que sobrevivem no anonimato
e sobreviverão por pelo menos quatro anos, a julgar pela irrelevância
do tema no atual ciclo de debates eleitorais. Segundo o advogado João Geraldo
Piquet Carneiro, presidente do Instituto Hélio Beltrão e um dos
maiores especialistas no assunto, as máfias que lesam licitações
públicas são alguns dos grupos que se beneficiam da burocracia.
Basta observar como a miríade de controles formais, de exigência
de certidões negativas de tributos e encargos federais, estaduais ou municipais,
é usada para beneficiar ou prejudicar empresas em compras públicas.
Outro grupo forte de interesses é formado por despachantes e por donos
de cartórios. De longe, o maior patrono da burocracia é o Estado
paquidérmico, sofisticado ao cobrar impostos e lento ao devolver dinheiro
aos cidadãos. A obsessão por controles fiscais, fruto da incapacidade
governamental de controlar gastos públicos, estabeleceu um modo dissimulado
de tirania do governo sobre a sociedade. No limite, a prática de atos elementares
da vida civil depende de um estado de absoluta regularidade fiscal. "Quem deve
qualquer obrigação ao Fisco, por menor que seja, está fora
da economia formal, torna-se um pária. Na ordem atual, o barão de
Mauá, que faliu duas vezes e enriqueceu de novo, não teria entrado
para a história", diz Piquet Carneiro.
O grau de burocracia está refletido no tamanho e no peso dos governos sobre
a sociedade. Nas últimas décadas, o Estado ampliou seu controle
sobre a vida nacional e passou a interferir diretamente na iniciativa privada.
De regulador, tornou-se promotor do desenvolvimento. O acúmulo de trâmites
começou a ficar insustentável durante os anos 80, época em
que foi criado o Ministério da Desburocratização, sob o comando
de Hélio Beltrão. De lá para cá, algumas iniciativas
deram bom resultado, como o processo de privatização das estatais,
importante para diminuir a mão do Estado na economia. Mas, de maneira geral,
o Brasil regrediu ao estágio de um dos países mais burocratizados
do mundo. "Parece que voltamos à era do alvará régio. Para
produzir e vender qualquer coisa, depende-se de autorização prévia
do governo. Foi-se o rei, mas guardamos o alvará", diz Piquet Carneiro.
O mais cruel é a inexistência de qualquer vestígio de política
pública para reduzir a interferência indevida do governo na vida
das pessoas e das empresas. Não adianta dizer que a informática,
a internet e o governo eletrônico facilitam a vida do cidadão. Ele
apenas toma conhecimento mais depressa de que, havendo qualquer "pendência"
perante o governo, não poderá vender, criar empresa ou comprar dólar
para viajar. Veja-se o caso do imposto de renda. O Brasil é o país
com o maior porcentual de declarações entregues pela internet
98% das declarações são feitas on-line. É muito fácil
pagar impostos. Se houver algum a pagar, basta preencher um único formulário,
inclusive pela internet. Mas é quase impossível cobrar do Estado,
mesmo quando há decisões judiciais compelindo o governo a efetuar
pagamentos. Exemplo disso é a lei que determina que a cobrança de
precatórios (dívidas reconhecidas pela Justiça que o Estado
tem de pagar a empresas e pessoas) só poderá ser efetuada caso o
credor não tenha nenhuma dívida de natureza fiscal. Ocorre que,
na maior parte das vezes, o credor já deixou de pagar suas dívidas
fiscais justamente porque não recebeu do governo. Se a mesma regra valesse
para o Estado, o governo não poderia cobrar impostos dos cidadãos
enquanto não controlasse seus gastos fiscais. Taí uma boa idéia.
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